segunda-feira, janeiro 5, 2026

Por que as pessoas não estão gostando do final de ‘Stranger Things’?

DestaquePor que as pessoas não estão gostando do final de ‘Stranger Things’?

Ninguém esperava que ‘Stranger Things’ se tornasse o fenômeno mundial que se tornou. Esses tipos de erupções de popularidade são muito difíceis de prever e não podem ser planejadas. É preciso cair no gosto do grande público – e para o espectador dos quatro cantos do mundo abraçar um produto, não há qualquer planejamento. Veja bem, todo e qualquer título almeja tal sucesso, e pensando assim, podemos dizer que toda e qualquer obra audiovisual é planejada para ser consumida pelo maior número de pessoas. Todos almejam quebrar tais recordes. Mas o que eu quero dizer é que são pouquíssimos os que de fato conquistam, e para isso não há fórmula. É preciso quase um alinhamento das estrelas e planetas.

Voltando para 2016, quando a primeira temporada de ‘Stranger Things’ estreou na plataforma da Netflix, em 15 de julho, de forma tímida, esse alinhamento ocorreu, e em pouco tempo o programa se tornava a “febre” daquela temporada. Este amigo que vos fala foi um dos primeiros a poder assistir à temporada completa, antes da estreia na plataforma. A Netflix disponibiliza para os jornalistas um acesso único para que assistam antes e possam dar o seu parecer ao público, para que as pessoas saibam o que irão assistir e se realmente vale à pena. Desta forma, sem qualquer alarde, sem grandes nomes no elenco (a não ser uma Winona Ryder buscando credibilidade na carreira novamente), o programa chegava de forma sorrateira.



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Confesso que não dei a importância necessária ao programa logo de cara. Como dito, é impossível fazer qualquer previsão neste sentido. No meu caso, existia ainda um outro fator. Eu havia acabado de assistir à série ‘The Returned’ (2015), que fazia parte do catálogo como chamariz de uma recém-inaugurada Netflix, e o programa guardava muitas similaridades com ‘Stranger Things’. ‘The Returned’ era na verdade o remake americano da francesa ‘Les Revenants’ (2012), sobre um mistério sobrenatural envolvendo os moradores de uma pequena cidade, em especial crianças e suas famílias. Na versão americana, de criação de Carlton Cuse, produtor de ‘Lost’ (2004-2010), Mary Elizabeth Winstead era um dos nomes emergentes.

Assistindo a ‘The Returned’ e ‘Stranger Things’ sequencialmente, qualquer um esperaria que o programa criado pelo produtor do sucesso ‘Lost’ seria o dono de uma vida mais longeva. ‘Stranger Things’ também se garantia na emulação da nostalgia dos anos 80 – artifício muito utilizado na época, como por exemplo em filmes como ‘A Ressaca’, ‘Férias Frustradas de Verão’, ‘Uma Noite Mais que Louca’, ‘Super 8’ e ‘Terror nos Bastidores’, só para citar os que foram lançados mais ou menos na mesma época. Ou seja, pegar pela nostalgia oitentista não era assim algo muito inovador. Porém, não é preciso fazer primeiro, é preciso fazer bem. Nenhum dos filmes citados se tornou sucesso e a maioria ficou esquecido. ‘The Returned’, que não era um programa original da Netflix (e sim do canal A&E) – apenas exibido pela plataforma, foi cancelado na primeira temporada e rapidamente desapareceu. Você já tinha ouvido falar?

No final, tudo o que restou foi ‘Stranger Things’. A popularidade do programa foi tão grande, que ele ganharia um especial no SBT apresentado por Marília Gabriela, junto a boatos de que a emissora do homem do baú havia fechado um acordo para exibir a série, com o título de ‘Coisas Estranhas’. Isso nunca viria a se concretizar. Para nós jornalistas, ‘Stranger Things’ era legal, mas nada perto de ser um divisor de águas, e poderia ser cancelada, assim como ‘The Returned’, na primeira temporada. A coisa funciona mais ou menos como no cinema, em que as críticas saem antes da avaliação de bilheteria. Muitas vezes temos casos de filmes rechaçados pelos críticos, mas que se tornam sucessos financeiros retumbantes. Ou vice e versa. No caso de ‘Stranger Things’, foi só quando o programa ficou disponível para o público, que pudemos dimensionar o tamanho do abraço que receberia.

Esse sucesso garantiu logo no ano seguinte a segunda temporada. E daí foi um pulo. A sensação já estava consolidada, os personagens já haviam caído no gosto do grande público e a audiência atingia o pico para a primeira plataforma de streaming. ‘Stranger Things’ rapidamente se tornou o programa mais popular da empresa e um dos mais populares de todos os tempos. Com a terceira temporada, de 2019, os memes dominavam a internet, e todo mundo passou a conhecer o seriado. Quem poderia esquecer, por exemplo, a namorada secreta de Dustin, Suzie (Gabriella Pizzolo), cantando a música de ‘História sem Fim’, que viralizou com a ajuda das redes sociais – algo que as temporadas anteriores não contaram.

Finalmente chegamos à última temporada, o quinto ano do programa que também marcou sua despedida. É engraçado notar essa diferença da era do streaming e TV à cabo com os canais convencionais de antigamente, onde tínhamos ano após ano uma nova temporada de uma série que ainda estava no ar. ‘Stranger Things’, por exemplo, está em nossas vidas há praticamente 10 anos, mas só teve cinco temporadas.

Mas por que, com tanta adoração pela série, as pessoas não estão gostando do seu encerramento? Existem muitos fatores por trás disso. Os motivos podem ser os mais variados, dependendo do tipo de espectador que se analisa. Existem aqueles que nunca acharam ‘Stranger Things’ algo muito especial, mas assistiam sem compromisso para ficar por dentro das rodinhas de conversa. Esse tipo de espectador dificilmente se encantaria com o final de uma série a qual nunca morreram de amores verdadeiramente. A não ser que o final fosse realmente algo inovador e único. E devo dizer que realmente não foi. Não foi a reinvenção da roda. Mas ele é extremamente condizente com o que ‘Stranger Things’ sempre foi.

Agora vem o segundo grupo de espectador: o que se decepciona com qualquer coisa. E eu poderia facilmente me incluir neste grupo também. É da natureza humana criar expectativas em nossa mente sobre o que deveria ser, e quando não recebemos, ocorre o inevitável. Junte a isso o fato de que é muito difícil criar o final de uma série, pois qualquer que ele seja, não irá agradar. Vamos usar com exemplo duas das séries consideradas as melhores de todos os tempos por grande parte dos fãs: ‘Game of Thrones’ e ‘Seinfeld’. Ainda hoje ambas entram na conversa quando o assunto é série adorada, no entanto, ambas são consideradas também séries com os piores finais. Estes finais talvez tenham decepcionado pela expectativa em torno do tamanho que tais programas atingiram. E bem, podemos dizer que ambos ousaram em suas abordagens, fugindo do esperado. E não foram bem aceitos.

Com ‘Stranger Things’ ocorre o contrário, as maiores críticas foram a falta de ousadia e a previsibilidade. Certamente, se o final entregasse o inesperado também não agradaria e os argumentos seriam os mesmos que elegem ‘Game of Thrones’ e ‘Seinfeld’ como dois dos piores de todos os tempos. ‘Stranger Things’ fez o feijão com arroz? Com certeza. A série não se arriscou, não ousou. Correto de novo. Ela entregou exatamente o que o público que acompanhou esse tempo todo queria, afinal a série sempre foi convencional e nada ousada, apenas brincava de ser afiada, mas é conservadora no sentido narrativo. Não dá para esperar que uma série assim entregue um final mirabolante e que fuja de sua essência. É esperar que ‘E.T. – O Extraterrestre’ tenha um final de ‘Clube da Luta’.

A vantagem de ‘Stranger Things’ é que ela nunca foi ‘Lost’. Ou seja, ao jogar no seguro, ela nunca deu um passo maior do que a perna. ‘Lost’ se tornou um programa ambicioso demais para o seu próprio bem, e os fãs no fundo sabiam que não existiria “payoff” que justificasse. É como sair amarrado em muitos balões, você levanta voo e é excitante, sobe, sobe, mas sabe que não vai ter mais como descer. ‘Lost’ não tinha como agradar em seu desfecho, e este é o caminho que parece estar seguindo uma série como ‘Ruptura’, por exemplo, em que ganhamos mais perguntas do que respostas, até se acumularem tanto, que até esquecemos qual foi a primeira pergunta que fizemos e não tivemos resposta. É a esquisitice pela esquisitice.

Stranger Things’ pode ser uma das séries mais populares de todos os tempos, mas é uma das melhores de todos os tempos? Bem, não. O que ela possui é o apelo do chamado “quatro quadrantes”, ou seja, apela aos quatro grupos demográficos: homens e mulheres, mais jovens e mais velhos. Isso explica sua chamada falta de ousadia, afinal é preciso continuar agradando todo tipo de espectador.

Em resumo, o final de ‘Stranger Things’ foi condizente com a proposta da série ao longo de todos esses anos. E como não vibrar ao ver a personagem de Winona Ryder arrancar a machadadas a cabeça de Vecna, empalado no dente da criatura colossal, lembrando de todas as vidas que ele tirou e o mal que causou a cada um dos personagens, em flashbacks de temporadas anteriores. Ele teve inclusive a chance de redenção, porém, se optassem por esse caminho aí sim que o povo iria chiar. Afinal o que todos queriam ver era o acerto de contas entre o bem e o mal, a mais antiga fórmula de todas. A decapitação é catártica, é a lavada na alma, e remete, por exemplo, a ‘Halloween H20’, o desfecho perfeito daquela franquia.

E o que dizer da corajosa afirmação de Will (Noah Schnapp), o mais sofrido dos quatro amigos, que finalmente ascendeu duplamente, ao mostrar sua verdadeira força e assumir sua sexualidade. O vislumbre de seu futuro na cena final foi um dos mais satisfatórios, mostrando que agora o personagem pode finalmente assumir as rédeas de sua vida sem medo, livre e sem restrições, se descobrindo por completo. Impossível não se emocionar. Assim como a mais bem-vinda adição ao elenco principal: a graciosa Holly (Nell Fisher), a irmã mais nova de Mike (Finn Wolfhard), que sempre esteve lá de pano de fundo, e ganha grande importância nesta temporada final. É ela quem fica na linha de frente, encarando os terrores de Vecna, dentro da mente do vilão. Ela é a responsável por salvar as outras crianças e no último episódio se mostra uma verdadeira líder, corajosa e confiante.

Todos os personagens tiveram os finais que precisavam ter. O mais interessante e emocionante, no entanto, foi o círculo perfeito que se fecha quando a última cena do programa se conecta com a primeira da temporada um. ‘Stranger Things’ abriu sua narrativa em 2016 com os quatro amigos jogando o RPG ‘  ’ no porão da casa de Mike. Todos que cresceram naquela era analógica se identificam de imediato. E aqui, no final, assim como o público, eles mesmos voltam àquela nostalgia inicial agora mais velhos, tendo se formado no colégio. Ao invés de festas com garotas, eles resgatam o tempo perdido de sua amizade após tantos entraves e perigos, ao mesmo tempo em que vemos uma passagem de bastão – com uma nova geração assumindo seus lugares, encabeçada pela mesma Holly.

O final de ‘Stranger Things’ foi repleto de emoção, suspense, ação e claro, drama – a despedida de Eleven (Millie Bobby Brown) foi de partir o coração. Ao mesmo tempo, deixou migalhas no chão para possibilidades no futuro. Foi um final perfeito? Bem, depende do que se entende pelo conceito. Para muitos sim. Para outros tantos não, bem longe disso. O que eu diria é que foi um final perfeito para ‘Stranger Things’ – o que não significa que foi um final perfeito para você.

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Pablo R. Bazarello
Crítico, cinéfilo dos anos 80, membro da ACCRJ, natural do Rio de Janeiro. Apaixonado por cinema e tudo relacionado aos anos 80 e 90. Cinema é a maior diversão. A arte é o que faz a vida valer a pena. 15 anos na estrada do CinePOP e contando...
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