Texto livre de spoilers.
Desde sua estreia em 2013, ‘Rick e Morty’ trilhou um caminho de enorme sucesso que a sagrou como uma das melhores séries animadas das últimas décadas – apostando fichas em narrativas irreverentes e recheadas de tropos sci-fi que serviram de máscara para temas profundos como vingança, ressentimento, família e a efemeridade da vida, carregadas de incursões niilistas e de personagens muito bem arquitetados que caíram no gosto da crítica e do público. E, após uma sétima temporada um tanto quanto desequilibrada em virtude de inúmeras polêmicas internas, somos convidados a retornar para esse expansivo universo com um ambicioso oitavo ciclo que tem lançamento agendado para 26 de maio na Max.
Trazendo Ian Cardoni e Harry Belden de volta como os personagens titular, respectivamente – que substituíram o criador Justin Roiland após alegações de assédio sexual que resultaram em sua demissão permanente do projeto e da Adult Swim -, a nova leva de episódios resgata toda a glória das temporadas predecessoras à medida que revela ter espaço de sobra para incursões originais. É notável como, ciclo após ciclo, as análises filosóficas sobre os constantes adventos da tecnologia tornam-se mais ácidas, satíricas e pungentes, aliadas ao melhor que a ficção científica pode oferecer e contando com sequências sangrentas que reiteram o teor para maiores de dezoito anos da obra. E, talvez como nunca, a metalinguagem e a autoconsciência da série se elevam a níveis estratosféricos, permitindo um encontro entre passado e presente vibrante e envolvente.

A plataforma disponibilizou aos críticos quatro dos dez capítulos que integram a oitava temporada – e é muito estar de volta da melhor maneira possível. Em “Summer of All Fears”, episódio que abre a iteração, lidamos com um inesperado amadurecimento de Morty e Summer (Spencer Grammer) como corolário de mais um experimento de Rick – cujas lições de moral transformam-se em uma mixórdia de estresses pós-traumáticos que ambos levam para uma jovialidade que parece perdida no tempo. E, à medida que o episódio explora a cronologia como um construto social, outras incursões ganham vida em episódios como “The Rick, The Mort & The Ugly”, que nos leva de volta à Cidadela para mais uma antológica jornada que teve início lá no ciclo de estreia; “The Last Temptation of Jerry”, que ajuda a reiterar a presença de um dos personagens mais divertidos da série em um inesperado arco pascoalino; e “Cryo Mort a Rickver”, que aposta fichas em disparidades sociais e econômicas em uma sociedade aparentemente aperfeiçoada.
Cada capítulo é executado com maestria e com uma preocupação estética que não reflete apenas a evolução identitária da animação, como mantém-se fiel à multiplicidade gritante de cores e a reafirmação do universo como um caótico infinito que é impossível de ser explorado por completo. Fill Marc Sagadraca, escalado como um dos diretores principais, faz um trabalho memorável e que denota um conhecimento profundo da atração – o que não é surpresa, visto que ele já emprestara suas habilidades para “Analyze Piss”, da sexta temporada; Jess Lacher e Heather Anne Campbell, que participam do numeroso time de roteiristas, chamam a atenção pelo conflito entre individualismo moral e ética humana em seus esquadrinhamentos, de maneira a garantir que a ironia seja força-motriz; e nada disso seria possível sem a profética e bem-vinda perspectiva oferecida por Scott Marder, que assumiu o cargo de showrunner desde a 5ª temporada.

Falar do trabalho do elenco de voz parece desnecessário a esse ponto, mas certos aspectos merecem comentário: Cardoni e Belden fizeram um bom trabalho ao encarnarem os personagens titulares pela primeira vez em 2022 e, agora, mergulham de cabeça em uma zona mais confortável que arranca deles performances aplaudíveis; Grammer reitera-se como uma das maiores dubladores da atualidade ao fornecer mais camadas a Summer, em seu contínuo arco de rebeldia e libertação; e Sarah Chalke e Chris Parnell, voltando como Beth e Jerry Smith, continuam a entregar atuações memoráveis, através de uma química disruptiva que acrescenta ritmo e dinamismo à obra – principalmente em “The Last Temptation of Jerry”.
A oitava temporada de ‘Rick e Morty’ é um sólido retorno às raízes cujos mínimos equívocos são ofuscados por uma beleza artística e técnica que nos arrebata desde os primeiros minutos – e que reacende a chama do interesse que nutríamos pela animação desde sua estreia há quase uma década e meia.
