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Crítica | Bom dia, Verônica – Suspense Policial e Bizarrice em Ótima Série Brasileira da Netflix


Nos últimos anos, diversas produções brasileiras têm ganhado espaço na plataforma da Netflix. Algumas têm sido bem sucedidas, outras, nem tanto. Independentemente, é, sim, muito importante (e muito legal) ver as produções brasileiras ganharem cada vez mais espaço – e, consequentemente, ganharem o mundo. Em ‘Bom dia, Verônica’, o espectador vai se deparar com uma superprodução cuja história universal vai impactar qualquer pessoa no mundo.

Verônica (Tainá Müller) é escrivã na Delegacia de Homicídios de São Paulo. Um dia ela chega ao trabalho e é surpreendida pelo suicídio de uma mulher na sua frente. O impacto daquela violência a impele a investigar o caso com a ajuda do técnico de informação (Sílvio Guindane), mesmo contra a vontade do delegado Carvana (Antônio Grassi) e da favorita à sucessão do cargo dele, Anita (Elisa Volpato). Então, a ligação de Janete (Camila Morgado) faz Verônica perceber novos perigos reais que ameaçam a vida das mulheres em São Paulo.



Criada pelo escritor Raphael Montes e baseada no livro homônimo escrito por ele e pela criminóloga Ilana Casoy (sob o pseudônimo Andrea Killmore e lançado pela editora Darkside Books), o tema da série é de suma importância: a violência contra a mulher. Disfarçado de suspense policial, ‘Bom dia, Verônica’ joga luz sobre a recorrência e a brutalidade do feminicídio na maior capital brasileira, e como a recepção negligenciada desses crimes contribui diretamente com o crescente descaso para com as vítimas e o número baixo de punição aos agressores.

O roteiro a dez mãos – além dos escritores, teve também a contribuição de Gustavo Bragança, Davi Kolb e Carol Garcia – constrói bem o escalonamento da atmosfera de suspense policial, pincelada aqui e ali com cenas de tortura e cruel brutalidade e encerrando cada episódio com um gancho que obriga o espectador a seguir para o próximo capítulo. Com a história focada na protagonista Verônica (através da qual Tainá Müller brilha, mostrando total competência em conduzir a trama), o roteiro também mede bem a evolução da história pessoal dela com seu trabalho e com os dramas das vítimas, entrecruzando-as no momento certo.

José Henrique Fonseca topou a direção de um projeto denso, que partia do universo particular nacional com a intenção de alcançar o resto do mundo. O resultado é uma direção firme, com uma fotografia intimista por vezes claustrofóbica, e atuações ótimas.

Apresentando um tema extremamente relevante, ‘Bom dia, Verônica’ pode se tornar importante ferramenta de debate no combate ao feminicídio. É uma produção cuidadosamente feita, mas, como diz a própria protagonista, “continuar existindo já é resistir”, e, por isso, “tanta dor um dia cansa”. Para que as mulheres não se cansem, a série abre o canal de conversa www.wannatalkaboutit.com

Bom dia, Verônica’ é uma ótima série de investigação policial com um muito bem-vindo serviço de alerta para a sociedade. Vai agradar aos fãs do gênero, que, certamente, já vão pedir ansiosamente pela segunda temporada.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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