Inspirado nos quadrinhos de um personagem trágico do Universo Marvel, Magnum chega ao Disney+ na próxima terça-feira (27) em uma minissérie que já parecia ganhar status de lenda urbana do MCU, tamanha a quantidade de correções de rotas realizadas nesse universo desde o anúncio da produção. Felizmente, ela foi concluída – apesar dos atrasos – e está espetacular.
Protagonizada por Yahya Adbul-Mateen II, a série se diferencia de praticamente tudo que já foi lançado no Universo Cinematográfico Marvel por contar a história de Simon Williams (Mateen), um homem com habilidades especiais que não se orgulha de seus poderes e nem acha legal estar nessa situação. Na verdade, ele faz de tudo para esconder dos outros do que é capaz por sentir vergonha e acreditar que tornar seus superpoderes públicos reduzirá suas chances de ser aquilo que sempre sonhou: um ator respeitado.

Nesse contexto, a série foca completamente em desenvolver o ser humano por trás do super-herói, fazendo um grande estudo de personagem em vez de dar palco para aquelas cenas dele zoando a torto e a direito enquanto descobre seus poderes. Até metade da minissérie, por exemplo, deve haver 15 segundos de cenas dele sendo “super”. E por mais estranha que possa soar essa descrição para uma série da Marvel, ela promove um resgate bem interessante da Era de Prata dos quadrinhos, época que consagrou a Marvel Comics como o fenômeno revolucionário dos gibis no século passado.
Foi nesse período que a “Fórmula Marvel” nasceu. Criada essencialmente Jack Kirby e Stan Lee, ela dava mais destaque às identidades secretas em vez dos super-heróis. O público se conectava com os personagens pela identificação com seus problemas cotidianos em vez de apenas se encantar com a porradaria do “Super do Bem” contra o “Super do Mal”. Nesse ponto, Magnum é um produto que bebeu diretamente dessa fonte, já que a maioria da série explora a psique desse super-homem que passa perrengues terríveis na caminhada para realizar seu sonho, que é atingir o estrelato em Hollywood. Em vez de cenas de pancadaria, a produção mostra Simon perdendo a namorada por se dedicar demais a um trabalho que não dá retorno financeiro, por exemplo. Ele passa dificuldades financeiras e acaba sustentado pela própria mãe porque seu sonho não é rentável, e acaba sendo humilhado pelos parentes por conta disso. Ele tenta dar seu melhor em todas as “entrevistas de emprego”, mesmo que sejam para trabalhos pequenos, e acaba sendo dispensado por se empenhar demais… Todo mundo conhece alguém que está passando por uma fase assim, isso se não for você mesmo que está vivendo esse momento conturbado, principalmente se for membro da classe artística.

Diante dessa proposta de buscar a identificação com o cotidiano, Magnum passeia pelo mundo de Hollywood com um humor deliciosamente irônico, o que inclui participações especiais muito interessantes de atores do meio dando vida a si mesmos, e passeios intermináveis pelos cenários de Los Angeles, sejam eles ao ar livre ou nos pontos carimbados de lançamentos de filmes e séries. É interessante ver como a minissérie não está focada em se autopromover e nem em sacanear a própria Marvel, como muitos acreditavam que seria. Ela está ali para trabalhar essa ideia de “como seria Hollywood em um mundo em que o Hulk está à solta por aí e é amado pelas crianças?”, e consegue fazer isso muito bem.
Os dramas do protagonista, que está tentando conseguir o papel no remake do filme Magnum, seu personagem favorito da infância, dialogam os questões reais e mostram um pouco mais do tormento que esse rapaz vive em função do trauma de ter superpoderes e de acreditar que a arte é sua única saída. E o público vai descobrindo mais sobre isso conforme ele se abre com Trevor Slattery (Sir Ben Kingsley), que foi de ator promissor a figurinha detestada, após ter interpretado o Mandarim nos esquemas terroristas mostrados em Homem de Ferro 3 (2013). Eles são opostos que se reconhecem no amor pela arte e desenvolvem uma relação muito divertida e cheia de polêmicas.

No fim das contas, Magnum tem tudo para ser a melhor série da Marvel que muitos sequer sabem que será lançada. Mesmo fugindo do padrão, ela é divertida, dramática e muito interessante, principalmente para quem sempre teve curiosidade pelos bastidores de Hollywood ou quem sonha em ser ator. Ela pega esses sonhos e estereótipos e trabalha eles com muito carinho. É uma produção que parece promissora mesmo sem conectar o personagem a projetos futuros.



