Atenção: o texto a seguir discorre sobre o primeiro episódio.
O cenário audiovisual brasileiro continua, mesmo depois de ter provado diversas vezes o contrário, sofrendo de estigmas quanto à qualidade e à versatilidade as produções que entrega ao público – com muitos “comentaristas de internet” tecendo críticas vazias e sem sentido a títulos que representam apenas um lado da criatividade nacional (normalmente, referindo-se às comédias cinematográficas e seriadas). Porém, é um fato dizer que essa limitação não existe, considerando a expressividade do Cinema Novo, do realismo mágico que ganhou força a partir dos anos 1960 e 1970 e de poderosos dramas que encantam a crítica e os cinéfilos ao redor do mundo – como foi o caso de ‘Ainda Estou Aqui’ e ‘O Agente Secreto’, que representaram o Brasil no Oscar.
Agora, a Netflix aposta em mais uma incursão original com o vindouro lançamento de ‘Habeas Corpus’, drama jurídico estrelado por Marjorie Estiano e Any Gabrielly – e que, à medida que presta homenagens a um dos gêneros mais populares no escopo mainstream mundial, constrói uma identidade única que navega pelos trâmites e pelas inconsistências da justiça brasileira sem renegá-la, mas sim procurando entendê-la em sua complexa completude. E, ao abrir portas para uma narrativa que não é muito esquadrinhada no cenário nacional, o criador Luiz Villaça, ao lado de Leonardo Moreira e Donna Oliveira, mostra que ainda há muitas histórias a serem contadas.
A série é inspirada no Innocence Project Brasil, primeira organização do país a focar especificamente nas graves falhas da justiça brasileira, focando em condenações de pessoas inocentes. Peneirando mais de 9 mil casos computados pela organização, Villaça constrói um enredo linear e não-episódico que nos apresenta à Dra. Inez (Estiano), uma ex-advogada que, após um forte trauma em um dos casos mais problemáticos de sua carreira, atua como professora de Direito – mas nunca deixou sua necessidade de defender as vítimas do corrompido sistema judiciário de lado e reúne um grupo de estudos para reabrir o caso de um jovem que, ao que tudo indica, foi forçado a confessar um crime que não cometeu.
Funcionando como seu braço-direito, temos Marina (Gabrielly), uma aluna-prodígio que tem um tato inexplicável para conseguir tudo o que consegue através de um carisma e de uma determinação inenarráveis. Todavia, ela também esconde um trauma que se transformou em um desejo de retaliação e que começa a borrar a linha entre a justiça e a vingança, incrementando essa intrincada narrativa com uma complexidade apaixonante e que reafirma a atmosfera de suspense que Villaça e seus colaboradores pretendem nos entregar.
Diferente do que podemos imaginar, ‘Habeas Corpus’ não nutre de muitas similaridades com as várias produções estrangeiras desse mesmo estilo – se afastando da configuração procedural de ‘Law & Order’ e até mesmo do caráter mais violento e cru de ‘How To Get Away With Murder’ (dois populares títulos que vêm à mente quando assistimos ao trailer da atração). O que temos aqui é um produto inteiramente nacional que bebe de inúmeras fontes para encontrar ritmo, identidade e dinamismo, arquitetando uma exploração, ainda que breve, das engrenagens judiciárias do Brasil à medida que aposta num sólido estudo de personagens.
O primeiro capítulo da série não é livre de erros, destinados principalmente a uma picotada montagem no ato introdutório da narrativa que falha em nos envolver na ambientação, mas que logo encontra caminho em um senso de urgência constante que se estende para outros personagens – incluindo os interpretados por Vladimir Brichta, Natália Lage, Danton Mello e Naruna Costa, cada qual com sua importância para o desenrolar da trama. Apesar dos deslizes, o episódio volta aos eixos logo no início da história presente e nos deixa engajados até um ótimo cliffhanger que nos prepara para os próximos capítulos.
Lembrando que ‘Habeas Corpus’ chega à Netflix em 23 de setembro.

