Primeiras Impressões | 'O Mecanismo': José Padilha e Netflix remontam a Lava-Jato

Primeiras Impressões | 'O Mecanismo': José Padilha e Netflix remontam a Lava-Jato

Nota:

A câmera passeia por uma pilha de papéis em uma mesa de madeira, um cinzeiro de vidro reflete uma série incontável de bitucas que evidenciam o acalento de um vício. A densa fumaça de mais um cigarro se desenha no ar, enquanto um maço é amassado e jogado ao lixo. As primeiras imagens da mais nova série brasileira da Netflix, ‘O Mecanismo’, destacam aquela bela assinatura de José Padilha à frente da direção. Abrindo o episódio de estreia com um Selton Mello que não mostra seu rosto, mas deixa sua voz ecoar de maneira pesada e exausta, a produção já anuncia o peso pago por todos os brasileiros com a corrupção enraizada. Sistêmica e categórica, ela é também social. Seus reflexos são destilados por Ruffo, um policial federal cansado demais para medir suas palavras e ações.

É sempre delicado tentar dimensionar uma temporada inteira em apenas três episódios. Como uma narrativa que é progressiva, ela se revela em camadas e deixa no ar algumas perguntas iniciais que não poderiam ser respondidas em apenas três horas assistidas. Mas é inerente o seu valor. Nos apresentando logo de cara os personagens essenciais que traçam a rota da corrupção e aqueles que a combaterão, ‘O Mecanismo’ tenta fazer um raio X do maior problema existente no Brasil, trocando nomes, mas buscando manter as características visuais. Em um país onde se perde a conta de quantos bilhões são roubados e quais são todos os nomes vinculados, são esses maneirismos que entregam os seus autores. Respeitando a integridade dos algozes dos crimes ainda em julgamento, revemos aquelas figurinhas carimbadas dos telejornais com os mesmos comportamentos. O nomes podem até ser diferentes, mas a identidade é clara e inevitável.

Baseado no livro Lava Jato: O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, de Vladimir Netto, a série tem uma rota de eventos reais a seguir e lhe confere o direito à liberdade de criação para dramatizar os fatos quando necessário. Fazendo o uso deste formato docu-drama, a produção criada por José Padilha e Elena Soares já garante que não medirá as palavras, tratando a corrupção de forma escrachada e impetuosa. Remontando os acontecimentos e desdobramentos da Operação Lava-Jato, que temos absorvido desde 2014, somos introduzidos à trama como espectadores quase oniscientes, que percebem as lacunas na apuração dos crimes, testemunha a intimidade dos corruptos delatores e observa aquilo que os personagens ainda descobrirão.




Em uma direção que explora os planos abertos, as imagens panorâmicas que seriam os cartões postais de cidades como São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Curitiba, e o contraste entre a luz e as sombras, temos um elenco poderoso e real, liderado por Selton Mello. Com uma atuação que realça os olhos cansados, um par de olheiras profundas e um corpo arrastado pelas circunstâncias que testemunha, o astro brasileiro encanta os olhos e nos surpreende por sua narrativa particular ser tão chocante em tão pouco tempo. Em apenas três episódios é possível ver um dos melhores trabalhos do ator e ficamos atordoados com o desenrolar do seu arco. Com um grande ponto de interrogação sobre o que Padilha quer fazer com ele, os primeiros episódios geram uma ansiedade tremenda pelo que vem por aí. E ao lado de Mello, Caroline Abras é aquela mulher forte que se posiciona facilmente. Fictícia como a própria atriz disse, ela é cativante e inspiradora como tantas mulheres reais.

Chegando a 190 países na próxima sexta-feira (23), ‘O Mecanismo’ vai destacar o Brasil no mapa com uma produção de calibre internacional, que valoriza a produção de entretenimento em solo nacional, projetando-na a outros mercados de grande porte. Ironicamente, à medida que ela já se torna um orgulho por sua qualidade fílmica, ela também nos envergonha pela essência da trama muito bem narrada, incrustada em verdades que ainda doem e são sentidas pelo brasileiro, em virtude da corrupção. Mas honestamente, tem que ser assim. Em terra onde um crime hediondo desses é vangloriado a portas fechadas de gabinetes suntuosos, que o cinema e a TV sejam os porta-vozes dessa verdade inconveniente. A série vai incomodar, provavelmente chocará e vai também estimular uma discussão mundial sobre um problema que atravessa décadas, políticos e bolsos das mais diversas classes sociais. E com o assunto nas mãos de Padilha, não espere menos do que ele já nos entregou no passado.





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