Existe um universo real e genuinamente sagaz por trás das câmeras. Entre jogos de poder e disputa de egos, contextos perversos regados por uma sexualidade aflorada formam os temíveis relatos de bastidores do mundo televisivo. Assim como em Hollywood, há um submundo obsceno e vulgar, uma cultura que em tempos de #MeToo já se torna cada vez mais insustentável. E embarcando na onda de Escândalo, que narra a luta da jornalista Megyn Kelly contra a sucessão de abusos sexuais perpetuados na Fox News, e até mesmo em sua biografia Settle for More – onde ela detalha os anos de condutas misóginas e machistas aos quais ela foi submetida em seu trabalho, The Morning Show chega com a mesma ambição. Buscando transformar o entretenimento em um mecanismo denunciante, a nova série original da Apple TV+ tem potencial enorme, mas ainda precisa comer muito mingau para se igualar a Succession, da HBO.

O principal chamariz da ambiciosa série não está exclusivamente em seu elenco. Se apropriando, com uma certa ousadia, da premissa atual mundial, a produção visa levar a audiência para as entranhas de uma das principais redes de TV norte-americana, uma clara alusão à própria Fox News. Aqui, o homem que se tornou o rosto da emissora vê sua jornada profissional se desestruturar, ao ser alvo de uma série de acusações de assédio sexual e – porque não – abuso emocional. Mitch Kessler (Steve Carell) se encontra aqui, pela sua ótica, como mais uma “vítima” do Movimento #MeToo, observando sua infindável carreira derreter em um piscar de olhos, a ponto de escorrer inteiramente por entre seus dedos. Nesse contexto, Alex Levy – vivida por Jennifer Aniston – se torna uma apresentadora órfã e aquém ao mundo que a cerca. Bem sucedida, mas “velha” demais para continuar em sua posição de poder, ela terá que retomá-lo na garra, custe o que custar. E é aqui que entra o bode expiatório da vez, Reese Witherspoon, conhecida também como o elo que fortalece e conecta toda a série.

O forte potencial de The Morning Show está exatamente em Reese Witherspoon, que embora repita alguns trejeitos de Madeline de Big Little Lies e de Cheryl Strayed de Livre, tem seu charme e sabe garantir que todos os demais personagens e arcos – involuntariamente – orbitem ao seu redor. Conduzindo a trama a partir de seu mau-humor e irreverência unapologetic, ela garante o sabor agridoce da produção, sendo aquela que nos faz revirar os olhos e, simultaneamente, salivar querendo um pouco mais dessa porção. Anniston e Carell se entregam em suas caracterizações, mas patinam em tornar seus arcos tão cativantes quanto o de Witherspoon, que vai de coadjuvante à protagonista em uma fração de explosivos diálogos e ataques súbitos de ira.

Mas a fragilidade da ousada série do streaming Apple TV+ está em manter parte de seu roteiro simples demais. Com a faca e o queijo em mãos para extrapolar algumas limitações, a produção insiste em manter-se em sua zona de conforto, tocando em assuntos polêmicos, mas nunca se aprofundando demais em sua narrativa, a fim de extrair algo que seja genuinamente desconfortável de ser assistido. Com a habilidade de se apropriar dessa extensa confusão envolvendo a emissora NBC e o apresentador Matt Lauer – que responde por acusações de abuso, assédio sexual e estupro, The Morning Show se restringe ao lugar comum, fazendo com que, em alguns momentos, sua trama perca a intensidade que lhe é devida. Talvez o que falte em seu roteiro seja a astúcia indelicada e subversiva de Succession, produção original da HBO que une duas temáticas: O poder de um dos maiores conglomerados midiáticos do mundo e a conturbada família que detém essa quantidade absurda de influência sócio política e financeira. Esta última, por sinal, é um primor desde a construção de seus personagens ao desenrolar dos arcos.

Com um tempero ainda suave demais para o teor de sua narrativa, a série da Apple ainda pode melhorar. Naturalmente atraente para os fãs de produções jornalísticas, ela possui suas falhas, é um tanto aguada, mas tem potencial para encorpar o seu caldo, principalmente se começar a apresentar personagens profundamente mais conflitantes e dúbios. E mesmo com todas as suas falhas, The Morning Show não é uma experiência perdida. Cativante em muitos momentos e até envolvente em outros, a nova série pode ocupar o lugar de The Newsroom com honra, basta apenas revelar a temida caixa de Pandora que Megyn Kelly já nos fez o favor de abrir no mundo real. Aguardando ansiosamente pelos esqueletos que sairão do armário.

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