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Retro Dance #31 | Revisitando ‘Guilty Pleasure’, o subestimado segundo álbum de Ashley Tisdale


A carreira de Ashley Tisdale é um tanto quanto interessante de ser acompanhada – e mostra que, mesmo no auge de um estrelato inegável, o lado obscuro da fama sempre tem um jeito de nos alcançar. Afinal, após estrelar a série ‘Zack e Cody: Gêmeos a Bordo’ e conquistar o mundo com sua ótima rendição como Sharpay Evans na trilogia musical ‘High School Musical’ (que inclusive lhe rendeu um spin-off), a atriz e cantora resolveu investir em sua carreira musical com seu álbum de estreia ‘Headstrong’ e o popular single “Be Good To Me”. Dois anos depois, ela promoveu um amadurecimento em sua própria identidade artística com uma investida mais ousada e ambiciosa, que ganharia o título de Guilty Pleasure e que, de fato, merecia maior reconhecimento do que teve à época de seu lançamento.

Apesar de ter estreado em 12º lugar na Billboard 200 (uma posição muito boa para um nome conhecido dentro do panteão da Casa Mouse), o compilado de originais teve recepção mista por parte da crítica especializada, que teceu comentários sobre a “natureza regurgitada” do projeto e o caracterizou como um rip-off de artistas como Ashlee Simpson, Britney Spears e Kelly Clarkson. Todavia, é notável como o álbum de Tisdale foi injustamente maltratado e, anos depois de seu lançamento oficial, revisitá-lo é um bom trabalho que revela os primeiros passos de uma performer apaixonada pela música e que começava a tomar as rédeas de sua identidade. É claro que o projeto não é livre de erros, mas o resultado é aprazível o suficiente para navegarmos por leves canções que falam sobre as angústias da jovialidade, o amor e a liberdade.



Guilty Pleasure não é um álbum difícil de ser acompanhado, por assim dizer: em outras palavras, as concepções que o integram acompanham as investidas de tantos outros nomes que se aventuraram pelas explorações adolescentes e jovens-adultas, como mencionado no parágrafo acima. Dessa maneira, não espere encontrar composições profundas e que servem como reflexo da efemeridade da vida, pois esse não é o objetivo do disco: pelo contrário, Tisdale reúne-se com uma gama considerável de compositores e produtores para manter-se à par das incursões mainstream e pincelá-las com uma visão de mundo que emerge de seu âmago como um grito de independência.

Ora, não é à toa que o início dessa jornada dê-se com “Acting Out”: a faixa de abertura é o primeiro vislumbre de que o apreço pelo teen pop, pelo arab-pop e pelo dance-pop popularizados por Spears e Beyoncé anos atrás e que Ashley havia nos presenteado em ‘Headstrong’ foi deixado de lado para uma abordagem mais densa e enérgica. Não é surpresa que a track em questão se desenrole a partir de um respaldo orquestral e quase sombrio, que se expande para violoncelos e violinos antes de dar espaço a pulsões do pop-rock e do EDM em uma urgente declamação de empoderamento em que ela se vê compelida a agir para alcançar o que cobiça.

A cantora nos surpreende com o lead single do álbum, “It’s Alright, It’s OK”, facilmente uma das canções mais “chiclete” do final dos anos 2000 e uma das mais bem produzidas, que acompanhou as incursões promovidas por Katy Perry e Lady Gaga e rearranjou os conhecidos tropos em um power-pop instigante e certeiro em cada um dos elementos. Aqui, Tisdale alimenta um enredo focado em um coração partido após um trágico término que, agora, serve como combustível para que ela perceba que está muito melhor sozinha e que não se arrepende de ter deixado para trás esse triste capítulo. E, enquanto a faixa emerge como o ponto alto da produção, Ashley aposta fichas em um segundo single intitulado “Crank It Up”, delineando vibrações robóticas que nos remontam à construção de ‘Blackout’ e ‘The Fame’, por assim dizer – e um jogo de palavras bastante sonoro e sagaz.

O problema da obra é sua falta de coesão. Em outras palavras, é notável como Tisdale e seus parceiros se entregam de corpo e alma para suas respectivas tracks; todavia, quando as justapomos nessa reverberação constante, percebemos que não há exatamente uma narrativa a ser seguida, e sim fragmentos que se reúnem em um compilado descompensado que é mais bem apreciada em seus múltiplos atos. Afinal, temos a lendária Diana Warren assinando a irruptiva “Delete You”, enquanto Toby Gad traz elementos de seu trabalho em “Big Girls Don’t Cry” para tomar as rédeas de “Me Without You”; já “Hair” é uma cobiçosa música que é marcada pela presença da dupla Pop & Oak e que se vale de um discurso jocoso e um tanto intrincado para falar sobre amor.

Apesar dos claros deslizes, cortesia da quantidade infinita de nomes por trás do álbum, a artista se mostra compromissada o suficiente para entregas vocais irretocáveis e um apego notável pela teatralidade performática – como vemos na eletrônica pulsão de “Masquerade”, na antêmica “Overrated” e na singela balada “What If”, cujas rendições conseguem apagar, em parte, alguns versos formulaicos. No final das contas, Guilty Pleasure honra o título que lhe foi dado e, no momento em que compramos a ideia ofertada por Ashley Tisdale, percebemos que o álbum é, de fato, bom o suficiente para nos satisfazer.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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