Um ano depois de ter investido em sua carreira musical ao lado da banda The Scene, Selena Gomez mostrou que estava pronta para adentrar uma nova era – afastando-se das pulsões do pop-rock e do electro-rock para mergulhar de cabeça no universo mainstream do pop. A partir daí, surgiu o ótimo álbum ‘A Year Without Rain’, que teve uma recepção relativamente sólida por parte da crítica e ajudou a cimentar a carreira de Gomez no cenário fonográfico. Apesar de manter a linha narrativa da incursão anterior, ‘Kiss & Tell’, o compilado de originais demonstrou um claro amadurecimento estético e lírico e contou com algumas músicas memoráveis dentro do universo teen-pop da época.
O primeiro single promocional dessa interessante jornada veio com “Round & Round”, uma pulsante construção movida por sintetizadores bem demarcados e um apreço pelo electro-pop que funciona dentro de um enredo focado em um relacionamento que esbarra em constantes problemas e desencontros, num ciclo vicioso que precisa ser quebrado. Acompanhado de um ótimo videoclipe que coloca Gomez como uma espécie de agente secreta navegando pelas ruas monocromáticas de Londres, a faixa se mostrou a escolha perfeita para dar início a essa nova era. Não demorou muito tempo para o lançamento da faixa-título, uma pequena gema da discografia da artista que, apesar da familiaridade de uma declamação de codependência emocional (própria da mentalidade adolescente), mistura com precisão incursões do house, do EDM e do Eurodance em uma irretocável semi-balada.
Através de uma breve tracklist que inclui outras nove faixas originais, o disco é uma mistura de vários gêneros e subgêneros que pertencem a um cosmos que irradia a essência do início dos anos 2010 e a repopularização de estilos como o EDM e o synth-pop. Não é surpresa que, para além dos singles mencionados acima, outras faixas nos chamem a atenção: “Rock God”, coassinada por ninguém menos que Katy Perry (e que se sagrava um dos emblemas do cenário pop), é uma despretensiosa mistura de pop-rock e electro-pop que traz certas referências às incursões blasfemas de Madonna no final dos anos 1980, mas totalmente repaginadas à contemporaneidade; “Off the Chain” pega páginas emprestadas do dream-pop para uma fabulesca aventura que transforma-se em irrupções robóticas de múltiplos sintetizadores; e “Ghost of You”, que presta homenagem às power-pop ballads sob uma ótica mais abstrata – e que conta com alguns versos muito bem-escritos.
É notável como o álbum soa menos audacioso que o predecessor, mas a ideia por trás do projeto não é reinventar a roda, e sim se manter à par das tendências mercadológicas que dominavam as paradas à época. Não é surpresa que o sucesso comercial de ‘A Year Without Rain’ tenha ultrapassado o de seu antecessor, estreando em quarto lugar na Billboard 200 e ganhando seu espaço nos holofotes com o passar dos meses – e isso se justifica na quantidade notável de singles em potencial fomentados pela banda e pelo leque de produtores e compositores.
Além da inclusão de “Naturally” como faixa-bônus, temos a vibrante “Intuition”, performada ao lado do cantor de R&B Eric Bellinger e que mistura guitarra a sintetizadores em um electro-rock frenético; “Summer’s Not Hot”, uma faixa que serve como um “hino de verão” com afeição considerável pelo electro-pop e pelo synth-pop, ainda que soe um pouco reciclada de incursões similares; e a ótima “Sick of You”, fundida em dance-pop e electro-pop e que parte de uma premissa similar a “Stop & Erase” (obviamente, remodelada ao estilo power-pop).
Algumas escolhas não conseguem alcançar o sucesso prometido e mancham a estrutura do álbum, como é o caso de “Spotlight”: o apreço por um latin synth-pop que pincela a progressão sonora da faixa não faz muito sentido em meio às outras canções, como se tivesse sido colocada de última hora para tapar algum buraco – e os múltiplos versos pouco inspirados que estouram aqui e ali também não ajudam; e “Live Like There’s No Tomorrow”, música que integra a trilha sonora de ‘Ramona & Beezus”, sofre do mesmo mal de “Tell Me Something I Don’t Know” do disco anterior e não foge muito além dos convencionalismos de baladas antêmicas.
‘A Year Without Rain’ revela um bom amadurecimento artístico de Selena Gomez & the Scene e ajudou a eternizar uma carreira que ainda teria muito a nos contar. Trazendo músicas que caíram no gosto popular e da crítica, por mais que contornando alguns deslizes amadores, o aprazível resultado desse segundo álbum de estúdio foi forte o suficiente para nos encantar dentro dos próprios limites.
