InícioDestaqueRetro Dance #35 | 'When The Sun Goes Down', o álbum de...

Retro Dance #35 | ‘When The Sun Goes Down’, o álbum de despedida de Selena Gomez & The Scene


Antes de se tornar um dos nomes mais conhecidos da indústria do entretenimento atual, tendo atuado em produções como ‘Emilia Pérez’ e ‘Only Murders in the Building’, Selena Gomez integrava a família Disney Channel na popular série ‘Os Feiticeiros de Waverly Place’ – e não apenas se aventurava no mundo da atuação, como trilhava um caminho no circuito musical com a banda The Scene. E, depois de fazerem sua estreia com o pop punk de Kiss & Tell e navegar pelas divertidas incursões do dance-pop com A Year Without Rain, o grupo caminhou para seu prematuro fim com o lançamento de um terceiro álbum colaborativo: When The Sun Goes Down.

Lançado em 2011, o compilado de originais fez um relativo sucesso ao redor do planeta, alcançando o quarto lugar da Billboard 200 e dando vida aos singles mais famosos do grupo – incluindo a antêmica “Who Says”, a subestimada infusão de Eurodance e electro-pop de “Love You Like a Love Song” (a canção de maior sucesso da banda), e a inspiradora e vibrante “Hit The Lights”. E, contando ainda com outras oito faixas, o compilado de originais deu adeus à parceria entre Gomez e os membros do The Scene de maneira satisfatória e dentro do que esperaríamos das jocosas e despretensiosas investidas que vinham nos presenteando desde seu début.

O disco é pautado nos tipos de narrativas musicais que dialogam com a identidade que os musicistas vinham nos apresentando – e que, dentro do espectro que se pedia à época, não foge muito das obviedades. Temos uma quantidade considerável de produtores e compositores que unem forças para essa jornada em busca do prazer e dos sonhos (e que incluem aparições diretas e indiretas de nomes como Katy Perry, Britney Spears e Rock Mafia) e algumas escolhas que podem parecer estranhas a princípio, mas que são divertidas dentro de limites autoimpostos.



Enquanto os três singles ajudaram a nos preparar para o restante das tracks, também anteciparam uma profusão de gêneros que se espalham faixa a faixa – e que, apesar de não serem tão dissonantes quanto no álbum anterior, às vezes atrapalham o ritmo e a coesão da obra. Incursões como “Love You Like a Love Song” e “Bang Bang Bang” partem de uma premissa parecida que se apoia na utilização de tropos do EDM e do synth-pop e mantêm uma estrutura complementar entre si, além de trazer alguns amadurecimentos líricos e estilísticos bem-vindos e necessários. Porém, a escolha de “Who Says” como terceira faixa (e sua subsequente versão em espanhol que finaliza o álbum) quebra a atmosfera a que estávamos acostumados em um inesperado e um tanto quanto frustrante choque.

Há faixas que passam longe do radar, mas partem de uma construção mais sólida e funcional, com batidas ecoantes e reverberações e repetições que são próprias do cenário pop: “Whiplash”, que conta com a participação de Spears na composição, se encontra em meio à maximização dos sintetizadores e a base em três atos que usa vocais mais sedutores e instigantes; “My Dilemma” coloca Gomez de volta às explorações de um coração dividido entre o que ela deseja e o que lhe fará bem, enquanto “Outlaw” constrói uma espécie de microcosmos faroeste contemporânea de um antigo caso amoroso que é tão evasivo quanto um fora da lei; “Middle of Nowhere” tenta rearranjar as baladas devastadoras de uma desilusão amorosa em uma explosão impactante de EDM – e que, mesmo com boas intenções, carece da vulnerabilidade necessária para um enredo desse tipo.

Outras tracks passam longe de fazer alguma diferença nessa aventura musical, servindo como tapa-buracos exagerados demais para fazerem sentido ou para entregar algo de novo à identidade firmada pelo grupo – como é o caso das esquecíveis “We Own the Night”, trazendo Pixie Lott como colaboração, When The Sun Goes Down e “That’s More Like It”. Porém, mesmo com deslizes tão gritantes, é impossível não se deixar de levar pelo apreço pelo despojo defendido por Gomez e seus parceiros, e pela defesa de mensagens de bonança que são familiares e inofensivas.

Há quase uma década e meia, Selena Gomez & The Scene se despedia do cenário fonográfico com seu último compilado de originais. Apesar de não ter a mesma qualidade das incursões predecessoras, o disco de encerramento desse ato musical serviu mais como um exercício de treinamento para o caminho que Gomez traçaria em sua busca pelo estrelato solo do que algo inédito dentro do escopo mainstream.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
MATÉRIAS
CRÍTICAS

NOTÍCIAS