Antes de se tornar um dos nomes mais conhecidos da indústria do entretenimento atual, tendo atuado em produções como ‘Emilia Pérez’ e ‘Only Murders in the Building’, Selena Gomez integrava a família Disney Channel na popular série ‘Os Feiticeiros de Waverly Place’ – e não apenas se aventurava no mundo da atuação, como trilhava um caminho no circuito musical com a banda The Scene. E, depois de fazerem sua estreia com o pop punk de ‘Kiss & Tell’ e navegar pelas divertidas incursões do dance-pop com ‘A Year Without Rain’, o grupo caminhou para seu prematuro fim com o lançamento de um terceiro álbum colaborativo: ‘When The Sun Goes Down’.
Lançado em 2011, o compilado de originais fez um relativo sucesso ao redor do planeta, alcançando o quarto lugar da Billboard 200 e dando vida aos singles mais famosos do grupo – incluindo a antêmica “Who Says”, a subestimada infusão de Eurodance e electro-pop de “Love You Like a Love Song” (a canção de maior sucesso da banda), e a inspiradora e vibrante “Hit The Lights”. E, contando ainda com outras oito faixas, o compilado de originais deu adeus à parceria entre Gomez e os membros do The Scene de maneira satisfatória e dentro do que esperaríamos das jocosas e despretensiosas investidas que vinham nos presenteando desde seu début.
O disco é pautado nos tipos de narrativas musicais que dialogam com a identidade que os musicistas vinham nos apresentando – e que, dentro do espectro que se pedia à época, não foge muito das obviedades. Temos uma quantidade considerável de produtores e compositores que unem forças para essa jornada em busca do prazer e dos sonhos (e que incluem aparições diretas e indiretas de nomes como Katy Perry, Britney Spears e Rock Mafia) e algumas escolhas que podem parecer estranhas a princípio, mas que são divertidas dentro de limites autoimpostos.
Enquanto os três singles ajudaram a nos preparar para o restante das tracks, também anteciparam uma profusão de gêneros que se espalham faixa a faixa – e que, apesar de não serem tão dissonantes quanto no álbum anterior, às vezes atrapalham o ritmo e a coesão da obra. Incursões como “Love You Like a Love Song” e “Bang Bang Bang” partem de uma premissa parecida que se apoia na utilização de tropos do EDM e do synth-pop e mantêm uma estrutura complementar entre si, além de trazer alguns amadurecimentos líricos e estilísticos bem-vindos e necessários. Porém, a escolha de “Who Says” como terceira faixa (e sua subsequente versão em espanhol que finaliza o álbum) quebra a atmosfera a que estávamos acostumados em um inesperado e um tanto quanto frustrante choque.
Há faixas que passam longe do radar, mas partem de uma construção mais sólida e funcional, com batidas ecoantes e reverberações e repetições que são próprias do cenário pop: “Whiplash”, que conta com a participação de Spears na composição, se encontra em meio à maximização dos sintetizadores e a base em três atos que usa vocais mais sedutores e instigantes; “My Dilemma” coloca Gomez de volta às explorações de um coração dividido entre o que ela deseja e o que lhe fará bem, enquanto “Outlaw” constrói uma espécie de microcosmos faroeste contemporânea de um antigo caso amoroso que é tão evasivo quanto um fora da lei; “Middle of Nowhere” tenta rearranjar as baladas devastadoras de uma desilusão amorosa em uma explosão impactante de EDM – e que, mesmo com boas intenções, carece da vulnerabilidade necessária para um enredo desse tipo.
Outras tracks passam longe de fazer alguma diferença nessa aventura musical, servindo como tapa-buracos exagerados demais para fazerem sentido ou para entregar algo de novo à identidade firmada pelo grupo – como é o caso das esquecíveis “We Own the Night”, trazendo Pixie Lott como colaboração, “When The Sun Goes Down” e “That’s More Like It”. Porém, mesmo com deslizes tão gritantes, é impossível não se deixar de levar pelo apreço pelo despojo defendido por Gomez e seus parceiros, e pela defesa de mensagens de bonança que são familiares e inofensivas.
Há quase uma década e meia, Selena Gomez & The Scene se despedia do cenário fonográfico com seu último compilado de originais. Apesar de não ter a mesma qualidade das incursões predecessoras, o disco de encerramento desse ato musical serviu mais como um exercício de treinamento para o caminho que Gomez traçaria em sua busca pelo estrelato solo do que algo inédito dentro do escopo mainstream.
