domingo, fevereiro 8, 2026
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Retro Dance #36 | ‘Guilty Pleasure’ e o início do amadurecimento artístico de Ashley Tisdale





Ashley Tisdale ganhou fama mundial ao interpretar Sharpay Evans na franquia musical High School Musical, eternizando uma das “vilãs” mais icônicas do panteão Disney Channel. Em meio ao término da saga infanto-juvenil em 2008, Tisdale já havia se lançado à carreira musical solo, seguindo os passos de tantas outras artistas da Casa Mouse, como sua colega de elenco, Vanessa Hudgens. Com ‘Headstrong’, a atriz e cantora começou a receber mais destaque em virtude de sua versatilidade; todavia, a artista percebia que precisava se desvincular da persona que imortalizara ao longo dos anos e, com isso, encontrou um espaço mais amadurecido para seu segundo álbum de estúdio.

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Intitulado Guilty Pleasure, o compilado de originais foi lançado em 2009, com uma trajetória promocional que logo de cara já nos chamou a atenção. Em meio ao desejo de finalizar um capítulo importante da carreira e estando pronta para o próximo, Tisdale emergiu aos holofotes com uma roupagem totalmente diferente ao divulgar o lead single “It’s Alright, It’s OK”, uma divertida e vibrante faixa pop-rock dotada de todos os elementos que amamos em produções como essa: uma boa organização instrumental, mensagens de empoderamento e de libertação e uma clara construção convencional que funciona do começo ao fim. Poucos meses mais tarde, o álbum ganhava vida.

Através de catorze faixas, a obra é uma clara tentativa da performer em criar uma ruptura entre o passado e o presente – e já se inicia com uma sólida faixa assinada por ela própria. Os breves segundos introdutórios de “Acting Out” parecem preparar o terreno para um espetáculo de que Tisdale se apropriou, afirmando com todas as palavras que está mudada e que está na hora de mostrar ao mundo um lado que, até então, estava escondido. Ainda que a produção de Alke, escalado para diversas tracks do álbum, não traga nada de novo, por assim dizer, sua beleza está na funcionalidade e na praticidade, mostrando que, em meio ao mandatório curso de amadurecimento, impulsos e erros são normais e continuarão a acontecer.

No geral, o álbum envelheceu de maneira positiva após dezessete anos de lançamento. À época, a crítica internacional soou dividida entre aqueles que notaram a clara remodelação imagética e identitária de Tisdale, e aquele que perceberam que a artista não ousou como poderia – optando por construções genéricas e convencionais. Estreando em décimo segundo lugar nas paradas da Billboard, o comedido sucesso parece ter atrapalhado os ápices que se espalham profusamente pelo projeto, funcionando mais como o início de uma artista que ainda tinha muito para contar do que como a investida de uma musicista estabelecida.

É curioso comparar a longeva reviravolta que a performer atribuiria à própria visão artística com ‘Symptoms’, álbum independente que estreou em 2019, mais de dez anos depois de sua última incursão. Afinal, se Tisdale conseguiu traduzir todas as suas angústias e suas batalhas contra ansiedade e depressão com aspectos do pop, do R&B e até mesmo do indie, foi Guilty Pleasure quem começou a calcar esse tortuoso e, eventualmente, libertador caminho. Mesmo escorregando em fórmulas constantes e alguns versos fracos, boa parte das canções entrega o que promete.

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Quando Tisdale se volta para o power-pop, ela faz mágica – como é o caso de “Overrated”, uma ótima e subestimada faixa movida pela bateria e pela guitarra que, sem sombra de dúvida, posa como uma das líricas mais amadurecidas da discografia da artista. Em breves três minutos e quarenta segundos, ela discorre sobre um tóxico relacionamento em que foi engolfada, moldando-se ao bel-prazer de alguém que havia se apaixonado por uma amorfa figura que criou, e não por quem ela de fato é. “A verdade é que me quero de volta” antecipa o verso “de quem eu desisti para você acreditar” em um impressionante levante para alguém de 23 anos de idade que começava, finalmente, a expressar os traumas e as frustrações escondidos há tempo demais.

“Tell Me Lies” parte de uma estrutura similar, mas mergulha em uma premissa bem diferente ao implorar para seu amado que lhe conte apenas mais uma mentira, recusando-se a enfrentar uma dolorosa; “Erase and Rewind”, mesmo contando com uma construção mais vibrante e explosiva, parte de uma melancolia inescapável da transição para a vida adulta, sem deixar de lado o escopo romântico que é muito comum ao mainstream; e, em faixas como “Masquerade” e “Crank It Up”, Tisdale se arrisca em algumas incursões mais ousadas, trazendo referências da eterna princesa do pop Britney Spears para mostrar uma camada sensual e “despudorado”, por assim dizer.

É necessário dizer que o álbum sofre de problemas intrínsecos, que o tornam um tanto quanto profuso com a inclusão de certas faixas – a maior parte delas centrada nas baladas. Seja com a power-pop “How Do You Love Someone”, a soturna e um tanto quanto problemática “Me Without You” e a dissonante “What If”, Tisdale perde a mão quando se volta para uma atmosfera mais restrita e sentimental, não encontrando a verdade obrigatória para esse tipo de faixa. E, por algum motivo, a presença da electro-pop “Switch”, do filme ‘Pequenos Invasores’, deixa tudo um pouco mais absurdo.

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Apesar dos óbvios equívocos e do extenso time de produtores e liricistas, Guilty Pleasure nos chama a atenção por começar a mostrar o coming-of-age de Ashley Tisdale de maneira brutal e incisiva, mergulhando em uma espécie de metadiegese que seria polida anos mais tarde – e contando com músicas que mereciam mais a nossa atenção.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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