Em 2008, Matt Reeves encabeçava um dos filmes de terror mais interessantes da década com ‘Cloverfield – Monstro’. O projeto uniu found footage, ficção científica e horror em um mesmo lugar, construindo uma complexa e angustiante jornada pela sobrevivência que colocou humanos e alienígenas em uma batalha épica e muito sangrenta. Apostando em uma atmosfera urbana e caótica, o cineasta construiu uma experiência inédita e que, quase uma década mais tarde, ganhou uma inesperada sequência intitulada ‘Rua Cloverfield, 10’.
Chegando aos cinemas mundiais em 2016, o longa-metragem marcou a estreia diretorial de Dan Trachtenberg da melhor maneira possível: através de uma potente narrativa embebida no suspense psicológico e nos thrillers conspiratórios que expandiu o universo arquitetado por Reeves de forma sólida e instigante. O filme logo conquistou o público e a crítica, angariando sólidos 91% de aprovação no Rotten Tomatoes e arrecadando quase dez vezes o valor de seu orçamento, além de integrar diversas listas de melhores de ano ao se beneficiar do talento nato de uma equipe criativa de ponta e um elenco estelar que deu destaque a Mary Elizabeth Winstead em um papel definidor de sua carreira, John Goodman e John Gallagher Jr..

A história é centrada em Michelle (Winstead), uma jovem que abandona tudo que conhece para recomeçar, deixando para trás o noivo, arrumando as malas e apressando-se para seu carro. Em meio a notícias envolvendo estranhos blackouts nas principais cidades do país, ela se envolve em um mortal acidente. Ao acordar, ela se vê acorrentada pelas mãos do bizarro Howard (Goodman), que afirma tê-la resgatado do acidente e salvado sua vida; afinal, o planeta está sendo invadido por alienígenas perigosos que espalham um gás venenoso para exterminar os humanos. É claro que, a princípio, Michelle não acredita em nada do que ele diz, tentando escapar de seu cárcere apenas para se deparar com uma dolorosa compreensão: o bunker, agora, é a sua nova realidade.
À medida que passa seus dias ao lado de Howard e de outro companheiro de abrigo, Emmett (Gallagher Jr.), a jovem começa a desconfiar do que realmente está acontecendo lá fora e, cada vez que enfrenta a “bondade” de seu anfitrião, descobre um lado mais autoritário e gradativamente perigoso que a compele a criar um plano de escape – sejam os gases venenosos reais ou não. Aliando-se a Emmett, Michelle utiliza todas as habilidades como amante da moda e da costura para enganar Howard; porém, como podemos imaginar, as coisas não saem como o planejado e a protagonista precisa correr contra o tempo se pretende ter algum futuro longe do bunker.

Toda a estrutura do longa é baseada em clássicas e conhecidas histórias de conspirações políticas e extraterrestres que dominam a cultura pop desde que H.G. Wells causou furor e pânico com a transmissão radiofônica de ‘A Guerra dos Mundos’. As tramoias e as artimanhas que permeiam não apenas a construção de Howard mostram que, mesmo numa suposta batalha contra forças alienígenas, o pior antagonista a ser encontrado é a loucura humana – que, a qualquer momento, pode se transformar numa psicopatia inescapável. Não é surpresa que Michelle e Emmett, condenados a uma espécie de pseudoverdade absoluta que é promovida constantemente pela mentalidade de Howard, materializem a angústia de não saber o que, de fato, é real ou não.
Trachtenberg encontra espaço de sobra para construir um epopeico tour-de-force em um confinado espaço que apenas se abre no começo e no final da história. Navegando pelos estreitos corredores do bunker, o diretor sabe como pintá-lo como um aconchegante refúgio com planos mais abertos apenas para transmutá-lo em uma labiríntica prisão da qual não existe escapatória ao optar pelo embate entre os personagens e por enquadramentos que enclausuram a protagonista em combate contra seus próprios medos. Afinal, sua desesperada impulsão pela liberdade de um matrimônio falido é interrompida por outra pessoa que insiste em deixá-la presa (ainda que em circunstâncias bem diferentes).

Eventualmente, a ideia de enfrentar o desconhecido é melhor do que se conformar à letargia – e é aí que Winstead brilha em um dos melhores papéis de sua carreira. A atriz já não era nenhuma novata ao mundo do terror, visto que interpretou Wendy no terceiro capítulo da franquia ‘Premonição’; porém, o ousado projeto de Trachtenberg permite que ela singre pelo horror, pela angústia e pelo drama sem que qualquer uma das engrenagens seja comprometida, apoiando-se na presença contundente de Goodman em uma inesperada e densa performance, e de Gallagher Jr. como o lado mais ingênuo da frenética ambientação que os rodeia.
Dez anos depois de seu lançamento nos cinemas, ‘Rua Cloverfield, 10’ permanece como um dos melhores suspenses psicológicos da década passada e como a melhor entrada da franquia ‘Cloverfield’, não apenas expandindo esse expressivo cosmos, como optando por uma estética diferente que transforma essa saga em uma celebração da arte do cinema.
O filme está disponível para aluguel no Prime Video.

