A 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está a todo vapor, trazendo uma seleção incrível de longas, curtas e animações para o público. O evento não apenas realizou uma curadoria impressionante de títulos, como trouxe convidados ilustres para conversas marcantes com os espectadores – incluindo o vencedor do Oscar Charlie Kaufman.
Conhecido por explorações sobre a mente humana e sobre a vida e a morte, além de um apreço significativo pela estética surrealista, Kaufman ganhou destaque inegável com uma gama de títulos que, até hoje, são abraçados pelos fãs, incluindo ‘Quero Ser John Malkovich’, ‘Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças’ e ‘Anomalisa’. Este ano, ele retornou com o curta-metragem ‘Como Fotografar um Fantasma’, que foi exibido no Festival de Veneza e chega à capital paulista para encantar sua legião de seguidores.
O projeto marca mais uma colaboração com a roteirista Eva H.D., com quem já trabalhou no curta ‘Jackals & Fireflies’, e acompanha dois fantasmas na cidade de Atenas que navegam pela árdua história da icônica cidade – desde suas antigas glórias até a brutal ditadura dos anos 1970, enquanto discorrem sobre ressentimentos, assuntos inacabados e a impossibilidade de seguir em frente mesmo quando o fim é inevitável e imutável.
Em uma entrevista exclusive, tive a oportunidade de conversar com a dupla, que comentou sobre como o filme ganhou vida. “Eu estava em Atenas, em um coletivo de artes queer chamado LALA”, Eva explicou. “E dois dos meus amigos… Bem, vários amigos meus estava lá. Eles me convidaram para uma residência, onde você se hospedava em um apartamento que eles tinham e que usavam para seus projetos insanos. Então, eu queria escrever um roteiro sobre Atenas”.
“E então, eu disse: ‘ei, Charlie, quer fazer isso?’. E ele disse que sim. E aqui estamos”.
A colaboração entre Kaufman e H.D., na verdade, data de antes de ‘Jackals & Fireflies’, visto que um dos contos da autora foi escolhido para compor o roteiro do thriller psicológico surrealista ‘Estou Pensando em Acabar com Tudo’. Como é de costume em sua filmografia, Kaufman retomou seu trabalho em explorar a complexidade do ser humano como ele. “Acho que explore a vulnerabilidade [das pessoas] porque eu me sinto vulnerável. Não sei o que mais dizer. Digo, é uma questão multifacetada”.
“Estou tentando encontrar uma resposta para a morte em meu trabalho? É algo que você vê [no projeto]?”, ele me questiona, transformando a entrevista em um glorioso bate-papo. Respondo ao cineasta que o curta não necessariamente procura uma resposta, mas algo que nos motiva a viver, em virtude da inevitabilidade da morte – algo que é rearranjado para o filme. “A morte deles e sua condição de fantasmas são uma espécie de evolução da vida. É o que acho que talvez nos permita olhar para o que eles tinham ou não enquanto estavam vivos. Certamente há uma mudança nesse relacionamento”, ele afirma.
“Você explora muito a ansiedade”, Eva acrescenta, dirigindo-se ao diretor. “Algo que [os fantasmas] não conseguem sentir porque você não consegue ficar ansioso. Eles estão preocupados, estão tristes, têm problemas não resolvidos. Mas você não consegue ter ansiedade funcionalmente em um mundo no qual você não tem autonomia. Literalmente, nenhuma autonomia porque você está morto. Seu medo da morte já se dissipou, eu presumo, a essa altura. Então talvez seja uma mudança… Talvez, sim”.
Aproveito o momento para comentar que, ao assistir à obra, percebo que os fantasmas possuem uma certa agência, por assim dizer, não por si próprios, mas como frutos do mundo em que viveram e dos assuntos pendentes que levaram para o pós-vida, algo que explica os ressentimentos dos quais falam. “Isso é muito verdade”, eles comentam.
O curta marca mais uma parceria entre Kaufman, H.D. e Jessie Buckley. A aclamada atriz estrela ‘Estou Pensando…’ e foi a primeira escolha da dupla para coprotagonizar ‘Como Fotografar um Fantasma’ ao lado de Josef Akiki.
“Sim”, Kaufman respondeu quando lhe fiz essa pergunta. “Porque ela é uma atriz incrível. Ela é incrível. E uma pessoa incrível”. H.D. também rasgou elogios para Buckley ao dizer que “é muito divertido fazer um projeto artístico com ela. Ela está aberta a experimentar as coisas”.
Os projetos de Charlie e de Eva têm uma clara inspiração pelas incursões surrealistas, construindo narrativas que fogem da realidade como a conhecemos e a remodelam como um reflexo pulsante e onírico que se mostra presente desde a montagem à estética de direção.
Entretanto, a roteirista prefere encarar essas tendências como “hiper-realistas”.
“Acho que às vezes o que as pessoas percebem como surrealismo, eu percebo como hiper-realismo”, ela explica. “Porque às vezes, quando você descreve o que realmente está lá, as pessoas dizem: ‘nossa, é surreal’. [Mas] essas cores são as cores do mundo. Esse comportamento é o comportamento do mundo. Às vezes, a verdade literal parece ser a mais surreal de todas”.
Ela completa: “você acrescenta alguns fantasmas, eles provavelmente são a coisa menos estranha em tudo. Entende o que quero dizer? Então, sim, acho que há um jogo interessante entre reconhecer o que é real e se refugiar nos rótulos de surreal”.
“Eu diria que, para mim, me prender a algo que imagino ser naturalista é inibitório”, Kaufman diz, dando seu parecer sobre o assunto. “E que, se eu me permitir pensar mais de uma forma onírica, eu posso… Sinto que posso encontrar algo que considero verdadeiro. E sim, acho que me ajuda, no processo de escrita, a me libertar”.
‘Como Fotografar um Fantasma’ é exibido antes das sessões de ‘Sirât’ e ‘Anomalisa’ na Mostra de São Paulo.
