O cinema brasileiro está atravessando uma das fases mais internacionais de sua história e o próximo grande passo pode não estar apenas nos filmes nacionais, mas nas parcerias com outros países. Segundo análise publicada pela Variety, o sucesso de ‘Ainda Estou Aqui‘ e ‘O Agente Secreto‘ ajudou a colocar o Brasil no centro das atenções da indústria global e acelerou uma estratégia baseada em coproduções internacionais.
Em 2025, Walter Salles fez história ao conquistar o primeiro Oscar do Brasil para um filme em língua portuguesa dirigido por um cineasta brasileiro. ‘Ainda Estou Aqui‘ venceu na categoria de Melhor Filme Internacional, superando o controverso ‘Emilia Pérez‘.
Poucas semanas depois, ‘O Agente Secreto‘, de Kleber Mendonça Filho, também levou o país a um novo patamar ao conquistar dois prêmios no Festival de Cannes. O longa ainda recebeu cinco indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme.
Com os resultados, a pergunta da indústria passou a ser: o que o Brasil faria para manter esse embalo? A resposta, de acordo com a Variety, está em uma onda cada vez maior de coproduções com parceiros estrangeiros.
Em 2026, o país ampliou sua presença no circuito internacional por meio de projetos realizados em conjunto com nações que raramente apareciam ligadas ao cinema brasileiro, como Nepal e Finlândia. Entre os títulos citados pela publicação estão ‘Elephants in the Fog‘, ‘Narciso‘, ‘Glaxo‘, ‘Retorno a Buenos Aires‘, ‘La Perra‘ e ‘Seis Meses no Prédio Rosa e Azul‘.
A força desse movimento foi tamanha que o Festival do Rio criou uma mostra dedicada às coproduções e à forma como o Brasil vem trabalhando com produtores internacionais. Para Ilda Santiago, diretora do evento, a mudança na escala dos projetos é evidente.
“Duas décadas atrás, você via apenas um ou dois países envolvidos na realização de um filme. Agora, é difícil encontrar uma única produção com menos de quatro países participando”, afirmou Santiago à Variety.

Segundo ela, as equipes precisam conciliar fontes de financiamento, métodos de trabalho e diferentes estruturas de produção para levar uma mesma história ao maior número possível de espectadores.
A produtora Cibele Amaral, da 34 Filmes, também explicou que o modelo permite ao Brasil contar com parceiros de forte influência no mercado internacional. Para ela, políticas públicas de incentivo foram fundamentais para o crescimento das coproduções, incluindo acordos internacionais, programas de intercâmbio e editais específicos do Fundo Setorial do Audiovisual.
Os números ajudam a mostrar o tamanho dessa expansão. De acordo com dados apresentados pelo produtor Patrick de Jongh, o Brasil participou de 242 coproduções internacionais entre 2015 e 2024. O número corresponde a 10,4% de todos os filmes brasileiros produzidos no período.
Além disso, os pedidos oficiais de coprodução subiram de 56 em 2023 para 140 em 2025 — um crescimento de 150% em apenas dois anos.
“Isso não é apenas volume. É o reconhecimento de que o cinema brasileiro é um parceiro de valor cultural, e não apenas um destino exótico”, declarou de Jongh, ainda segundo a Variety.
O interesse estrangeiro também é impulsionado pela combinação de narrativas densas, equipes especializadas, custos de produção competitivos e acesso a mecanismos públicos de financiamento. Em alguns estados, produtores ainda podem contar com incentivos fiscais e estruturas locais de alta qualidade.

O impacto da indústria vai muito além das telas. Um estudo da Oxford Economics encomendado pela Motion Picture Association apontou que o setor audiovisual brasileiro gera mais de 600 mil empregos diretos e indiretos — 58% a mais do que a indústria automotiva.
Apesar do avanço, produtores alertam que a falta de continuidade nas políticas públicas ainda é um obstáculo. Cibele Amaral lembrou que o último edital aberto especificamente para coproduções foi lançado em 2023, o que dificulta a construção de uma estratégia de longo prazo.
Ainda assim, o Brasil já demonstra experiência para trabalhar com diferentes regiões. Produtores ouvidos pela Variety destacaram a tradição de parcerias com a América Latina e a capacidade de conciliar projetos que envolvem países latino-americanos e europeus.
Para Ilda Santiago, o diferencial brasileiro está na disposição de investir em ideias que cruzam os âmbitos regional e nacional. “Nossos produtores são muito curiosos e incrivelmente trabalhadores. Eles têm vontade de procurar oportunidades para além das nossas fronteiras”, afirmou.

