Superman, o maior super-herói de todos os tempos, ganhará um novo filme nas telonas este ano. É claro que você já deve estar cansado de saber. O filme, aliás, estreia agora em julho, no segundo fim de semana do mês – dia 10 no Brasil. Esse, no entanto, não é apenas mais um filme do Homem de Aço, e sim o reinício de todo um universo nos cinemas – o universo dos personagens da DC na Warner, agora debaixo do selo de qualidade do diretor e produtor James Gunn (o homem que entregou a emocionante trilogia dos ‘Guardiões da Galáxia’).
Como forma de irmos aquecendo os motores para este que é o filme mais aguardado do ano para muitos, resolvemos revisitar desta vez o terceiro longa para o cinema do Super-Homem, filme que começou a levar a franquia por caminhos irreversíveis, demonstrando que já não se sabia mais o que fazer com o Super-Homem nas telonas.
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Depois de dois filmes grandiosos, cheios de ação, romance, vilões icônicos e trilhas inesquecíveis, o que poderia dar errado com ‘Superman III?’ A resposta é: praticamente tudo. Ou, ao menos, quase tudo que envolve tom, direção, roteiro e decisões criativas. Lançado em 1983, o terceiro filme do Azulão tentou unir o gênero de super-heróis com comédia pastelão, ficção científica e… Richard Pryor. O resultado? Uma mistura tão improvável quanto os tons dos filmes de Zack Snyder e James Gunn. Ou seja, uma verdadeira montanha-russa sem cinto.
Após o sucesso comercial (e relativo sucesso crítico) de ‘Superman II‘, a Warner e os produtores Alexander e Ilya Salkind queriam manter a franquia viva. Mas, ao invés de seguir o tom mais épico do primeiro ou o equilíbrio entre ação e drama do segundo, decidiram apostar em algo diferente: uma comédia de super-herói.
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O problema é que a linha entre o ousado e o desastroso é muito fina, e ‘Superman III‘ atravessou essa linha voando. O roteirista David Newman, que havia trabalhado nos dois primeiros filmes, propôs uma história mais leve, centrada em Gus Gorman, um programador de computadores atrapalhado vivido por Richard Pryor, o rei da comédia nos anos 1980. A ideia era misturar humor físico com ficção científica, tecnologia fora de controle e um Superman… bêbado. Literalmente.
O diretor Richard Lester, que já havia assumido a franquia a partir do segundo filme, voltou com liberdade total — e dobrou a aposta no humor, nas gags visuais e no pastelão. O resultado foi um filme que parece uma paródia de Superman, mas levado a “sério”.

Christopher Reeve, nosso eterno Homem de Aço, só aceitou voltar com muitas condições: salário mais alto, aprovação de roteiro e menos piadas bobas (ok, ele conseguiu… parcialmente). Margot Kidder, a Lois Lane de todos os dias, teve sua participação reduzida a duas cenas e uma viagem ao exterior, tudo porque criticou abertamente os Salkind na imprensa. Resultado? Lois é enviada de férias no início do filme e só reaparece no final com um bronzeado e dois minutos de tela.
Para ocupar o lugar de interesse romântico, entra Annette O’Toole como Lana Lang, a antiga paixão de Clark Kent dos tempos de Smallville. Curiosamente, O’Toole voltaria anos depois ao universo Superman como Martha Kent na série ‘Smallville‘ — provando que o tempo voa, mas o elenco gira em órbita.

E então temos ele: Richard Pryor como Gus Gorman, o programador gênio/atrapalhado/vigarista que, com meia dúzia de teclas, consegue hackear satélites, gerar tempestades e… criar Kryptonita sintética. Isso mesmo. Um roteirista de sistemas comediante cria Kryptonita com base na tabela periódica do rótulo. E dá errado, claro.
Gene Hackman não quis saber de voltar como Lex Luthor. No lugar dele, o roteiro criou Ross Webster, um vilão corporativo genérico vivido por Robert Vaughn, que planeja dominar o mercado global de café e petróleo (sim, essa é a trama). Acompanhado de sua irmã maléfica e de uma assistente que parece saída de um programa de auditório, Webster decide enfrentar o Superman com… tecnologia.

Enquanto isso, Gus Gorman é usado como ferramenta para construir um supercomputador capaz de destruir tudo, incluindo o bom senso. No meio disso, temos cenas de esqui indoor, uma piscina com ácido, e uma batalha épica entre Superman e… ele mesmo.
Sim, este é o ponto alto do filme. A Kryptonita “falsificada” criada por Gus transforma o Superman em uma versão malvada, depressiva, mal-humorada e… alcóolatra. Temos cenas de Superman no bar, derrubando bebidas, destruindo garrafas com os olhos e deixando a barba por fazer — é praticamente o John Wick de Krypton (você certamente já viu os memes na internet – sim, são deste filme). Tudo, na realidade, para emular o vilão Bizarro, uma cópia maligna do Superman, sem precisar ter realmente o personagem como antagonista.

O ápice vem quando Clark Kent e o Superman “do mal” brigam em um ferro-velho, num duelo de identidade que é surpreendentemente intenso para um filme que até então levava um tom leve e descompromissado. A sequência é criativa e, para muitos fãs, o único momento realmente memorável do filme. Clark vence, claro, numa metáfora de superação interna que o roteirista provavelmente escreveu no fim de semana anterior à entrega.
A recepção crítica foi… digamos, um voo baixo. ‘Superman III‘ foi considerado uma decepção por muitos veículos, especialmente em comparação com seus antecessores. O New York Times chamou o filme de “infantilóide e incoerente”. A Variety classificou o humor como “fora de tom” e criticou a ausência de um vilão à altura. O Chicago Tribune foi direto ao ponto: “um desperdício de um herói icônico”.

Alguns poucos críticos elogiaram Richard Pryor pela energia e carisma, mas até os fãs dele estranharam a decisão de colocá-lo como coprotagonista de um filme de super-herói. O consenso geral era de que ‘Superman III‘ tentava agradar a todo mundo e acabou agradando a poucos.
Lançado em junho de 1983, ‘Superman III‘ arrecadou cerca de US$ 80 milhões mundialmente — uma queda expressiva em relação aos US$ 190 milhões de ‘Superman II‘ e aos US$ 300 milhões do primeiro filme. O orçamento foi estimado em US$ 39 milhões, então tecnicamente o filme não deu prejuízo, mas foi considerado uma decepção comercial pelos padrões da época. A Warner começou a repensar a franquia — mas não o suficiente para evitar ‘Superman IV‘ (ainda mais desastroso).

‘Superman III‘ é, até hoje, um dos exemplos mais citados quando se fala em franquias que perderam o rumo no terceiro ato. Sua tentativa de misturar comédia com ficção científica e dilemas psicológicos resultou num tom desequilibrado e numa história que mais parece um episódio perdido de um desenho animado dos anos 80.
Mas, como toda obra com problemas, ‘Superman III‘ tem seus fãs. A cena da luta entre Clark e o Superman é constantemente lembrada com carinho. E para os fãs de Richard Pryor, o filme é uma oportunidade rara de vê-lo envolvido em explosões e capas — algo que ele mesmo achava estranho. Em entrevistas posteriores, Pryor revelou que só topou o papel porque era fã dos filmes e porque… bem, o cachê era ótimo. Aliás, a ideia para colocá-lo no longa surgiu quando os produtores o viram elogiando os filmes em talk-shows.

‘Superman III‘ não é um desastre completo — é um filme corajoso que tentou seguir um caminho diferente, mesmo que tenha tropeçado nos próprios cadarços da bota vermelha. É o tipo de sequência que serve mais como curiosidade histórica do que como continuação épica. Ainda assim, Christopher Reeve brilha como sempre, mostrando que mesmo nos roteiros mais confusos, ele era, é e sempre será o Superman definitivo.
E sejamos sinceros: qualquer filme que tenha Superman enfrentando uma mulher transformada em robô (numa cena que parece verdadeiramente saída de um filme de terror), se transformando em videogame, lutando contra si mesmo e contracenando com Richard Pryor merece pelo menos um lugar cativo na estante do caos nostálgico.

