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‘Superman IV’ (1987) – O fim da era Christopher Reeve com um dos PIORES filmes de todos os tempos


Superman, o maior super-herói de todos os tempos, ganhará um novo filme nas telonas este ano. É claro que você já deve estar cansado de saber. O filme, aliás, estreia agora em julho, no segundo fim de semana do mês – dia 10 no Brasil. Esse, no entanto, não é apenas mais um filme do Homem de Aço, e sim o reinício de todo um universo nos cinemas – o universo dos personagens da DC na Warner, agora debaixo do selo de qualidade do diretor e produtor James Gunn (o homem que entregou a emocionante trilogia dos ‘Guardiões da Galáxia’).

Como forma de irmos aquecendo os motores para este que é o filme mais aguardado do ano para muitos, resolvemos revisitar desta vez o quarto longa para o cinema do Super-Homem, que infelizmente viria a encerrar as aventuras do maior herói de todos nas telonas (ao menos nos anos 80, 90 e metade de 2000), encerrando a era de Christopher Reeve no papel.



Superman retornava pela terceira vez nas telonas. Mas dessa vez, com menos orçamento, menos roteiro, menos efeitos especiais e menos paciência do público. ‘Superman IV – Em Busca da Paz é o tipo de filme que parece ter sido feito com boas intenções… e mais nada. Estreando em 1987, o longa ficou conhecido como a pá de cal na franquia do Superman estrelada por Christopher Reeve — e até hoje é estudado como exemplo de como não fazer uma superprodução.

Acredite se quiser: a ideia para o filme partiu do próprio Christopher Reeve. Após o fracasso criativo de ‘Superman III, a Warner havia perdido o interesse, e os Salkind venderam os direitos do personagem para a picareta Cannon Films — produtora famosa por filmes B, orçamentos apertados e decisões criativas no mínimo… exóticas.

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Reeve topou retornar com uma condição: que o novo filme tivesse uma mensagem importante. Assim nasceu o conceito de um Superman engajado politicamente, disposto a acabar com a corrida armamentista e eliminar as armas nucleares do planeta — resolvendo a Guerra Fria com um discurso e um cesto de mísseis lançados ao Sol. Mas estamos falando de um filme onde até a gravidade parece opcional, então por que não?

O problema? A Cannon cortou o orçamento drasticamente. O valor inicialmente prometido, de cerca de US$ 36 milhões, foi reduzido para US$ 17 milhões, com cortes em figurinos, efeitos, cenários e até filmagens. Resultado: o Superman mais pobre da história, com efeitos dignos de tela verde caseira e cabos visíveis até em VHS.

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No enredo, Clark Kent volta à ativa no Planeta Diário, agora sob nova direção: o jornal foi comprado pelo magnata sensacionalista David Warfield, vivido por Sam Wanamaker, que coloca sua filha Lacy (Mariel Hemingway) como chefe de redação. Clark tenta manter sua integridade jornalística enquanto, do lado heroico, Superman decide intervir na geopolítica global, convencido por uma cartinha de um garotinho que pergunta: “Se você é tão poderoso, por que não acaba com as armas nucleares?”

Inspirado pelo toque infantil (literalmente), Superman dá um sermão na ONU e declara que vai destruir todas as armas nucleares do mundo. Pega os mísseis como quem recolhe latinhas e joga tudo no Sol. Pronto. Paz mundial.

Mas nem tudo são flores. Lex Luthor (sim, Gene Hackman voltou, provavelmente seduzido por um contrato ou chantagem emocional) foge da cadeia, com a ajuda do sobrinho Lenny (Jon Cryer, o Alan de ‘Two and a Half Men’), e tem uma ideia genial: pegar um fio de cabelo do Superman (exposto num museu, sustentando uma bola de mil quilos — por que não?), mistura com DNA, roupas brilhantes e energia solar, lança tudo num míssil e cria o vilão… Homem Nuclear. Isso mesmo. Um clone bronzeado, de mullet reluzente, capa dourada e garras pontudas. Ele é basicamente um Wolverine de academia com painéis solares no peito. E, claro, quer destruir o Superman. Ou, no mínimo, arranhar bem forte.

As batalhas entre Superman e o Homem Nuclear são… complicadas. Tem voo (com fundo visivelmente desenhado), tapas no espaço sideral, destruição de Metrópolis com escala de teatro escolar e até uma viagem à Lua, onde os dois trocam socos numa arena sem gravidade. Tudo isso com efeitos reciclados, dublês que nem se parecem com os atores e continuidade que faz tanto sentido quanto a Cannon produzir um filme do Superman.

Tem também cena do Superman doente, cena de Lacy sendo levada ao espaço sem morrer por falta de oxigênio (detalhes), e uma sequência final com um discurso sobre paz mundial que faz até o ‘Rocky IV‘ (lançado dois anos antes) parecer sutil.

Christopher Reeve, como sempre, é o ponto alto — mesmo com um roteiro indigno, ele entrega carisma, presença e dignidade. Gene Hackman parece estar se divertindo fazendo o Lex Luthor cartunesco de sempre. Jackie Cooper (Perry White) e Margot Kidder (Lois Lane) retornam, com mais tempo de tela do que no terceiro filme, mas presos em subtramas irrelevantes. Mariel Hemingway é jogada de qualquer forma numa pseudo-rivalidade amorosa com Lois, que dura 3 cenas e meio sorriso.

E, claro, temos o inesquecível (?) Mark Pillow como o Homem Nuclear, num desempenho que combina a expressividade de um manequim com a fúria de um secador de cabelo.

A recepção foi, como dizer… semelhante a um desastre nuclear. A crítica detonou o filme por todos os lados: roteiro fraco, produção amadora, atuações desequilibradas, vilão risível e efeitos que nem nos anos 60 seriam aceitos. O The Washington Post chamou o filme de “insulto à inteligência do público”. O New York Times descreveu como “uma tentativa frustrada de salvar uma franquia já moribunda”. No Rotten Tomatoes, ‘Superman IV ostenta menos de 10% de aprovação. Fazendo dele um dos piores filmes de todos os tempos na opinião dos críticos, mas também do público. Daquele tipo que nem os fãs do personagem conseguem salvar.

Mesmo o público, sempre mais generoso, saiu decepcionado. Muitos fãs consideram este o ponto mais baixo da era Reeve, e até o próprio ator, tempos depois, admitiu que se arrependeu do projeto — mesmo que a ideia original fosse nobre.

Com estreia em julho de 1987, ‘Superman IV faturou apenas US$ 15,6 milhões nos Estados Unidos e cerca de US$ 36,7 milhões no total mundial — abaixo até do orçamento estimado. Foi um fracasso comercial retumbante, encerrando a franquia por quase 20 anos até o reboot tardio em ‘Superman – O Retorno (2006).

A Cannon, que esperava revitalizar sua imagem com um super blockbuster, acabou afundando ainda mais, e o estúdio acabou pedindo falência. Foi um baque tão grande que o próprio personagem Superman saiu de cena nos cinemas por duas décadas inteiras.

Superman IV – Em Busca da Paz é o exemplo perfeito de que boas intenções não salvam más execuções. É um filme lembrado mais pelo que poderia ter sido do que pelo que realmente entregou. Uma história sobre desarmamento nuclear poderia ter rendido uma obra poderosa e simbólica — mas virou uma colagem de ideias mal acabadas, efeitos precários e um vilão que parece saído de um comercial de energético.

Ainda assim, há um charme em sua ruindade. Para muitos fãs, é um filme tão ruim que se torna divertido. Outros preferem fingir que ele nunca existiu. Mas uma coisa é certa: Christopher Reeve, mesmo com um script esburacado e uma produção caótica, ainda consegue manter o coração do Superman pulsando em cada cena.

Superman IV – Em Busca da Paz é como uma carta de amor mal escrita. Tinha sentimento, tinha propósito, mas faltou revisão, verba e juízo. Ainda assim, é parte da história do personagem, e um testemunho do quanto o cinema de super-herói já caiu antes de se reerguer.

Hoje, ele vive na memória dos fãs como uma curiosidade, uma lição e, de certa forma, um lembrete de que nem mesmo o Superman pode vencer um orçamento cortado pela metade. Mas pelo menos ele tentou.

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