Foram 10 anos de espera. Desde a última vez que se apresentaram em solo carioca, em 2015, durante uma noite na edição do Rock in Rio daquele ano, a banda System of a Down finalmente voltou à capital do Rio de Janeiro na última quinta-feira, 8 de maio. A banda, formada por Serj Tankian, Daron Malakian, Shavo Odadijan e John Dolmayan, vivia um hiato de uma década sem se apresentar ao público, até que anunciaram, no fim do ano passado, uma inesperada turnê pela América do Sul, intitulada ‘Wake Up’, passando por cidades como Lima (Peru), Santiago (Chile), Buenos Aires (Argentina) e, no Brasil, por três capitais: Curitiba (dia 6/5), Rio de Janeiro (8/5) e São Paulo (três shows: 10 e 11/5 no Allianz Park e 14/5 no Autódromo de Interlagos).
Em solo brasileiro, algumas características permaneceram em comum nas três cidades: o show de abertura ficou a cargo da banda paulista Ego Kill Talents, que divertiu o público carioca a partir das 19h15; outra característica é que em todas as cidades os fãs se organizaram para receber o System of a Down com um show de celulares coloridos, que, com suas lanternas ligadas, formavam a bandeira da Armênia (azul, vermelho e amarelo), o país de origem dos integrantes da banda. Ver essa projeção no estádio Nilton Santos, no bairro do Engenho de Dentro, foi realmente muito comovente, como o próprio baterista Dolmayan comentou.
Os quatro integrantes subiram ao palco pontualmente às 21h30, sorrateiramente. Não fossem os aplausos do público e as luzes que se apagaram, a gente nem saberia. Então, rapidamente o silêncio foi preenchido pelos riffs de guitarra de Malakian com a música ‘X’, seguida por ‘Suite-Pee’ e ‘Prison Song’. Com uma abertura assim, esperava-se que, após dez minutos sem parar, a própria banda deve um intervalinho para cumprimentar o público, mas não foi o que aconteceu – nem nesse momento, nem depois. O quarteto estadunidense-armênio tocou literalmente por duas horas sem parar, sem parar mesmo, nem pra beber água, nem para tomar fôlego. Considerando que a faixa etária média do público do SOAD é de quarenta anos, e que os próprios integrantes da banda estão entre 50 e 60 anos, é simplesmente impressionante a energia e a disposição de ambos os lados.
Com um setlist de 32 músicas ininterruptas e recheado de hits inesquecíveis, o público carioca não deixou barato e simplesmente enlouqueceu dentro do estádio Nilton Santos. Mesmo com a proibição de sinalizadores, o público encontrou sua forma de levar o artefato e acenderam o tempo todo, criando uma atmosfera apocalíptica entre luzes vermelhas e muita fumaça embalando os acordes pesados do nu metal do SOAD. Dentre os 40 mil espectadores presentes, foi possível avistar um Pikachu e até mesmo um Jesus Cristo – provavelmente em referência à eleição do novo Papa, horas antes.
Quando chegamos ao refrão da famosa ‘Aerials’, ficou muito evidente a boa escolha do local para a apresentação do System: a acústica do Engenhão é simplesmente foda demais, fazendo com que o mantra do público ecoasse como se estivéssemos no meio de uma reza coletiva. A mesma sensação perdurou em outros momentos da apresentação, como nos refrões mais alegres de ‘B.Y.O.B’ e ‘Sugar’ ou nos momentos ápices das icônicas ‘Hipnotize’ e ‘Prison Song’.
Então, houve dois momentos de pura catarse coletiva, aquele momento que o fã que é fã sente que está vivendo o melhor momento da sua vida, aquele que nunca mais vai esquecer e pelo qual é grato à banda: quando o System tocou as terrivelmente doloridas ‘Lonely Day’ e ‘Chop Suey!’. Não é exagero dizer que, neste ponto, havia muita gente chorando no público, que cantava a plenos pulmões fazendo suas vozes ecoarem no Engenhão e dando uma sensação de que participávamos de um expurgo espiritual ou algo do tipo. Quem estava presente, sabe do que estamos falando.
Do transe, fomos convidados pelo guitarrista Malakian a despertar e a girar, girar, girar muito no ponto alto do show, quando eles tocaram ‘Toxicity’, um dos maiores sucessos do grupo e primeira música do Youtube a bater 1 bilhão de views. Por um minuto inteiro, dezenas de rodas se formaram nas pistas (comum e premium) e centenas de pessoas giraram e giraram no ritmo do riff da guitarra da Malakian, pois era simplesmente impossível ficar parado quando os gritos do público batiam nas paredes do estádio e ecoavam de fora, como que num estado de guerra (como as imagens de drone fazem parecer).
Com letras que falam de saúde mental, guerras, hipocrisia política e solidão, o System of a Down entregou um show ininterrupto, intenso, catártico e hipnotizante, e o público carioca devolveu na mesma medida, pulando e cantando do início ao fim como numa arena de gladiadores. Dessa sintonia, facilmente a apresentação do último dia 8 de maio superou, em muito, o show do Rock in Rio em 2015, realizando o sonho de toda uma geração que era jovem demais para ter conseguido ir no festival e matando a saudades da geração que viu a banda surgir e esteve junto desde o início. Entre nostalgia e gratidão, quem foi no show do System of a Down no dia 8 de maio no Estádio Nilton Santos viveu um dos melhores shows de rock que a cidade do Rio de Janeiro já teve. Histórico e inesquecível, como o próprio SOAD.
A bandeira às costas do baterista Dolmayan (o mesmo que, momentos antes do show, desceu à área PCD do público e foi tirar foto com a galera) indicaram o fim da apresentação, com um abraço coletivo do quarteto satisfeito. Mesmo que o System talvez não volte a fazer uma turnê nem lance nenhum CD novo, eles entregaram tudo de si aos fãs, que para sempre serão gratos pela noite compartilhada naquele 8 de maio de 2025.
Confira o set list completo:
- X
- Suite-Pee
- Prison Song
- Aerials
- I-E-A-I-A-I-O
- 36
- Pictures
- Highway Song
- Needles
- Deer Dance
- Soldier Side – Intro
- Soldier Side
- B.Y.O.B.
- Radio/Video
- Dreaming (breakdown)
- Hypnotize
- Peephole
- ATWA
- Bounce
- Suggestions
- Psycho
- Chop Suey!
- Kill Rock ‘n Roll
- Lost in Hollywood
- Lonely Day
- Mind
- Spiders
- Forest
- Cigaro
- Roulette
- Toxicity
- Sugar
