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The Fame | Analisando o impacto do ICÔNICO álbum de estreia de Lady Gaga


É um fato dizer que o cenário musical pop é marcado por alguns emblemas que revolucionaram e/ou repopularizam o gênero com o passar do tempo: temos, por exemplo, Michael Jackson e Madonna, eternos rei e rainha do pop que, através de hits atemporais e um enfrentamento do status quo (cada qual à sua maneira), pavimentaram o caminho para gerações de artistas que, mesmo nos dias de hoje, permanecem utilizando-os como inspirações máximas e referências diretas. Britney Spears, no final dos anos 1990, sagrou-se como o ícone do teen pop, além de dar os primeiros passos do EDM como subgênero a ser incorporado por diversos performers.

E, nos últimos vinte anos, apenas um outro nome conseguiu trazer um impacto significativo para esse escopo: Lady Gaga. Há dezessete anos, a carinhosamente alcunhada Mother Monster fazia seu début no show business não apenas com um dos álbuns mais bem sucedidos da história, como um dos mais emblemáticos do pop contemporâneo. The Fame, como ficou conhecido, explorou os altos e baixos do estrelato e da maneira como a indústria precisava da presença das superestrelas para sobreviver. E, ao longo de treze faixas, o disco em pouco tempo transformou o cenário e chegou até mesmo a influenciar musicistas veteranas que aproveitaram o embalo de Gaga para se transfigurarem em personas mais ousadas – como foi o caso de Beyoncé, Katy Perry e Nicki Minaj.

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Por mais que certos internautas problematizam o verdadeiro impacto do compilado de originais, argumentos insólitos e conjecturas falidas não mudam o que, de fato, aconteceu. Ao trazer o four-on-the-floor de volta aos holofotes e apoiando-se nas estruturas ainda frágeis da revitalização do synth-pop e do EDM, Gaga construiu um império multimidiático que não apenas supriu uma grande necessidade do pop no mercado, mas abriu portas para um encontro performático entre arte visual e sonora em uma épica jornada de hedonismo e sucesso. Em outras palavras, cada memorável faixa dentro desse ambicioso projeto rendeu-se a uma maximização proposital de elementos e de progressões com o objetivo claro de balançar os eixos e dar início a uma nova era do pop.

Ora, ninguém poderia imaginar que, à época, uma estrela estava nascendo: “Just Dance”, primeiro single promocional do disco, entrou na principal parada da Billboard em #76, transformando-se em um sleeper hit sem precedentes e que alcançaria o topo da Hot 100 e de diversos outros charts ao redor do mundo – configurando-se uma magnânima peça de arte que, mesmo em 2025, continua nas playlists dos ouvintes. “Poker Face”, lançada como segundo single, passou por algo parecido ao estrear em #92, alcançando o primeiro lugar nos Estados Unidos semanas depois. E, a partir de então, uma lenda da música nascia e cimentava, dia após dia, seu merecido status no cenário do entretenimento.

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A verdade é que, à medida que nos convidamos a revisitar ou até mesmo a conhecer o álbum, percebemos que Gaga não apenas chamou a atenção por sua personalidade excêntrica e por canções feitas para as pistas de dança e movidas pelo apreço dos club-anthems; ela conquistou a mídia e os ouvintes ao reconstruir, à sua maneira, a relação parassocial entre artista e fã, quebrando as paredes hierárquicas que outrora separavam essas duas partes ao convidar sua legião de little monsters a fazer parte ativa de seu amadurecimento pessoal e identitário.

Em meio a homenagens notáveis a suas principais inspirações, que incluíram Michael, Madonna, Britney e David Bowie, Gaga mostrou que o mundo pop tinha muitas histórias a serem contadas – e foi dessa maneira que a musicista construiu, por exemplo, a irretocável infusão de techno e dance-pop de “Paparazzi”, que minou a conduta condenável e destrutiva de fotógrafos de tabloide através de uma narrativa focada em um relacionamento obsessivo e quase tóxico; a excêntrica explosão robótica de “I Like It Rough”, que une o físico, o emocional e o carnal em uma das canções mais subestimadas da carreira da cantora; “Beautiful, Dirty, Rich”, uma ostensiva dance-pop que aposta no prazer absoluto; e a despretensiosa e divertida “Summerboy”, que inclusive passou por uma inesperada ressurgências nas últimas semanas após Gaga incluí-la no setlist de sua turnê.

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Alguns podem encarar o álbum como superficial demais para ser levado a sério, mas as nuances presentes em cada uma das iterações funciona como uma exploração do amor e da ambição nos tempos da fama compulsória e da necessidade de se reafirmar – e uma análise sociológica mascarada por investidas pseudo-simplórias, contando com uma exaltação irrefreável do pop como veículo audiovisual e que, como já prenuncia seu significado, para a aproximação contundente das massas a um universo que lhe é renegado.

Quase vinte anos mais tarde, The Fame permanece como uma das maiores e mais icônicas estreias do mundo da música e do entretenimento como um todo – quiçá o maior début das últimas quatro décadas. Não é surpresa que a atmosfera eternizada por Lady Gaga tenha firmado um caminho de sucesso absoluto e invejável, testamentado, inclusive, em seu recente álbum ‘MAYHEM’.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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