‘Um Drink no Inferno’ – O “Pecadores” dos anos 90 completa 30 anos



Dois irmãos criminosos. Um pastor e seu filho. Um bar no meio do nada. Uma festa com música, dança e bebidas. E… vampiros! Bem, vampiros que só aparecem na segunda metade do filme. Você pode achar que eu estou descrevendo o filme indicado ao Oscar 2026 ‘Pecadores’ – que bateu o recorde de mais indicações de todos os tempos no Oscar (com 16). E não estaria de todo errado. Mas na verdade, o filme ao qual me refiro é ‘Um Drink no Inferno’, longa escrito e estrelado por Quentin Tarantino e dirigido pelo amigo Robert Rodriguez. Esse cult máximo completa nada menos que três décadas de seu lançamento em 2026. Abaixo iremos conhecer um pouco mais deste novo-clássico.

Assim como no recente ‘Pecadores’, este clássico moderno tem como protagonistas dois irmãos criminosos, mas aqui eles não são gêmeos. Seth (George Clooney) é o mais ponderado da dupla, enquanto Richard (Quentin Tarantino) é o fio desencapado, um psicopata que sempre coloca tudo a perder. A diferença é que ‘Um Drink no Inferno’ se trata de um road movie – com os irmãos em fuga pelas estradas da Califórnia até chegar na fronteira do México, onde em um bar de beira de estrada ocorrerá um encontro para os colocar em liberdade. No caminho, eles terminam fazendo uma família de refém – formada pelo patriarca, um ex-pastor (vivido por Harvey Keitel), sua filha (Juliette Lewis) e seu filho (Ernest Liu).

Como trata-se de um roteiro escrito por Tarantino, esperamos diálogos afiados sobre o universo de criminosos. Mas o que nos pega de surpresa – assim como a todos na época – é que quando a dupla e seus reféns finalmente chegam ao planejado ponto de encontro, o bar de stripper Titty Twister, ele está repleto de vampiros. As criaturas monstruosas são na realidade os funcionários do local, os músicos, os barman, os garçons e as dançarinas. Assim começa uma luta por sobrevivência.

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Roteiro

O roteiro de ‘Um Drink no Inferno’ foi escrito com o costumeiro brilhantismo de Quentin Tarantino, mas existem algumas divergências sobrea a ordem cronológica de sua autoria. Algumas fontes afirmam que este foi o primeiro roteiro escrito pelo cineasta, que teria recebido US$1.5 mil pelo texto. Outra versão afirma que Tarantino escreveu a história de seu filme de vampiros após a vitória no Oscar por ‘Pulp Fiction: Tempo de Violência’, que tomou o mundo de assalto em 1994. Essa versão faz mais sentido, uma vez que o diretor já tinha alguns textos em seu currículo, vide ‘Cães de Aluguel’, ‘Amor à Queima-Roupa’ e ‘Assassinos por Natureza’.

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Referências

Quentin Tarantino é um dos maiores cinéfilos que existem, e seus filmes são repletos de referências ao cinema. Em ‘Um Drink no Inferno’ não é diferente. O título do filme, por exemplo, “From Dusk till Dawn” (no original) – algo como “do anoitecer até o amanhecer” – é uma referência aos antigos drive-inns, que usavam esta frase em placas espalhadas pelo local. Acontece que era comum nos EUA os drive-inns exibirem maratonas de filmes (a maioria produções B do cinema), onde os adolescentes chegavam em seus carros e só saíam de manhã. Tudo uma desculpa para namorar.

Uma das personagens mais marcantes de ‘Um Drink no Inferno’ é a dançarina erótica interpretada pela mexicana Salma Hayek em uma participação especial. O nome de sua personagem é Satânico Pandemonium, mas por pouco não foi chamada de “Blonde Death”, ou “morte loira”. Seria interessante saber que atriz Tarantino usaria nesta outra versão. É claro que o nome mudou uma vez que o cineasta optou por usar uma atriz latina/ mexicana para a personagem. Aliás, esse nome é tirado de um filme homônimo de 1975, uma produção B mexicana, bastante sangrenta, que Tarantino conhecia da época em que trabalhou em uma locadora de vídeo.

Ambos Quentin Tarantino e o diretor Robert Rodriguez são fãs declarados de John Carpenter, diretor que marcou os anos 80 com alguns dos longas de gênero mais cult do cinema – vide ‘Halloween’, ‘O Enigma de Outro Mundo’, ‘Fuga de Nova York’ e ‘Os Aventureiros do Bairro Proibido’. Carpenter comandou também ‘Assalto à 13ª DP’ em 1976, um de seus primeiros longas, que precede inclusive ‘Halloween’. O personagem Scott, filho do pastor, usa uma camisa na qual está escrito “Precinct 13”, ou “13ª DP”, em referência a este clássico do mestre

Existe ainda uma ligação com o filme anterior de Robert Rodriguez, ‘A Balada do Pistoleiro’ (1995), espécie de remake / continuação de ‘El Mariachi’ (1992), o primeiro filme do diretor. Quentin Tarantino participa como ator em uma ponta no filme de 1995. No longa, Antonio Banderas interpreta um mariachi matador, que carrega um estojo de violão repleto de armas. E dentro dele podemos ver a infame arma que se parece com um pênis. A dupla voltaria a aproveitar a bugiganga para o personagem de Tom Savini em ‘Um Drink no Inferno’, categoricamente chamado Sex Machine.

Todas menos Madonna

Voltando a falar de Salma Hayek e sua Satânico Pandemonium, a icônica cena em que a personagem entra em cena, ela carrega no pescoço uma enorme cobra albina. Acontece que a atriz possui uma grande fobia de cobras, assim como grande parte dos seres humanos. Porém, Robert Rodriguez não podia abrir mão do réptil e queria verdadeiramente Hayek no papel. Então, ele fez o que todo realizador fazia na época: ele mentiu! Rodriguez disse que Madonna queria muito o papel (já que havia trabalhado com a cantora em ‘Grande Hotel’, 1995) e que se Hayek não fizesse, ela ficaria com a personagem. Hayek tratou de fazer terapia por dois meses para conseguir superar seu medo.

Tarantino-verso

Existe uma teoria de que todos os filmes de Quentin Tarantino fazem parte do mesmo universo e estão conectados de alguma forma. E o diretor faz questão de enfatizar isso em alguns easter-eggs de suas produções. Um exemplo disso é a marca de cigarros fictícia “Red Apple”, que só existe nos filmes do diretor. Ele fez até a logo do maço e o desenho de uma maçã com uma minhoca. A marca aparece em grande parte dos seus filmes, como Bastardos Inglórios, Os Oito Odiados e Era uma Vez em Hollywood, por exemplo.

Outro merchandising falso que vira e mexe aparece é o da hambugueria “Big Kahuna”, que fez sucesso em ‘Pulp Fiction’. Ela volta a aparecer aqui em ‘Um Drink no Inferno’, nos fazendo desejar um suculento hamburguer do local.

O comando da obra

Um Drink no Inferno’ é uma colaboração entre Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. O primeiro escreveu, o segundo dirigiu e ambos produziram. Porém, é dito que Tarantino também iria dirigir o longa, mas terminou desistindo para se concentrar no roteiro e em sua atuação como Richard Gecko.

Ainda antes da entrada de Rodriguez, Tarantino disse que cineastas como Renny Harlin e Tony Scott haviam demonstrado interesse em comandar a obra. Scott havia dirigido outro texto de Tarantino em ‘Amor à Queima-Roupa’ (1993). Já outra versão diz que Harlin, que ficou conhecido pelos filmes de ação de sucesso ‘Duro de Matar 2’ (1990) e ‘Risco Total’ (1993), recusou a oferta por acreditar que o longa seria um filme B – e o diretor havia deixado para trás seu passado em filmes de terror, vide ‘A Hora do Pesadelo 4’ (1988).

“Eu não, mas minha mulher sim”

Reza a lenda que dentre os atores cogitados para interpretar o protagonista Seth Gecko antes da entrada de George Clooney, estava John Travolta. E aí recaímos na confusa cronologia do roteiro. Pois esta história diz que Tarantino teria oferecido o personagem para Travolta, que recusou, mas demonstrou interesse em participar de ‘Pulp Fiction’. Ou seja, segundo essa narrativa, os dois roteiros estavam rolando na mesma época, com o ator preferindo estrelar o icônico filme de gangster. E ninguém duvida que ele fez a escolha certa, afinal saiu da experiência com uma indicação ao Oscar. E convenhamos, por mais que ‘Um Drink no Inferno’ seja um cult querido, nenhum cinéfilo em sã consciência dirá que é melhor que ‘Pulp Fiction’.

Mas a história não para por aí, já que Travolta não fez o filme, mas fez a ponte para que sua esposa, a saudosa Kelly Preston, aparecesse em uma pontinha no filme de vampiros do colega. Preston faz o papel de um repórter no melhor estilo “piscou, perdeu”.

Nem tudo são flores

No fim das contas, o protagonismo do filme ficou com o então ator de TV George Clooney. Na época, Clooney era conhecido pela série ‘Plantão Médico’, que havia estreado dois anos antes, em 1994. ‘Um Drink no Inferno’ não foi o primeiro filme de George Clooney, mas marcou um divisor de águas em sua carreira, que o levou ao estrelato. Podemos dizer que Clooney só se tornou o que é hoje graças a este filme. Pelo trabalho, o ator recebeu o salário de US$250 mil. E foi graças a este terror que ele foi escolhido como o novo Batman do cinema, após o diretor Joel Schumacher assistir ao longa. E bem, o filme em questão foi o malfadado ‘Batman & Robin’ (1997). Bom, na época não tinha como saber que o blockbuster iria se tornar um dos piores da história.

Filme Oscarizado

Um Drink no Inferno’ é uma obra cult, como dito. Uma aventura repleta de ação e diversão, além de muitos sustos, é claro. Um filme assim tem como objetivo entreter, mas ‘Pecadores’ mostrou que também pode ter o prestígio do Oscar. ‘Um Drink no Inferno’ não foi indicado para nada, com conta com um verdadeiro elenco tarimbado pela Academia. São nada menos que dois vencedores do Oscar (George Clooney e Quentin Tarantino) e quatro indicados ao Oscar (Harvey Keitel, Juliette Lewis, Salma Hayek e John Hawkes – que interpreta o funcionário de um mercadinho sequestrado).

Resultado

Um Drink no Inferno’ estreou no dia 19 de janeiro de 1996 nos EUA, e ficou em primeiro lugar nas bilheterias em seu fim de semana de estreia, com US$10 milhões de abertura. O longa destronou o campeão das duas semanas anteriores, a ficção científica ’12 Macacos’, com Bruce Willis e Brad Pitt. No Brasil, ‘Um Drink no Inferno’ chegaria no dia 26 de abril do mesmo ano. Com orçamento de US$19 milhões, o filme arrecadou US$25 milhões em sua estadia nos EUA. O resultado ficou longe de ser um sucesso, mas logo depois ele seria redescoberto nas locadoras, onde atingiu seu status de cult.

Continuação

Um Drink no Inferno’ chegou a ganhar uma continuação, embora nem todos saibam. A verdade é que apenas o primeiro conta de verdade. O que acontece é que a sequência do filme é uma produção lançada direto em vídeo em 1999, numa época em que o termo “lançado direto em vídeo” era o que se imaginava dele. Ou seja, uma produção que não foi digna dos cinemas. Com Robert Patrick protagonizando, o longa ainda teve produção de Tarantino e Robert Rodriguez. Mas não apenas isso, como também teve um terceiro filme, novamente lançado direto em vídeo (no mesmo ano de 1999), com a nossa Sonia Braga no elenco. O legado da obra gerou ainda uma série de TV, que reconta a história do primeiro filme, lançada em 2014 – que durou três temporadas. Nessa nova roupagem, a sedutora Satanico Pandemonium foi interpretada por outra atriz mexicana, Eiza González, que está em todo lugar atualmente.

Por um tempo, ao que tudo indica, o plano era levar a sequência de ‘Um Drink no Inferno’ para os cinemas. Reza a lenda que Michael Hutchence, o saudoso vocalista da banda INXS, teria recebido o roteiro para estrelar a continuação do longa. É o que afirma sua agente Martha Troup, em entrevista para a revista Details em julho de 1998. Infelizmente, o cantor viria a falecer pouco tempo depois de ter recebido tal roteiro, em novembro de 1997. Ou seja, sua morte talvez tenha mudado os planos de uma sequência para o cinema.

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