Durante passagem pelo Rio de Janeiro para divulgar ‘Mãos à Obra‘ (2025) no Festival de Cinema Francês, a diretora francesa Valérie Donzelli concedeu uma entrevista sincera e inspiradora, falando sobre o processo criativo do filme, sua relação pessoal com a história, a parceria com o ator Bastien Bouillon e os desafios enfrentados por artistas no cenário cultural atual.
Mãos à Obra nos mostra um homem e sua série de decepções e aprendizados ao decidir por uma grande virada na vida: trocando a estabilidade e encontrando desilusões. O protagonista dessa história se coloca como observador do que gira ao seu redor, sem nunca perder a esperança – mesmo diante de dificuldades evidentes.
Inspiração pessoal e literária
Donzelli explicou que Mãos à Obra é baseado no livro homônimo de Franck Courtès — base que serviu como ponto de partida para o longa — mas que a adaptação ganhou contornos profundamente pessoais.
“A inspiração veio do livro, já que o filme é uma adaptação, mas também veio muito de mim. Eu sei o que é essa luta. Quando li o livro, eu estava vivendo uma situação mais ou menos semelhante à da personagem”, contou.
Segundo a diretora, essa identificação foi essencial para construir personagens mais verdadeiros, especialmente na forma como o filme aborda conflitos internos, resistência e desejo de transformação.
A parceria com Bastien Bouillon
Ao falar sobre o trabalho com Bastien Bouillon, Valérie destacou a sensibilidade do ator e a conexão criativa entre eles, algo fundamental para dar vida à complexidade emocional do filme.
Embora não romantize o processo, ela ressaltou que a troca artística foi marcada por escuta, entrega e confiança mútua — elementos que, segundo ela, são indispensáveis para um cinema que busca humanidade e verdade.
Por que os artistas são tão desvalorizados?
Um dos momentos mais fortes da entrevista foi quando Donzelli refletiu sobre a desvalorização dos artistas na sociedade contemporânea. Para ela, o problema está diretamente ligado à lógica do sucesso financeiro.
“Alguns artistas só passam a ser reconhecidos quando se tornam conhecidos ou lucrativos. Existe sempre essa relação entre reconhecimento e sucesso econômico, e isso é muito ambivalente.”
A diretora também criticou a visão de que a arte não é um trabalho “real”:
“As pessoas acham que ser artista é um hobby, algo leve, mas não é. Os artistas são extremamente importantes. Eles se alimentam do mundo, transcendem o real, e isso é algo de que todos nós precisamos.”
Segundo Donzelli, o grande problema é que muitos artistas não são levados a sério, apesar do impacto profundo que a arte tem na sociedade.
Realização profissional e reconhecimento na França
Questionada sobre sua própria trajetória, Valérie Donzelli foi honesta ao falar de realização e valorização.
“Eu me sinto totalmente realizada com a minha profissão e também valorizada. Faço parte de um grupo de diretoras que, na França, são reconhecidas. Tive sucessos, recebi prêmios, e isso contribui para a confiança.”
Ainda assim, ela fez questão de destacar que continua movida pela curiosidade e pelo desejo de aprender:
“Mesmo não sendo mais tão jovem, eu ainda tenho muita sede, muito desejo de aprender. Essa chama continua sempre acesa dentro de mim.”
A mensagem de Mãos à Obra
Para Donzelli, o filme não traz uma mensagem fechada, mas propõe uma reflexão essencial sobre liberdade e escolhas.
“Eu gostaria que as pessoas entendessem que existe um lugar de escolha, um lugar de liberdade. A gente só tem uma vida, e nessa vida a gente tem o direito de ser feliz.”
Paixão pelo cinema brasileiro
Encerrando a conversa, Valérie revelou que ainda conhece pouco do cinema brasileiro, mas fez questão de destacar um filme que a marcou profundamente:
“Eu vi um filme chamado Baby, de um jovem diretor chamado Marcelo Caetano. Assisti em Cannes, numa mostra de filmes latino-americanos, e ele ganhou um prêmio. É um filme incrivelmente belo, cheio de humanidade. Eu amo Baby.”
A diretora ainda agradeceu a recepção calorosa no Brasil e demonstrou entusiasmo em apresentar Mãos à Obra ao público brasileiro.


