Em 1999, Stephen Sommers deu vida a um dos projetos mais divertidos e subestimados da década: ‘A Múmia’. Estrelado por Brendan Fraser e Rachel Weisz, o longa-metragem inspirado nos clássicos de monstros da Universal Pictures apresentou uma perspectiva mais cômica a narrativas do gênero, apostando fichas em conhecidos tropos da comédia e da aventura – e que, em retrospecto, posou como um sólido corpo artístico que cumpriu com o esperado. Alguns anos depois, Sommer foi contratado pelo estúdio para comandar mais uma produção que integrasse esse expansivo cosmos: ‘Van Helsing: O Caçador de Monstros’.
Estrelado por Hugh Jackman, o longa-metragem nos leva para o final do século XIX e acompanha Gabriel Van Helsing, um habilidoso e odiado caçador de monstros que é visto por um pária pela sociedade – principalmente por seus métodos nada convencionais de exterminar qualquer ameaça que se coloque à sua frente. Após matar Dr. Jekyll e seu psicótico alter-ego Sr. Hyde, Van Helsing é requisitado pela Igreja do Vaticano para viajar até a Transilvânia e impedir os malignos planos do Conde Vladislaus Drácula (Richard Roxburgh), além de garantir que Anna (Kate Beckinsale) e Velkan (Will Kemp), últimos descendentes vivos da família Valerious, sejam assassinados. Porém, o caçador não poderia imaginar que segredos sobre sua própria vida seriam trazidos à tona em meio a uma luta pela sobrevivência.

Apesar de ter arrecadado mais de US$300 milhões ao redor do mundo, o filme foi massacrado pela crítica internacional, que o caracterizou como uma narrativa “vazia e impactada pelo excesso de CGI”, como apontou o consenso do Rotten Tomatoes. Entretanto, quando paramos para revisitá-lo, percebemos que Sommers não tem qualquer intenção além de nos entregar um bom entretenimento – apostando fichas em uma emulação dos projetos que encabeçou, mas abrindo espaço para incursões do terror e da ação de forma despojada e prática. Em outras palavras, talvez a fraca recepção tenha sido injusta e exagerada, visto que, no final das contas, nos divertimos com o que nos é apresentado.
O diretor tem uma clara visão do que quer nos entregar e faz isso ao abraçar uma veia teatral e propositalmente exagerada em cada um dos aspectos: desde a construção das criaturas que permeiam essa aventura até o já mencionado uso incessante de efeitos visuais, toda a arquitetura camp funciona dentro dos limites autoimpostos e dá espaço para a química do elenco vibre nas telonas – eventualmente, tornando-se o elemento de maior sucesso.

Jackman encarna Van Helsing de modo a se divertir como nunca, mergulhando de cabeça em uma jornada clara o suficiente para ser acompanhada. Afinal, o protagonista titular funciona como um arquétipo de qualquer outra história heroica a que já tenhamos assistido ou lido em nossa vida – um homem marcado por traumas que é visto como um justiceiro impiedoso e que, na verdade, está apenas tentando encontrar seu lugar e sua missão em um mundo que o deseja morto. E, acompanhando-o nessa empreitada, temos a presença de Beckinsale como a magnética Anna, que abraça a missão da família em destruir Drácula e suas esposas para não condenar o nome Valerious à eternidade no Purgatório.
Enquanto a dupla principal faz um bom trabalho, outros membros do elenco têm seu momento de brilhar e, se compreendermos a ambientação hiperbólica em que estão inscritos. Roxburgh foi um dos que mais atraiu comentários negativos ao encarnar o Conde Drácula, porém, é notável como o astro o transforma em uma rendição operística e melodramática de um dos personagens mais memoráveis de todos os tempos. E, em meio a maneirismos circenses, ser envolvido por uma performance tão descontraída quanto esta não é uma tarefa difícil – ainda mais com a presença de Elena Anaya, Silvia Colloca e Josie Maran como o trio de noivas do perigoso vampiro, temperando a obra com presenças bastante chamativas.

Responsável também pelo roteiro, Sommers escorrega em momentos-chave ao se inclinar demais para clichês e ocasionalidades cansativas – mas, ainda que cometa esses deslizes, o diretor demonstra um comprometimento com sequências que nos tiram o fôlego, como a cena do baile ou até mesmo o confronto final entre Van Helsing e Drácula e entre Anna e Aleera. E, entre escolhas certeiras e errôneas, o apreço do realizador por imbuir histórias lendárias sob um mesmo escopo demonstra a clara homenagem que faz a nomes como Bram Stoker, Mary Shelley e George Waggner (autores que lhe inspiraram para gestar o longa).
‘Van Helsing: O Caçador de Monstros’ pode não ser o melhor filme da história e ter seus óbvios excessos – todavia, ele nunca teve a intenção de reinventar a roda ou oferecer uma perspectiva nova para o gênero discorrido, preferindo, dessa forma, calcar uma trajetória funcional e interessante de ser acompanhada. E, se pudermos deixar o olhar mais técnico de lado, revisitá-lo mais de duas décadas depois de seu lançamento nos cinemas não é uma tarefa difícil e, com certeza, servirá como um bom entretenimento para um dia de descanso.
Lembrando que o filme está disponível no Prime Video.
