Velson D’Souza transita entre teatro e audiovisual ao encarar o thriller psicológico de ‘Oleanna’



Ao assumir Oleanna, texto clássico de David Mamet que ultrapassou os palcos e ganhou uma adaptação para o cinema dirigida pelo próprio autor, Velson D’Souza parte de uma decisão fundamental: não se apoiar no filme para construir sua interpretação. “Eu conheço a versão do filme, mas preferi não me apoiar nela. Porque são linguagens muito diferentes”, explica o ator, que estreia a montagem no dia 10 de abril, no Teatro Vivo, em São Paulo.

A escolha não é apenas estética, mas estrutural. Enquanto o cinema se apoia em enquadramento, montagem e manipulação do tempo, o teatro exige continuidade e presença, sustentadas na relação direta entre os atores e o público. A partir disso, a encenação se organiza em torno de uma linguagem própria, menos mediada e mais centrada no que acontece ao vivo, no encontro entre os personagens.

Essa abordagem dialoga diretamente com a construção de Oleanna. Baseada quase exclusivamente no diálogo, a peça se desenvolve como um embate psicológico crescente, frequentemente associado a um thriller. Nesse contexto, a tensão não se apoia em ação externa, mas na palavra, na escuta e no que permanece subentendido, criando um ritmo que se aproxima da lógica de suspense do cinema.

“Eu vejo muito como essa peça pode ser considerada um thriller. A tensão não vem de ação externa, vem da palavra, da escuta, do que não está sendo dito também”, afirma Velson. No palco, no entanto, esse mecanismo ganha outra dimensão, já que o público compartilha o espaço da cena e acompanha o conflito em tempo real.

A experiência recente do ator no audiovisual, com trabalhos no SBT e na Record, atravessa esse processo de forma direta. A vivência diante das câmeras contribui para uma atuação mais precisa, atenta aos detalhes e ao controle das tensões internas, sem recorrer a excessos. Essa depuração se reflete na montagem, que evita carregar a interpretação e privilegia a construção a partir da relação entre os personagens.

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“E no palco isso ganha uma outra camada, porque o público está ali dentro da situação”, observa o ator, reforçando o caráter imersivo da encenação, especialmente em uma proposta mais intimista. Essa proximidade reorganiza a percepção do conflito e intensifica a experiência do espectador, que acompanha a tensão sem mediações.

Ao projetar o texto para uma possível adaptação contemporânea no cinema ou no streaming, Velson aponta para a permanência de sua essência. As discussões propostas pela obra seguem atuais, especialmente no que diz respeito à tensão entre intenção e interpretação, ainda que o contexto de leitura se transforme com o tempo.

Esse trânsito entre linguagens também aparece em seus próprios projetos. O ator desenvolve um roteiro de thriller psicológico, intitulado ‘Querido, Irmão’, e demonstra interesse em expandir esse tipo de narrativa para o audiovisual, seja como ator ou produtor, mantendo, por ora, o foco no teatro e no trabalho de formação.

Entre palco e tela, D’Souza constrói um percurso que não busca equivalências diretas entre meios, mas entende suas diferenças como potência criativa. Em Oleanna, essa escolha se traduz em uma experiência que aposta na palavra, na escuta e na presença como dispositivos centrais de tensão, elementos que, no teatro, seguem insubstituíveis.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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