‘Vingadores: Ultimato’ ocupa quase todas as salas de cinema no Brasil e gera polêmica

‘Vingadores: Ultimato’ ocupa quase todas as salas de cinema no Brasil e gera polêmica



Em 2015, foi criada a chamada tela suplementar, que determinava o impedimento de um mesmo filme de ocupar mais de 30% das salas de cinema ativas de uma mesma rede no país. Essa medida buscava garantir maior diversidade na oferta de filmes exibidos, dando oportunidade aos filmes nacionais de orçamento reduzido, que constantemente têm que lutar para permanecer em cartaz. A medida também buscava limitar a supremacia dos blockbusters, que na última década têm invadido cada vez mais e com mais força os cinemas no mundo inteiro.

Entretanto, no final de 2018, com a transição do governo, a Justiça suspendeu essa medida, e, consequentemente, liberou que não haja mais o limite de exibição em salas de cinema. Dessa forma, um mesmo filme, caso tivesse orçamento e distribuição o suficiente (e interesse das salas de exibição) poderia até mesmo ocupar exatamente TODAS as salas de cinema do país.

É o que quase aconteceu com ‘Vingadores: Ultimato’, que estreou no último dia 25. Segundo informações da UOL, o blockbuster da Marvel estreou ocupando 2700 salas de cinema do Brasil, que possui um total de 2957 salas. Ou seja, de todas as salas do país inteiro, APENAS 257 não estão exibindo o capítulo final da história de Stan Lee.

Embora a Ancine tenha afirmado que iria recorrer na decisão para que fossem mantidas as estratégias de política pública, a verdade é que até agora a decisão segue mantida. Isso significa, por exemplo, que filmes como ‘Amor até as cinzas’, um drama chinês que estreou uma semana antes de Vingadores, hoje esteja passando somente em quatro salas no Rio de Janeiro, em meia dúzia de horários. E que filmes nacionais que possuem patrocínio e distribuição em programas públicos sejam diretamente afetados, porque precisam se espremer numa grade de horários ingrata, que deixa disponível as últimas opções para o cinema experimental.

O desembargador Johonsom di Salvo afirmou ao Globo que a qualidade da produção brasileira “é bastante irregular” e que a limitação das superproduções nos cinemas representa “severa intervenção” do Poder Público. Ou seja, para manter a medida, foi levado em consideração a capacidade da produção nacional de competir com produções blockbusters internacionais, que possuem verdadeiros gigantes financiando suas distribuições mundo afora. Em outras palavras, por que desperdiçar o espaço de uma sala de cinema exibindo ‘Sobibor’ – que conta a história real de um grupo de judeus que conseguiu escapar de um campo de concentração nazista, e que estreou no mesmo dia que ‘Vingadores’, mas que hoje ocupa apenas duas salas e quatro horários no Rio de Janeiro – se você pode simplesmente ocupar todos os espaços com mega-produções internacionais cujo retorno é garantido e imediato, não só em ingressos mas também em combos de pipoca e outros produtos de merchandising.

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Por outro lado, as redes de cinema estão fazendo um intensivão na primeira semana de ‘Ultimato’. Algumas delas estão exibindo o filme 24 horas por dia; outras começam a primeira sessão às 10:30 da manhã, para garantir que o público que trabalha à tarde consiga ver o filme na primeira semana. Há ainda aquelas que estão fazendo o horário da meia noite todos os dias, estendendo o horário de trabalho dos funcionários, que esta semana estão fazendo uma jornada hercúlea para garantir o entretenimento dos fãs da Marvel. E redes de cinema que são reconhecidas como circuito alternativo, por justamente oferecerem um leque maior de opções de cinema, se renderem ao poderio do capítulo final dos Avengers, e isso gerou revolta de alguns frequentadores dessas salas. O resultado é que em apenas dois dias de exibição, ‘Vingadores: Ultimato’ já contabilizou 2 milhões de espectadores brasileiros.

Entendemos que é um filme esperado por grande parte dos cinéfilos do mundo todo, porém, a ocupação quase total das salas de cinema no país limita a oferta de outras opções de entretenimento visual aos brasileiros, que, como um país livre e democrático, precisa ao menos ter outros filmes como opção de lazer. Do contrário, em pouco tempo começaremos a filmar nossos filmes em inglês, para garantir o espaço de exibição.

 

 



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