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Você sabia que ‘Quarteto Fantástico’ possui um filme da década de 90 nunca lançado nos cinemas?


O mês de julho tem tudo para ser o maior em termos de bilheteria, quando falamos do ano de 2025. Isso porque ele abriga três superproduções que vêm se destacando em termos de arrecadação mundial. O primeiro é ‘Jurassic World: Recomeço’, que serve como reboot da franquia dos dinossauros mais famosa do cinema e já soma mais de meio bilhão de dólares em 17 dias em cartaz. O segundo é ‘Superman’, que serve como reboot não apenas do maior super-herói de todos no cinema, como também do universo inteiro da DC nas telonas e que estreou no fim de semana passado. O filme está se aproximando da marca dos US$300 milhões na primeira semana. E por fim teremos ‘Quarteto Fantástico: Primeiros Passos’, reboot do primeiro grupo de heróis da Marvel, agora no MCU, que chega no penúltimo fim de semana do mês aqui no Brasil.

Para entrar no clima do novo ‘Quarteto Fantástico’, iremos revisitar a primeira produção com os personagens, e não me refiro ao filme de 2005 – que foi o primeiro para os cinemas. Estamos falando da produção obscura de 1994, que por anos não passou de uma lenda urbana do cinema. Confira abaixo para saber mais detalhes.

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Antes do MCU, do multiverso, dos efeitos que nos fazem esquecer da física, e até mesmo antes do ‘Quarteto Fantástico com Jessica Alba e Chris Evans, existia ele. Um filme tão obscuro, tão misterioso, que virou lenda urbana no mundo nerd: ‘The Fantastic Four, de 1994. O longa, produzido por Roger Corman e dirigido por Oley Sassone, nunca chegou aos cinemas, tampouco às locadoras (as boas e velhas). Mas como um zumbi cinematográfico, ele continuou assombrando convenções, listas bizarras da internet e fitas VHS piratas até os dias de hoje.

Tudo começou com um prazo. A produtora alemã Constantin Film detinha os direitos do Quarteto, mas se não iniciasse a produção até o final de 1992, perderia tudo. Então, como quem marca um casamento só pra não perder o buffet, o produtor Bernd Eichinger chamou Roger Corman (rei das produções baratas e rápidas) e decidiu: “vamos fazer esse filme”. Rápido. Barato. E sem muita intenção de mostrá-lo pra alguém.

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Sim, o plano sempre foi não lançar o filme. Uma verdadeira peça de teatro para os deuses do copyright, com um elenco esforçado, uma equipe dedicada e zero noção de que estavam atuando em um projeto-fantasma. A maior pegadinha do mundo dos super-heróis.

É injusto dizer que o elenco não acreditava. Alex Hyde-White (Sr. Fantástico), Rebecca Staab (Mulher Invisível), Jay Underwood (Tocha Humana) e Michael Bailey Smith (Coisa) entraram no projeto com empolgação de verdade. Gravaram cenas emocionantes. Fizeram sessões de fotos. Participaram de convenções divulgando o longa. Achavam, coitados, que estavam prestes a entrar para a história dos super-heróis nas telonas.

E de certo modo… entraram. Só não da maneira que imaginavam.

O visual do filme parecia o primo esquecido de Power Rangers. O Dr. Destino falava como um vilão da Disney Channel, usando uma armadura tão ruidosa que abafava metade das falas. O Coisa parecia feito de espuma de colchão amarelado e, ainda assim, conseguiu ser mais simpático que a versão de CGI de 2015. E o Tocha Humana? Ah, esse virou meme antes da existência de memes: em vez de sair voando em chamas, ele virou uma animação tosca de computador, parecendo um personagem de ‘ReBoot’, aquele desenho canadense bizarro dos anos 90.

Mas acredite: o filme tem coração. Não é um desastre por completo. A direção de arte até tenta. A trilha sonora quer ser épica. Os atores, mesmo com tudo desabando ao redor, se esforçam. É uma produção feita com pouquíssimos recursos, mas muito entusiasmo. Só que o entusiasmo, como sabemos, não paga efeitos especiais.

E então veio o balde de água fria. Depois de pronto, o filme foi engavetado. Literalmente. Nunca lançado oficialmente. Segundo consta, o próprio Stan Lee teria dito que o longa “nunca foi feito para ser exibido”. Mas o maior culpado, segundo a lenda, foi Avi Arad, executivo da Marvel à época. Ele teria comprado os direitos do filme só para impedir seu lançamento. A Marvel, finalmente pensando em voos maiores, não queria que o público visse um Quarteto tão… amador. Segundo Arad, a Marvel precisava de respeito, não de vergonha alheia em VHS.

A equipe, arrasada, descobriu o cancelamento pelos jornais. E, durante anos, o filme permaneceu um sussurro entre fãs, um mito. Até que, como tudo que vale a pena na internet, ele ressurgiu. Cópias piratas começaram a circular. Trechos apareceram no YouTube. E então, como um anti-herói dos anos 90, o ‘Quarteto Fantástico‘ de 1994 se tornou cult.

Hoje, ele é celebrado em festivais, discutido em podcasts e adorado por fãs de filmes ruins com coração. Há até um documentário sobre ele, é claro: ‘Doomed! The Untold Story of Roger Corman’s The Fantastic Four, lançado em 2015. Porque, convenhamos, poucos filmes nunca lançados foram tão assistidos quanto este.

Ver o filme hoje é um exercício de nostalgia e generosidade. Sim, os diálogos são infantis. O vilão gargalha como se estivesse lendo “Como ser malvado em 5 passos”. A computação gráfica parece feita no Paintbrush. Mas há algo puro ali. Algo que falta em muitos blockbusters modernos: paixão verdadeira.

Em uma época em que a Marvel ainda engatinhava no cinema, esse filme representa a adolescência desajeitada do gênero de super-herói. Uma fase constrangedora, cheia de espinhas e voz esganiçada, mas que precisamos respeitar para entender o que veio depois. Sem esse ‘Quarteto‘, talvez nunca teríamos o MCU. Talvez não existisse nem o conceito de filme de herói como evento. Foi preciso tropeçar feio para aprender a voar com estilo.

E hoje, entre tantos reboots prometidos (e adiados), o filme de 1994 continua lá, intocado pelas polêmicas de casting ou refilmagens milionárias. Ele existe fora do tempo, numa bolha paralela onde Reed Richards é feito de borracha de verdade e a Mulher Invisível desaparece com uma edição tosca. E isso, por mais estranho que pareça, é quase poético.

Portanto, se você tiver a chance de assistir a esse improvável relicário de spandex e efeitos ruins, faça isso. Sozinho, de madrugada, com pipoca. Deixe o cinismo na porta. E lembre-se: há filmes melhores por aí, mas poucos são tão… secretamente infames.

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