Watchmen | A História e um Insight sobre uma das HQs mais Importantes de todos os tempos

Watchmen | A História e um Insight sobre uma das HQs mais Importantes de todos os tempos



Por Gustavo Barreto

Tido como a bíblia da DC Comics, Watchmen construiu um mundo próprio. Porém, como inspiração, a obra de Alan Moore voltou seus olhos para a realidade

1985. Caminhando pela movimentada Park Avenue é possível ver uma convergência quase cósmica de contradições, sejam elas os yuppies desviando das pilhas de lixo na calçada, dos grandes arranha-céus empresariais fazendo sombra aos pequenos estabelecimentos comerciais ou da diferença de modelos dos carros aguardando um semáforo liberá-los.

Em uma banca de jornais próxima, dentre a renovação periódica das publicações à venda,  três coisas permanecem inalteradas: o adolescente fielmente prostrado próximo a uma unidade de recarga elétrica lendo Contos do Cargueiro Negro, o mesmo exemplar do Miracleman exposto à espera de alguém que se dispusesse a pagar por ela e uma nova edição de um famoso jornal local anunciando que o novo Secretário-Geral soviético tomaria medidas mais enfáticas contra a ameaça mujahidin no Afeganistão. Logo abaixo uma outra matéria evidenciava o mais recente discurso do presidente Nixon de que os Estados Unidos responderiam de maneira equivalente a qualquer escalada que os russos viessem a impor na guerra do Afeganistão.

Há essa atmosfera no ar de um inevitável final para o século XX. Não há mais Dr. Manhattan desde seu desaparecimento em rede nacional, o ricaço do Ozymandias parece que se escondeu em algum lugar temendo o pior e todos na cidade parecem estar andando no piloto automático, apenas esperando. Diabos, até o maluco do Rorschach parece ter sumido desde a sua fuga da prisão. Não que mude alguma coisa ter os vigilantes presentes ou não, isso não muda nada. Parece que tudo é uma trajetória delimitada por algo ou alguém além do que se pode ver.

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“Quem faz o mundo?” (ou a já tradicional e conhecida importância de Alan Moore)

Os anos de 1986\1987 representaram uma configuração importante da indústria de quadrinhos americana, mais especificamente, mas antes desse período houveram publicações notáveis por prepararem o terreno. Entre junho e julho de 1973 a Marvel Comics publicou The Amazing Spider-Man #121-122, ou como ficou popularmente conhecido, “A noite em que Gwen Stacy morreu”. Este arco foi de absoluta importância para o desenvolvimento pessoal do Homem-Aranha mas, quando analisado em um contexto macro, é tido como o exato momento em que a era de prata dos quadrinhos (compreendida de 1956-1973) terminou.

Portanto, todo o decorrer dos anos 70 e meados dos 80 seriam classificados como parte da era de bronze, aonde temas como consumo de drogas (Green Lantern\Green Arrow #85-86), racismo (Luke Cage, Hero for Hire) e abuso de álcool (Iron Man #128). Foi nesse período também que um jovem autor de histórias em quadrinho britânicas chamado Alan Moore começou a se destacar, primeiro ganhando prêmios menores na Inglaterra e depois atuando em solo norte-americano pela DC Comics.

As histórias de Moore possuem papeis chave na fase final da era de bronze e na construção do terreno que seria a era moderna dos quadrinhos. Entre 1982 e 1983, Alan Moore e David Lloyd trabalharam em publicações iniciais (que só viriam a ser finalizadas alguns anos depois) de V for Vendetta para a editora britânica Warrior, que desempenhou outro papel importante na fase inglesa de Moore, cujo o foco seria o embate entre um governo totalitarista inspirado na administração de Margaret Thatcher contra um terrorista adepto do pensamento anarquista em um contexto global de pós-apocalipse nuclear.

Também em 1982, Alan Moore trabalhou no “reboot” do super-herói britânico Marvelman, que por questões legais teve seu nome modificado para Miracleman, também para a editora Warrior. Marvelman, quando lido em um contexto pós-Watchmen, se mostra como um laboratório para o que viria ser a minissérie de 1986\1987 principalmente por trabalhar os impactos filosóficos, sociais, políticos e até espirituais da presença de um ser superior liderando a humanidade rumo a uma utopia ao mesmo tempo em que esse mesmo ser se sentiria cada vez mais deslocado dessa mesma humanidade.

Em 1984, Moore assumiu a autoria das histórias do Monstro do Pântano para a DC Comics. Originalmente um personagem tipicamente inocente nos anos 70, o enorme humanoide híbrido de vegetação e musgo ganhou contornos intensos sob a tutela de Moore, suas histórias passaram a focar desde a atração e relação sexual do monstro para com uma humana, passando pelo drama de lembrar da sua antiga vida antes da transformação, até chegar a um clímax apocalíptico envolvendo a preservação da natureza e o preço a pagar por ela – que é o assassinato de outros homens.

Quando o ano de 1985 chegou, o editor Len Wein (já conhecido por ter criado Monstro do Pântano e Wolverine) pediu para Alan Moore e o ilustrador Dave Gibbons desenvolvessem uma história do inicio ao fim envolvendo os recém adquiridos personagens da Charlton Comics (Questão, Capitão Átomo, Pacificador, Thunderbolt, Besouro Azul). Inicialmente tendo proposto ideia de envolver os heróis da Charlton em uma desconstrução coletiva, muito similar ao feito em Marvelman, Moore teve sua ideia rejeitada por parte da DC pois a editora temia que seus personagens recém adquiridos ficassem marcados, eles sugeriram a Alan que criasse novos personagens e, tendo inicialmente hesitado por achar que a história perderia o apelo, o escritor viu uma boa oportunidade, conforme relatado pelo mesmo em uma carta de sua autoria em 1988.

 

“Eu era rico, entediado…” (ou as reaganomics da década de 80)

No contexto de história alternativa do mundo de Watchmen a existência de vigilantes mascarados causou profundo impacto na política interna e externa dos EUA. Com o auxílio do Comediante, o governo Nixon (1969-1974 no mundo real) conseguiu reprimir alguns dos elementos mais polêmicos ao que foi sua administração como, por exemplo, silenciar os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein antes que eles divulgassem o escândalo de Watergate, suplantar o movimento hippie no fim dos anos sessenta e, o mais importante, vencer a Guerra do Vietnã com o auxilio do Dr. Manhattan, único super-herói desse universo (leia-se com poderes reais), garantindo assim quatro mandatos consecutivos de 1969 até 1985.

Apesar da história não abordar como foi a política econômica dessa versão de Richard Nixon, há boas chances delas terem sido similares as chamadas reaganomics. Ao final da década de 70, no mundo real, a economia americana se encontrava em um momento extremamente delicado. Dados do Federal Reserve (equivalente ao Banco Central do Brasil) indicavam que em 1979 a inflação atingia os 15% , situação essa alcançada segundo o ex-presidente do Federal Reserve Arthur Burns graças ao enfraquecimento das políticas keynesianas em vigor na economia desde o fim da segunda guerra, no qual o estado teria uma intervenção mais incisiva ou presente no mercado de modo que não se repetisse uma crise semelhante a de 1929.

Segundo dados do site Investopedia, várias ações na bolsa de valores perderam 40% de seu valor em um período de dezoito meses. O crescimento econômico nacional desacelerou ao passo que o número de desempregados aumentou. A razão se distribuiu entre vários fatores: os gastos onerosos na guerra do Vietnã desde a década de sessenta, a crise de fornecimento do petróleo por parte da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em 1973, políticas econômicas protecionistas demais e etc.

Fato é que em 1979 uma convergência de crise econômica (o governo sendo obrigado a aumentar taxas de impostos sobre as parcelas da população historicamente marginalizada para conter a inflação), político (representada pela revolução iraniana, a crise dos reféns do Irã e o início da primeira guerra do Afeganistão) e social (escalada da violência em grandes centros urbanos) afetaram as eleições presidenciais de 1980 e que garantiu a vitória do candidato republicano Ronald Reagan sobre o então mandatário Jimmy Carter.

Vitória essa montada principalmente em torno da promessa de Reagan (ou Nixon no universo de Watchmen) de, segundo o analista político Peter Ferrara em um artigo para a Forbes,  recuperar a economia através de um intenso processo de corte de impostos para incentivar o consumo, que em 1981 girava em torno de 70% para 50% e depois a 25%. As reaganomics, como ficaram conhecidas essas políticas, também visaram diminuir o gasto público ao extremo, deixando o grosso de investimento apenas para o setor de defesa. Esses cortes atingiram 16.3% entre 1981 e 1983.

Essas medidas, somadas à filosofia do laissez-faire (total liberdade para o mercado se auto regular), marcaram os anos 80 com uma recuperação econômica recorde. Entre 1982 e 1989, a economia cresceu tanto quanto a da Alemanha ocidental, que na época era a terceira maior do mundo. O cientista político Will Kenton afirma ainda que a inflação de 15% que, em 1980, determinou a agenda econômica do governo Carter e consequentemente levou ao seu desgaste teve uma diminuição de 4% durante a aplicação das reaganomics, assim como o desemprego no mesmo período caiu 6%.

Porém, segundo o economista keynesiano Paul Krugman, em um artigo publicado no New York Times, mesmo que as políticas econômicas de Reagan tenham tirado o país de uma grave recessão, ao final dos anos oitenta a classe média pouco havia crescido em termos de poder de compra com o que já possuía na década anterior e que o preço pago pelo cidadão comum tinha sido muito maior do que a parcela mais rica.

Segundo dados da Secretaria de Estatísticas Trabalhistas dos Estados Unidos o índice de desemprego atingiu variações de diferenças nem tão elevadas mas sempre se mantendo acima do teto de  5% estabelecido pelo Federal Reserve. Em 1983, por exemplo, um ano depois das políticas econômicas de Reagan terem sido postas em prática, essa taxa chegou a 10.40%.Em 1984, 8.00%. Já em 1985, 7.30%.

Da mesma forma como é evidente no decorrer de Watchmen a expansão do poder econômico das múltiplas linhas de produção das Industrias Veidt, que abrangem desde perfumes e brinquedos até receitas de boa forma, isso também representa a questão chave da economia ocidental na década de 80: a ascensão da iniciativa privada. Na grafic novel Adrien é retratado como um genial empresário que utiliza de seu passado de vigilante para lucrar, convertendo a realidade dos fatos e envolvidos em action figures ou itens de consumo. É muito provável que a crítica de Alan Moore, direcionada aos governos Tatcher e Reagan, visava expor que em nome do progresso econômico não estava descartada uma “prostituição” de ideais.

 

“Até lá somos a única proteção da sociedade” (ou como os índices de violência chacoalharam a década de 80)

O conceito base por trás do grupo Minuteman, a equipe de vigilantes que antecedeu algumas décadas àquela formada pelos protagonistas, era o de formar uma força resposta ao aumento de criminalidade (e segundo o primeiro Coruja, Hollis Mason, a decadência moral na sociedade) em 1939. Em um capítulo do fictício livro ‘Sob o capuz’, Mason relata que a decisão que o levou a vestir um traje de coruja ao mesmo tempo em que trabalhava como policial foi um misto de percepção do ambiente a sua volta e de uma fantasia infantil das histórias pulp sobre derrotar vilões e salvar damas em perigo.

De acordo com relatos do próprio Mason em ‘Sob o Capuz’ os Minuteman terminaram oficialmente em 1949 após o assassinato de membros como Dólar Bill e Silhouette, o casamento e eventual gravidez da Espectral e pela falta de novos vilões, quando os antigos estavam todos presos ou praticando delitos considerados mais “infames” como tráfico de drogas e fraudes. Mason também aborda que tanto a idade quanto a insignificância da sua existência perto do Dr. Manhattan ou da eficiência de Ozymandias o levaram a se aposentar em 1962. A segunda geração de vigilantes viria a se aposentar após a aprovação da lei Keene de 1977, renegando a década seguinte apenas os esforços daqueles que continuavam na ativa a serviço do governo, como o já mencionado Dr. Manhattan e o Comediante.

Segundo dados do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, em 1980 o número de vitimização por homicídio atingiu o pico com 10.2 assassinatos por 100.000 habitantes, tendo em 1984 uma queda de 7.4 no número de homicídios pelo mesmo número da população. Nesse mesmo período as taxas de homicídio para ambos os sexos atingiram também picos preocupantes, tendo ocorrido 16.1 homicídios por 100.000 homens e 4.5 homicídios por 100.000 mulheres.

Porém, informações mais focadas na cidade de Nova York, principalmente por ser o local aonde se passa Watchmen, indicam um cenário ainda mais assustador do que no resto do país. Em um artigo publicado no New York Times em fevereiro 1981, o jornalista Leonard Buder  intitula o ano anterior como sendo o pior período de crimes da história. De acordo com o autor, à época o Departamento de Policia de Nova York reportara um aumento recorde no número de assassinatos e roubos desde que o departamento começou a catalogar e registrar os crimes há 49 anos.

Foram 710.153 crimes registrados, um aumento de 14.3% em relação a 1979 que registrou 621.110 delitos. Tal alargamento deixou Nova York em 9º lugar no índice de criminalidade relativa da época. O que, em parte, originou essa onda de violência foi a epidemia de crack a partir de 1985 na cidade. A origem do crack teria surgido pela tentativa dos traficantes de cocaína da época encontrarem uma forma mais barata de produzir a droga, isso é, convertendo-a em pequenas pedras.

Em 1988 quase 40% dos assassinatos, de um total de 1.896, em Nova York eram relacionados a viciados em crack. Ao fim do ano a cidade teria alcançado a marcação de 152.600 crimes violentos perpetrados. Em matéria publicada pelo jornalista Gene Mustain no Daily News, é dito que os bairros mais pobres foram os que mais sofreram com a violência.

No South Bronx, por exemplo, os casos de crimes violentos haviam subido 44% em 1988 quando comparados com 1985. Outros dados indicam que casos de violência doméstica subiram 24% em 88, fazendo parte dessa crescente de 150% desde 1985. Abuso infantil e casos de negligência dispararam 19% , quando comparados com o conjunto de 156% desde 1985.

Ainda segundo a reportagem de Mustain, os casos de ataques cometidos por jovens contra idosos e roubos de veículos chegaram a 44% e 25% respectivamente no contexto da epidemia do crack. Tão importante quanto a média de crimes cometidos, são aqueles que lucraram com o crime, em especial Baby Sam Edmondson, que comandou o trafico de drogas no Brooklyn.

Como um vilão digno da segunda geração de vigilantes que sucedeu os Minuteman, Edmondson criou um modelo de produção que parcelava cada momento da confecção do crack. Nesse processo, acredita-se que ele lucrava US$ 100.000 por dia e teria sido o mandante, direto e indireto, de dezenas de assassinatos na época.

 

“Eu deixo inteiramente nas suas mãos” ( ou apenas uma conclusão)

Ao final do trágico plano de Ozymandias em fingir um ataque alienígena no centro de Nova York, deixando um oceano de corpos e sangue, o pacto coletivo de mentir sobre o que aconteceu de fato, a recusa de Rorschach em apoiar a mentira e seu eventual assassinato, houve paz. Um momento coletivo de solenidade mundial no qual os Estados Unidos e a União Soviética deixarima as diferenças de lado contra um inimigo superior.

Isso sob uma ótica global. Porém quando visto o microuniverso nas ultimas páginas de Watchmen fica claro que, ao invés da ordem emergida do caos social e político que aquele mundo recebeu, os humanos que lá habitam permanecem nada mais e menos que humanos: Dan e Laurie estão juntos, felizes como pessoas e aceitando plenamente suas personalidades sentinelas.

Outro espectro, ainda mais interessante, reside em Sally (mãe da Laurie) que, após a visita da filha e do novo marido, chora sozinha e beija o jovem Comediante imortalizado na fotografia da antiga equipe. O mesmo Comediante que tentou estuprá-la décadas antes, em único momento ela demonstra uma saudade que quebra qualquer expectativa por parte do leitor. Não há raiva mas sim algo que se parece tanto amor quanto saudade. É o caos sentimental interno da humanidade que permeia 80% do elenco, excetuando-se Dr. Manhattan e Ozymadias.

Fica ao final um sentimento de continuidade, de que aquele mundo paralelo seguiu seu rumo assim como o mundo de fato (leia-se o real) superou a década de 80 e, da mesma forma que exorcizou o fantasma da Guerra Fria tradicional, ganhou novos desafios: a nível mundial com a nova configuração geopolítica pós 91, econômico com o espaço cada vez menor entre crises financeiras e insatisfações trabalhistas, político com a ascensão de movimentos de extrema-direita nascidos da insatisfação com governos de esquerda e ou progressistas, sociais com a ajuda de mídias digitais que facilitam o compartilhamento de pautas populares e organizações de manifestações.

É um mundo novo, perigoso, estimulante, lamentável. Porém, confortavelmente ou não, o sol ainda se vê descendo entre os arranha-céus e ao cair da noite, há o sentimento misto e primitivo de medo com liberdade. História prosseguem, crimes ocorrem mas na noite de 12 de outubro de 1985 um comediante morreu em Nova York.



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