Crítica | Armas na Mesa

Crítica | Armas na Mesa

COMPARTILHE!

A Dama de Ferro

Deus abençoe Jessica Chastain. Não é uma missão fácil se tornar uma das maiores estrelas dentro de um mercado tão competitivo quanto o de Hollywood. Sim, existe muito lobby, e fatores como ter o agente certo obviamente entram jogo. Mas o talento é primordial. A ascensão de Chastain é impressionante, ainda mais se levarmos em conta que seu primeiro trabalho de destaque foi em 2011, com A Árvore da Vida, de Terrence Malick, no qual enfatizou sua presença angelical.  É claro também que a atriz já vinha na luta desde 2004, e foram necessários mais sete anos até sua explosão. Mas que bom que a recebemos.

Chastain é uma atriz metódica e minimalista, que funciona bem em todo tipo de personagem, mas vem se especializando num específico: a mulher fria, calculista e inescrupulosa. Se olharmos para filmes como A Hora Mais Escura (2012), O Ano Mais Violento (2014) e A Colina Escarlate (2015), veremos uma tendência. Aqui, a estrela novamente adere a um personagem maior que a vida, cuja presença não pode ser ignorada, mas que nem sempre exibe a melhor das índoles. Elizabeth Sloane é uma torre de marfim, bela, plácida, alva e intocável. É também a pessoa a qual queremos ter ao lado em uma crise.

Reprisando a parceria com o britânico John Madden, que a comandou em A Grande Mentira (2010), filme sobre terrorismo lançado direto em vídeo por aqui, Chastain é a alma e espinha dorsal de Armas na Mesa, no papel de uma lobista que é a melhor no que faz. Pense em Obrigado por Fumar (2005), de Jason Reitman, para entender um pouco a proposta deste longa e a personagem da atriz. A Miss Sloane do título original é uma versão de Nick Naylor (o protagonista de Aaron Eckhart no filme citado) mais perversa e desalmada, se isso é possível.

     

Cabeça de uma firma estrategista, Elizabeth Sloane recebe a proposta de intervir pela indústria armamentista, defendendo-a em uma votação. Seu trabalho é convencer o público de que armas são boas e a última defesa em um mundo desigual e cruel. O lançamento do filme coincide com uma grande polêmica que toma nosso país, na qual familiares de policiais, buscando melhorias de trabalho para os parentes, protestam impedindo-os de trabalhar. Tal fato soa impensável em um país tão violento quanto o Brasil – que um estado fique sem policiamento – e digno da mais incrível ficção científica, não estivesse ele ocorrendo agora. Por aqui, Miss Sloane teria seus adeptos também, e sua campanha de armamento poderia dar certo.

O roteiro assinado por Jonathan Perera é um achado, ao ponto de criar espanto ao descobrirmos que o escritor é um estreante, sendo este seu primeiro trabalho. O detalhamento que sua escrita dá as nuances de personagens, seus psicológicos e também ao insight de um mundo específico e difícil, como o universo político norte-americano, é admirável. Deixando tudo em harmonia está a direção segura de Madden, mais acostumado a obras açucaradas e não tão relevantes, como Shakespeare Apaixonado (1998) e os dois O Exótico Hotel Marigold (2011 e 2015). Sorte de Madden ter dado chance para uma ainda desconhecida Chastain, e agora poder tê-la novamente como protagonista de seu filme mais urgente e impactante.

Além de Chastain (que foi indicada ao Globo de Ouro pelo desempenho, o qual muitos acreditavam cabível a uma lembrança para o Oscar), Madden conta com um elenco de primeira, que inclui nomes como John Lithgow, Mark Strong, Alison Pill, Michael Stuhlbarg, Jake Lacy, Dylan Baker, Sam Waterston e a ótima Gugu Mbatha-Raw, em uma de suas melhores atuações da carreira. Para quem gosta de referências e comparações, temos a reunião de Chastain e Strong após o sucesso do citado indicado ao Oscar A Hora Mais Escura, e também Waterston e Pill do programa igualmente prolixo Newsroom. Armas na Mesa é uma produção lindíssima e impecável, na qual tudo se encontra milimetricamente no lugar, seja o cabelo de Chastain (que até desarrumado soa inumano), a direção de arte ou a fotografia gélida e glamourosa do jovem dinamarquês Sebastian Blenkov.

A mescla de embalagem e conteúdo coexiste mais que amigavelmente aqui, transcendendo a obra ao status de uma dessas entidades que precisam ser revistadas de tempos em tempos. O único porém existente diz respeito ao próprio roteiro que, assim como Obrigado por Fumar, desiste de dar o golpe final, optando por um desfecho politicamente correto, e tratando de confeccionar uma crise de consciência relâmpago para personagens que já haviam nos conquistado por seu cinismo e indiferença. Talvez estejamos sendo cínicos demais também nós mesmos, ao desacreditar em qualquer possível característica redentora do mais desumano dos seres humanos.


Após ‘Mãe!’, Darren Aronofsky gostaria de comandar ‘O Homem de Aço 2’!


» Siga o CinePOP no Facebook e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema! «

[AVISO] Os comentários passam por uma aprovação e podem demorar até 24 horas para serem disponibilizados no site. Comentários com conteúdo ofensivo serão deletados, e o usuário pode ser banido. Respeita a opinião alheia e comporte-se.