Aproveitando o lançamento do novo filme de Pedro Almodóvar, ‘A Pele que Habito’, listemos 10 bons filmes de sua safra. Devo confessar ao leitor que, até hoje, assisti exatamente 10 filmes do diretor espanhol.

Então, esta lista não pode ser dos 10 melhores, mas de 10 filmes de Almodóvar – até porque só nove são bons!

10. Carne Trêmula


O único filme que vi e digo: não gostei! Falta profundidade nas personagens, as cenas com drogas parecem estar lá para chocar, mas são tediosas e pueris. Os vários gêneros que aqui se misturam (romance, policial, drama) parecem entrar em conflito. Caso raro na obra de Almodóvar.


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9. Abraços Partidos

Recém-lançado, este trabalho não é ruim como o anterior. Tem muitas qualidades, mas sofre de uma espécie de anemia. Há uma ótima história, excelentes atuações, belos enquadramentos. Mas, a fórmula que o diretor vem desenvolvendo nesta fase apresenta esgotamento. Mais precisamente: parece que está entrando em uma entressafra. A história do diretor cego apaixonado por sua musa carece de paixão! A película tenta ser uma ode de amor ao cinema, mas não passa de uma serenata. Muito bem cuidada, realmente, porém, em seu conjunto, o filme aparenta um diretor cansado, ou, o mais provável, em fase de transição.

8. A Lei do Desejo

Filme de sua fase mais colorida, neste trabalho o drama começa a roubar espaço do humor. A história de Pablo, diretor de teatro homossexual, sua irmão transexual e de Antônio, rapaz por que Pablo se apaixona, reúne temas caros ao diretor. A paixão e o desejo e suas consequências são o centro deste trabalho – como da maior parte da obra de Almodóvar. O desfecho é a demonstração da sua capacidade de misturar gêneros, causar catarse e expor os lados escuro e doce das pessoas em uma explosão visual.

7. Mulheres a Beira de Um Ataque de Nervos

Aqui o negócio começa a ficar injusto! Os filmes a seguir são, no mínimo, brilhantes! “Mulheres a Beira de Um Ataque de Nervos” é sintetizador das qualidades cômicas de Almodóvar. As cores derramadas em flerte com o brega, a falta de verossimilhança dos acontecimentos e o exagero das atuações somadas alcançam uma profundidade psicológica, revelando muito sobre essas mulheres nervosas, sem perder a leveza do humor escrachado. Um filme justamente aclamado!


6. Matador

Pouco lembrado, este trabalho de início de carreira impressiona. A sequência de abertura impacta, mostrando as intenções do diretor: desenhar as contradições humanas, enquanto mostra o pior e melhor de seus personagens. A história do toureiro que sentia prazer em matar as mulheres e da advogada que revive a tauromaquia quando assassina seus parceiros é intensa, chocante, arrebatadora. Almodóvar consegue unir muito bem drama, romance e policial em uma única estrutura. A belíssima sequência final expõe as ambiguidades dos protagonistas e de nossos sentimentos em relação a eles.


5. Ata-me!

Esta é a comédia da obsessão de Ricky por Marina, ex-atriz pornô. Ele acaba de sair de uma instituição psiquiátrica. Apaixonado por Marina, ele a sequestra para convencê-la do amor que sente. Colorido, o filme não dispensa toques de suspense quando expõe as peripécias de Ricky para prender Marina. Após um turbilhão de acontecimentos inusitados, o fim deixa uma sensação de leveza no espectador.


4. Má Educação

Aqui, Almodóvar atinge o ápice da descontinuidade temporal. São idas e vindas através de diversos planos narrativos. Mesmo com roteiro em camadas, o espectador não se perde. Acompanhamos o drama de Enrique Goded, diretor de cinema que se reencontra com Ignácio Rodriguez, antigo amigo e primeiro amor. O filme fala de culpa, perdão, desejo e toca, sem meios tons, na pedofilia na igreja católica. Os minutos finais reúnem os diversos planos narrativos de maneira inventiva enquanto um grande segredo é revelado.

3. Volver

Os três primeiros colocados considero as obras-primas do diretor. “Volver” é a história de Raimunda tentando encobertar o assassinato do marido, a de sua irmã Sole tentando proteger o fantasma da mãe e de sua prima Agustina tentando descobrir o paradeiro da mãe. O enredo mescla suspense, drama familiar e comédia. Sequências como as que Raimunda busca esconder o corpo do marido são primores do suspense, com trilha sonora Hitchcockiana. O tratamento natural dado ao aparecimento do fantasma de Irene causa uma cômica estranheza. E desse espelho de vida e morte afloram ressentimentos represados. Almodóvar constrói uma atmosfera agridoce, entre a tristeza e a alegria. E sentimos imensa vontade de dividir a mesa do jantar com aquelas senhoras.


2. Fale com Ela

O conselho de Benigno para Marco ecoa na cabeça do espectador: “hable con ella”. Não é apenas a voz dele. É principalmente por nos lembrar que por amor, desejo ou fé podemos superar impedimentos físicos. No caso, as mulheres que esses homens amam estão em coma. Tratando-se de um filme de Almodóvar, não podemos reduzir os sentimentos das personagens a uma questão de superar os problemas. O cuidado de Benigno por uma mulher que não conhece pode ser um sinal de amor ou de uma obsessão.

Apesar dos protagonistas serem homens, a alma feminina é o tema. São os problemas de saúde das mulheres que movem a trama. Se em outras fitas o diretor mostrava as mulheres por elas mesmas, nesta a mulher é vista pela ângulo masculina e o que elas causam na nossa psique!

1. Tudo Sobre Minha Mãe

Se fosse o fim do mundo e tivesse que escolher um filme de Almodóvar para ser salvo, de olhos fechado escolheria “Tudo Sobre Minha Mãe”.

Em seu aniversário, Estebán recebe de presente assistir uma peça estrela da por Huma Rojo. Sua mãe, Manuela, promete contar-lhe tudo sobre seu pai, que não conheceu. Porém, em uma tentativa de conseguir um autógrafo da atriz da peça, o rapaz morre atropelado. Manuela parte para Barcelona para reencontrar o pai de seu filho. Lá, fica amiga de Huma e de outras mulheres e travestis.

A narrativa faz com que nos identifiquemos com essas “atrizes”. Mesmo os mais preconceituosos podem se identificar com os sentimentos da travesti Agrado. Isso porque Almodóvar filma criaturas extremamente humanas, talvez as mais verossímeis de sua carreira, conseguidas em boa parte pelas atuações pungentes.

Quando me lembro do filme não me vem primeiro os aspectos “chocantes”. Antes, lembro-me dos sentimentos de amizade e do amor materno. O mérito desta obra é identificarmo-nos com pessoas que, na vida real, pensaríamos não ter nada haver conosco.

A dedicatória do filme revela muito ao espectador:

“Para Bette Davis, Gena Rowlands, Romy Schneider… a todas as atrizes que interpretaram atrizes, a todas as mulheres que atuam, aos homens que atuam e se convertem em mulheres, e a todas as pessoas que querem ser mães. À Minha mãe”.

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