O Globo de Ouro vai ao ar hoje, e estamos todos torcendo pelo nosso representante ‘O Agente Secreto’. O filme de Kleber Mendonça Filho concorre em três categorias ao prêmio: Melhor Filme Drama, Melhor Ator Drama (Wagner Moura) e Melhor Filme de Língua Não-Inglesa. O Globo de Ouro é a segunda premiação de maior prestígio do cinema e pode ser considerada um termômetro para o Oscar – a maior delas.
Diferente do maior prêmio do cinema, no qual os indicados e os vencedores são escolhidos pelos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (pessoas que trabalham nesta indústria, como diretores, atores e técnicos dos mais variados), o Globo de Ouro, que já existe desde a década de 1950, é o prêmio em que os indicados e vencedores são eleitos pela Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood, jornalistas e críticos de 85 países pelo mundo.
A verdade é que o Globo de Ouro vem recuperando seu prestígio nos últimos anos, pois se viu envolvido em polêmicas de suborno. Foi noticiado que os estúdios chamavam os representantes da associação para festas com os astros de seus filmes e lhes enviavam presentes como forma de “comprar” o voto para eleger os filmes. Alguns apresentadores do Globo de Ouro até mesmo brincaram com o fato, dizendo que determinados filmes só eram indicados para que os membros da associação pudessem conhecer, confraternizar e festejar com os astros.
Nada como sacudir a poeira e dar a volta por cima. Deslizes à parte, como dito, o Globo de Ouro segue como um dos maiores termômetros para o Oscar e muito do que aparece entre seus indicados irá se repetir no Oscar. Pegando o gancho da premiação de hoje, achamos que seria divertido dar uma olhada nessa fase, digamos, menos memorável do Globo de Ouro, relembrando alguns dos filmes que eles indicaram – filmes estes que foram fracassos retumbantes de crítica. Confira abaixo.
Music

Você já ouviu falar de ‘Music’? A grande maioria não. Mas se você for fã da cantora Sia, existe uma chance de ter se empolgado com a produção, apenas para se decepcionar logo depois. Projeto de vaidade da cantora, escrito, produzido e dirigido por ela, a intenção era nobre: trazer luz ao autismo. A ideia foi um musical estrelado por uma jovem personagem autista e a forma como ela vê o mundo. Não colou e o filme foi acusado de ser ofensivo por várias instituições da causa autista. Sia rebateu as críticas e comprou briga, afinal esse era seu projeto dos sonhos.
Mas não adiantou e no fim das contas, ela terminou pedindo desculpas. No mesmo ano, ‘Music’ foi indicado para 4 “prêmios” do Framboesa de Ouro, o anti-Oscar, pior filme, pior atriz (Kate Hudson), pior coadjuvante (Maddie Ziegler) e pior diretora (Sia) – saindo “vencedor” dos três últimos. ‘Music’ soma irrisórios 7% de aprovação dos críticos no Rotten Tomatoes, mas estava lá indicado para melhor filme de comédia ou musical no Globo de Ouro de 2021.
Burlesque

De um musical para outro. O que podemos dizer é que o Globo de Ouro erra mais em suas indicações de musicais ou comédia. Acontece que, diferentemente do Oscar, os filmes do Globo de Ouro são divididos em drama e comédia ou musical. Ou seja, qualquer filme musical produzido, independente de sua qualidade, provavelmente será indicado, ainda mais se tiver grandes nomes. Esse era outro projeto ambicioso: o primeiro filme estrelado pela cantora Christina Aguilera – que estava uma década atrasado. Acontece que Aguilera explodiu no início dos anos 2000, mesma época de Britney Spears, que estrelou seu filme em 2002. O de Aguilera só saiu em 2010. De “Burlesco” esse filme não tem nada, e foi vendido em cima do encontro de gerações entre Aguilera e a veterana Cher. ‘Burlesque’ marca 37% de aprovação junto aos críticos no Rotten Tomatoes.
O Turista

Esse “pseudo” thriller já foi muito zoado em algumas premiações do Globo de Ouro pelos próprios apresentadores. O longa foi um dos mais detonados pelos críticos em seu respectivo ano de lançamento, justamente por isso pegou todos de surpresa quando foi anunciada sua indicação. Era muito dito que o único motivo foi para os membros da associação ficarem lado a lado com Angelina Jolie e Johnny Depp, como dito. A única coisa positiva do filme é seu cenário em Veneza.
Outra coisa que chama atenção é quando o Globo de Ouro resolve categorizar certos filmes que nada tem a ver, como comédias ou musicais. É o caso com este suspense dramático. Para piorar o “desastre” do filme foi tão grande que quase pôs um fim à carreira do diretor alemão Florian Henckel von Donnersmarck, que havia feito o elogiado ‘A Vida dos Outros’ (2006). O diretor só fez um filme depois de ‘O Turista’ até hoje. O longa marca 21% de aprovação junto aos críticos no Rotten Tomatoes.
A Festa de Formatura

Lançado em meio à pandemia direto na plataforma da Netflix, poucas pessoas de fato viram este filme, e menos ainda falam sobre ele. Mas nada disso impediu sua indicação na categoria (isso mesmo) de comédia ou musical no Globo de Ouro de 2021. Aqui temos uma obra dirigida e produzida por Ryan Murphy, o midas da TV americana, que é na verdade uma adaptação de uma famosa peça da Broadway. Veja só esta premissa: dois produtores da Broadway, ao lado de dois atores, resolvem ir a uma pequena cidade americana ajudar uma jovem a expor sua sexualidade na escola levando a namorada ao baile. Poderia ter dado certo, ainda mais com as presenças de Meryl Streep, Nicole Kidman e Kerry Washington no elenco. A crítica, por outro lado, não foi muito favorável ao longa, que soma 54% de aprovação, apesar de ter figurado no Globo de Ouro.
Babilônia

Este aqui é um pouco mais “perdoável”, até porque na época todos davam como certa a sua entrada no Oscar. Esse foi o projeto mais ambicioso da carreira do jovem diretor sensação Damien Chazelle, de ‘La La Land’ e ‘Whiplash’. Depois de ter feito a limpa no Oscar, se tornando um queridinho em anos anteriores, era esperado que o cineasta chegasse com tudo de novo em 2023.
Com orçamento de quase US$100 milhões e astros quentíssimos na indústria como Margot Robbie e Brad Pitt, o filme pretendia desmistificar o glamour da era de ouro de Hollywood – mostrando uma jovem estrela em ascensão e um astro veterano da era muda em decadência. Porém, a ambição aqui falou mais alto, e o diretor parece ter dado um passo maior que a perna, com um filme longo, que não traz realmente nada de novo e que foi rapidamente esquecido. Com 57% de aprovação dos críticos, ‘Babilônia’ estava nas cabeças do Globo de Ouro.
Nine

Agora voltamos para mais um musical. Existem diretores que parecem conseguir entregar apenas um filme extremamente bom em suas carreiras. Esse é o caso com o cineasta Rob Marshall, que estreou no cinema com os dois pés direitos, ao comandar ‘Chicago’ (2002), o melhor musical do cinema na opinião deste que vos fala, e vencedor de 6 Oscar, incluindo melhor filme. Depois disso, a carreira de Marshall se resumiu a filmes que, em sua maioria embora não sejam ruins, também nunca figuram nas listas dos favoritos de ninguém. Obras como ‘Memórias de uma Gueixa’, ‘Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas’, ‘Caminhos da Floresta’, ‘O Retorno de Mary Poppins’ e ‘A Pequena Sereia’.
Nesse meio se encontra ‘Nine’, o musical que o diretor fez depois de ‘Chicago’, e que perde muito por comparação. A ideia aqui era uma reimaginada no clássico ‘8 ½’ (1963), de Federico Fellini. Nem mesmo a presença do GOAT Daniel Day Lewis fazendo um filme pop, e nomes como Nicole Kidman, Marion Cotillard e Penélope Cruz salvaram o longa da apatia. ‘Nine’ marca 39% de aprovação dos críticos no Rotten Tomatoes.
Alice no País das Maravilhas

‘Alice no País das Maravilhas’ deveria ter sido uma volta por cima na carreira do diretor Tim Burton. Seu projeto mais ambicioso (isto é, se não contarmos ‘Batman’) e também seu maior sucesso na carreira. Provando que nem sempre sucesso financeiro se equivale à prestígio e sucesso de crítica, apesar de ter arrecadado mais de US$1 bilhão em bilheteria mundial, nem mesmo o diretor quis voltar na continuação, que ficou muito abaixo do esperado e se tornou um fracasso (‘Alice Através do Espelho’).
A verdade é que o primeiro ‘Alice’ é uma “orgia” de efeitos especiais sem alma e sem qualquer conteúdo, que no máximo pode entreter os mais jovens com seu visual chamativo. O Globo de Ouro aproveitou esse sucesso e o indicou para melhor filme de comédia ou musical em 2011. Mas o filme soma 51% de aprovação juntos aos críticos no Rotten Tomatoes.
Os Produtores

Certos filmes não são bem traduzidos em adaptações, mesmo quando parecem ter tudo no lugar para tal. Veja o caso com este musical icônico que fala sobre o mundo dos espetáculos musicais. Tudo começou com uma obra-prima do imortal Mel Brooks em 1968, intitulada ‘Primavera para Hitler’. Considerada uma das melhores comédias da história do cinema, a história mostra dois produtores picaretas da Broadway, que resolvem criar o pior musical da história, tudo para embolsar o dinheiro dos financiadores, sem de fato precisarem investir tudo na produção.
Anos depois, essa ideia irretocável voltou a fazer sucesso, justamente nos palcos da Broadway, ao ser adaptada na forma de um musical. E assim foi traduzida novamente para o cinema, mas como a adaptação do musical dos palcos. Nem mesmo a presença dos mesmos atores dos palcos (Nathan Lane e Matthew Broderick) garantiu o sucesso do “remake”, afinal já tínhamos o original. No entanto, ele estava lá entre os indicados no Globo de Ouro. O filme soma 51% de aprovação dos críticos.
Bobby

Outro filme desconhecido para grande parte do público, que não fez sucesso algum – e chegou e passou sem ser notado. E não é pelo fato de ser um filme de 2006, afinal os cinéfilos ainda falam sobre longas como ‘O Grande Truque’, ‘Os Infiltrados’, ‘O Amor Não Tira Férias’, ‘O Labirinto do Fauno’ e ‘O Diabo Veste Prada’, só para citar alguns, todos lançados no mesmo ano. ‘Bobby’ pode ser considerado mais um projeto de vaidade na lista – que quer dizer que foi totalmente idealizado por um artista apostando todas as suas fichas na produção.
Tal proposta pode dar muito certo, ou muito errado. Aqui é o sumido Emilio Estevez quem tentava uma reviravolta em sua carreira ao escrever, dirigir e estrelar esse drama político sobre o assassinato do senador Robert F. Kennedy, irmão do presidente John Kennedy. O cineasta conseguiu reunir uma verdadeira constelação, de nomes como Anthony Hopkins, Sharon Stone, Demi Moore, Laurence Fishburne, Helen Hunt, entre outros. ‘Bobby’ passou em branco, mas foi indicado no Globo de Ouro. O filme soma 47% de aprovação dos críticos no Rotten Tomatoes.
O Rei do Show

Não importa o que ninguém diga, ‘O Rei do Show’ é um ótimo entretenimento, repleto de músicas contagiantes, ritmo frenético e enorme energia, de performances que exalam carisma de seus intérpretes, gente como Hugh Jackman, Zendaya e Zac Efron. Porém, independente do que eu e você achemos, e por mais que toda arte seja subjetiva, é preciso lidar com fatos. E o fato é: ‘O Rei do Show’ foi considerado um fracasso de crítica. O filme era planejado para estar nas cabeças do Oscar na edição 2018, foi uma grande aposta de Hugh Jackman, um astro que veio justamente de musicais. Porém, passou totalmente em branco das principais categorias. E o motivo foi que ele não recebeu qualquer carinho dos críticos, somando 56% de aprovação no Rotten Tomatoes. O baque foi grande e talvez Jackman nunca tenha se recuperado desta ferida. Seja como for, é claro que o longa encontrou espaço (merecido) no Globo de Ouro.



