Entra ano e sai ano, o mundo do cinema nos apresenta novos sucessos que iremos lembrar e comentar pelos próximos tempos, ou quem sabe para sempre. Mas para isso, como forma de equilibrar o universo, também ganhamos anualmente fiascos monumentais. Fracassos de crítica, público ou ambos, algumas produções azaradas simplesmente se tornam uma grande dor de cabeça para seus realizadores e podem inclusive marcar carreiras – chegando a terminar o sonho de estrelato para muitos.

A cada geração, no entanto, alguns fracassos (ou flops, como são carinhosamente chamadas atualmente estas obras) são redescobertos e reanalisados, podendo vir a se tornar filmes cults. São os casos com produções como Blade Runner e O Enigma de Outro Mundo, por exemplo, ainda hoje fortes na cultura popular após seus fracassos na época de lançamento.

Seja como for, aqui iremos abordar em especial os fracassos financeiros de alguns lançamentos do cinema, que custaram muito, renderam pouco, e em 2020 completam 20 anos. Vem conhecer.

A Reconquista

Não tem como começar a lista de outra forma. A Reconquista, ou Campo de Batalha Terra (no título original), é definitivamente um dos maiores fracassos da história do cinema. Projeto de estimação do astro John Travolta, a ficção científica é adaptada do livro homônimo de L. Ron Hubbard, o pai da cientologia, religião da qual o ator faz parte. A trama se passa no ano 3000 e é uma espécie de Planeta dos Macacos (1968) onde desta vez os humanos são escravizados por uma raça alienígena – da qual Travolta faz parte, ele é o vilão Terl.

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Bancada pela Warner, a produção recebeu um orçamento de US$73 milhões, e viu de volta apenas algo em torno de US$21 milhões nos EUA. No mundo, não chegou nem a US$30 milhões. Fora isso, soma pífios 3% de aprovação no Rotten Tomatoes, e junto ao grande público no IMDB é o número 15 dos piores de todos os tempos. O filme fez a limpa nos prêmios Framboesa de Ouro, onde voltou a ser destaque no fim da década – eleito como o pior filme dos últimos dez anos, além do pior “drama” dos últimos 25 anos. Ah sim, e A Reconquista era planejado como uma trilogia, deixando até um gancho ao final para isso. E pensar que o diretor Roger Christian teve envolvimento com a saga Star Wars

Dungeons & Dragons

Igualmente membro do seleto clube dos piores filmes de todos os tempos no IMDB (este em número 74), o filme é a adaptação do famoso jogo de RPG criado em 1974 – que fez e faz a alegria dos aficionados. Este longa, por outro lado, é uma aula de como NÃO fazer uma aventura de fantasia medieval (muito em voga nos anos 1980, e que voltaria com tudo no ano seguinte ao seu lançamento, com Senhor dos Anéis e Harry Potter).

Sim, o adorado desenho conhecido no Brasil como Caverna do Dragão (1983-1985) também é baseado em tal jogo e possui este título na versão original. Ao invés de adaptar o icônico cartoon, os envolvidos preferiram criar esta enfadonha história do zero dentro de tal universo. Dungeons & Dragons é uma das maiores vergonhas da carreira do vencedor do Oscar Jeremy Irons (que vive o vilão) e junto à crítica no Rotten Tomatoes soma histéricos 10% de aprovação. A produção custou US$45 milhões aos cofres da New Line (subsidiária da Warner) e viu o retorno de apenas US$15 milhões nos EUA, e um pouco mais de US$33 milhões ao redor do mundo.


O diretor Courtney Solomon seguiu para trabalhos melhores, como produtor do drama Cake, com Jennifer Aniston. E curiosamente, Dungeons & Dragons saiu ileso sem indicações ao Framboesa de Ouro.

Os Flintstones em Viva Rock Vegas

Muito antes de SCOOBY! fazer sucesso online com sua intenção de um Hanna-Barbera-verse, outras criações do clássico estúdio de animação já haviam emplacado nas telonas. O primeiro Os Flintstones (1994) chegava na esteira dos sucessos de Batman (1989), Dick Tracy (1990) e As Tartarugas Ninja (1990), que apesar de mais sombrios, mostravam que produtos como quadrinhos e desenhos podiam se dar muito bem nos cinemas. E apesar do primeiro filme, que tinha produção de Steven Spielberg, não ter caído no gosto dos críticos, arrecadou impressionantes US$341 milhões num orçamento de US$46 milhões para a Universal.

Porém, ao invés de engatilhar rapidamente a continuação, o estúdio resolveu esperar nada menos que 6 anos, perdendo totalmente o timing e hype do longa original. Assim, Viva Rock Vegas, uma pré-sequência, mudou seus atores e Spielberg saiu, mas trouxe novamente a direção de Brian Levant. E apesar de seguir não impressionando os críticos (com 25% de aprovação), o prego no caixão foi a irrisória bilheteria de US$35 milhões para um orçamento de US$83 milhões nos EUA. Mundialmente, o filme fez um pouco mais que US$59 milhões. Ah sim, o segundo Flintstones teve indicações no Framboesa e no Stinkers Bad Movie Awards e consta como um dos piores de todos os tempos (número 79) no IMDB.

Sobrou pra Você

A rainha da música pop Madonna é uma estrela irretocável nos palcos, mas sua carreira como atriz talvez tenha visto mais baixos do que altos. Quatro anos depois das críticas sofridas por Evita, Madonna, a atriz, retornava como protagonista nesta comédia dramática sobre uma mulher que decide ter seu primeiro filho (no auge dos 42 anos da atriz) com seu melhor amigo gay. A crítica deu apenas 19% de aprovação, e afirmou que “os elementos da história colidem e as atuações deixam a desejar”.

Sobrou pra Você não escapou dos prêmios ruins do cinema, e foi indicado para o Framboesa e o Stinkers Bad Movie Awards, sendo indicado para pior filme e “vencedor” de pior atriz para a material girl. O grande e saudoso diretor John Schlesinger (Perdidos na Noite e Maratona da Morte) já viu dias melhores. O filme fez uso de um orçamento mediano, de US$25 milhões, mas viu de volta apenas US$14 milhões nos EUA, e US$24 milhões mundialmente aos cofres da Paramount, não conseguindo sequer se pagar.

Supernova


Um dos filmes mais polêmicos dos últimos anos, a ficção científica com ares de terror é um dos inúmeros filhotes de Alien – O Oitavo Passageiro (1979), mas um bem problemático. Orçamentos estourados, roteiro reescrito, adiamentos da estreia, e até mesmo a mudança do diretor. Sim, desde que Hollywood é Hollywood estas tretas acontecem. Aqui foi o icônico Walter Hill quem sofreu com esta superprodução da MGM, precisando assinar como Thomas Lee, e dizem que Francis Ford Coppola foi chamado às pressas para terminar o filme.

O resultado final é basicamente um slasher espacial, com uma força galáctica maligna possuindo um tripulante resgatado pela nave dos protagonistas. Em tela desfilam nomes como James Spader, Angela Bassett, Robert Forster, Lou Diamond Phillips e os então jovens talentos Robin Tunney e Peter Facinelli. Com um orçamento pra lá de inflado de aproximadamente US$90 milhões (é de deixar qualquer um de cabelo em pé), o filme não conseguiu recuperar mundialmente nem ao menos US$15 milhões. Os críticos não perdoaram e tascaram uma aprovação de meros 10%, elegendo o longa como “um insulto ao gênero da ficção científica, sem qualquer empolgação e efeitos especiais ruins”.

As Aventuras de Alceu e Dentinho


E quem disse que filmes infantis não podem ser um verdadeiro desastre de trem? Quando dói no bolso, quem sente é o estúdio. Assim, por mais inofensiva que possa parecer esta primeira adaptação para as telonas de um desenho clássico e adorado dos anos 1950, quem “entrou bem” foi a Universal, que distribuiu o longa. Alceu e Dentinho foram personagens criados para um desenho na TV, e aqui a proposta era levá-los ao cinema numa espécie de Roger Rabbit dos novos tempos, misturando atores reais com os personagens animados. Tudo parecia estar no lugar, e até mesmo o grande Robert De Niro estava a bordo no papel do vilão.

O problema é que o estúdio desembolsou US$76 milhões para o projeto, e o desejo do público de ver o filme era tão pouco, que ele só viu de volta US$26 milhões nos EUA, e um pouco mais de US$35 milhões mundialmente, se tornando assim um prejuízo. Fora isso, a imprensa especializada deu apenas 43% de aprovação ao filme, e o definiu como “um roteiro decepcionante e sem graça, apesar de se manter fiel à natureza do desenho original”. Para os fãs dos personagens, no entanto, nem tudo está perdido, já que foi lançada uma nova série de animação com o alce o esquilo na Amazon em 2018, com 26 episódios.

Jogo Duro

Já pensou um filme de ação protagonizado por Charlize Theron e Ben Affleck? Hoje isso seria o suficiente para deixar os fãs ansiosos. E se eu disser que esta produção já existe, e foi lançada há nada menos que 20 anos. Para começar, devemos dizer que na época, o segundo nome mais quente no elenco não era o de Theron (que ainda se firmava em Hollywood) e sim o do sumido Gary Sinise, indicado ao Oscar por Forrest Gump. Um thriller de ação igualmente problemático, que usa como temática a época de natal, mas que devido aos inúmeros empecilhos foi lançado em fevereiro. Já começa errado aí.

Na trama, Affleck vive um sujeito atraído por Theron para integrar a gangue do irmão dela (Sinise), que planeja um assalto na época do natal. A direção é do consagrado John Frankenheimer (que saía do sucesso do eletrizante Ronin) e o roteiro é de Ehren Kruger (Pânico 3). O filme produzido pela Dimension Films contou com um orçamento de US$42 milhões, mas só arrecadou US$23 milhões nos EUA, e US$32 milhões no mundo, não conseguindo se pagar. A crítica também não pegou leve, com 25% de aprovação, o considerando “um filme decepcionante, dono de um enredo forçado e atuações fracas, apesar do elenco decente”.


África dos Meus Sonhos

Projeto pessoal da ex-modelo Kim Basinger, este filme foi o seu primeiro após a vitória no Oscar em 1998 por Los Angeles – Cidade Proibida, ou seja, existia hype dos cinéfilos. Baseado no livro homônimo de Kuki Gallmann sobre suas próprias experiências, Basinger interpreta Gallmann no longa, uma socialite que recebe um “despertar” e muda sua vida após um acidente. Para tanto, a Columbia/Sony desembolsou US$50 milhões e escalou o cineasta Hugh Hudson (indicado ao Oscar por Carruagens de Fogo) para o comando – pretendendo assim dar mais credibilidade à obra.

No entanto, ao invés de prêmios, África dos Meus Sonhos viveu um fracasso de crítica e bilheteria. Com apenas 10% de aprovação no Rotten, a opinião geral foi que a obra “não emociona, nem entretém o espectador, com seu retrato simples e didático da vida da protagonista”. Nos EUA, o público tampouco se interessou, garantindo uma bilheteria de míseros US$6 milhões, que somados com a bilheteria mundial fizeram um total de US$14 milhões. Ou seja, longe de pagar seu investimento. Para não dizer que o filme não viu “prêmios”, Basinger foi indicada para pior atriz no Framboesa e no Stinkers Awards.

A Filha da Luz

A área do entretenimento pode ser cruel, e é preciso ter uma cabeça muito boa para suportar a pressão e os altos e baixos. Afinal, um dia se está no topo do mundo como a atriz mais quente de Hollywood, ganhando Oscars, e no outro, fracassos consecutivos podem colocar um ponto final ao seu estrelato. Mais ou menos isso ocorreu com Kim Basinger, que viu sua carreira cair em declínio após a vitória do Oscar. Tudo devido ao fatídico ano de 2000 que a atriz teve. Seguindo África dos Meus Sonhos, Basinger apostou neste terror, igualmente baseado num livro.

Se juntar com bons diretores é o primeiro passo para o sucesso de qualquer atriz. No entanto, muitas vezes isso pode não ser tudo. Aqui, trabalhar com Chuck Russell, vindo dos sucessos de O Máskara (1994) e Queima de Arquivo (1996), por exemplo, não quis dizer nada. E pior, essa era a volta do cineasta ao gênero que o consagrou em filmes como A Hora do Pesadelo 3 (1987) e A Bolha Assassina (1998). Resultado: com um orçamento inchado de US$65 milhões (mais caro que o drama acima), bancado pela Paramount, o terror só viu o retorno de um pouco mais de US$29 milhões nos EUA, e US$40 milhões mundialmente.

A Filha da Luz é mais um que pegou carona nos thrillers sobrenaturais com temática apocalíptica da virada do milênio na época, e trazia Basinger como uma mulher precisando proteger uma menina, sequestrada por um culto satânico. A crítica avaliou o longa com irrisórios 3% de aprovação e sobre ele disse que “desperdiça o talento do elenco numa trama mais propícia a inspirar risadas não intencionais do que arrepios e sustos”.

O Caminho para El Dorado

Disputar com a Disney no terreno das animações sempre foi uma missão suicida. Mas no fim da década de 1990, a Dreamworks, estúdios de três figurões do ramo do entretenimento, entre eles ninguém menos que Steven Spielberg, chegou forte. Foram filmes como Formiguinhaz (1998) e O Príncipe do Egito (1998) em seus primórdios, por exemplo. Mas antes de Shrek (2001) e no mesmo ano de A Fuga das Galinhas (2000), o estúdio lançava uma animação tradicional que iria amargar um dos maiores fracassos para a Dreamworks – embora depois tenha ganhado seus fãs: O Caminho para El Dorado.

Com uma história típica das aventuras de matinê do passado, o filme traz os aventureiros Tulio e Miguel – com as vozes de Kevin Kline e Kenneth Branagh respectivamente – em busca da cidade perdida de El Dorado, após se verem em posse de um mapa. O investimento para o longa animado foi um dos maiores do ano, com inacreditáveis US$95 milhões, daí um dos motivos de seu fracasso. A obra, embora fosse planejada como uma franquia para as aventuras da dupla, viu o retorno de US$50 milhões nos EUA, e US$76 milhões mundialmente, o que cancelou os projetos das continuações. Fora isso, as críticas também não animaram, com 48% de aprovação e a conclusão da imprensa de que os personagens eram fracos e a história previsível, resultando num filme raso.

Bônus: Um Tira à Beira da Neurose

Você lembra da comédia romântica protagonizada por Sandra Bullock e Liam Neeson? Pois é, nem mesmo os atores devem lembrar. Ou quem sabe querem esquecer. Mas tal filme de fato existe, e foi lançado há 20 anos por ninguém menos que a Disney – através de sua subsidiária Hollywood Pictures. Este é um dos filmes mais obscuros da carreira dos astros e fala sobre um agente estressado (Neeson) se apaixonando pela enfermeira que o trata (Bullock) enquanto tenta derrubar mafiosos. Ainda bem que a atriz lançaria 28 Dias e, principalmente, Miss Simpatia no mesmo ano.

Com um orçamento pra lá de modesto para os padrões Hollywoodianos, de US$14 milhões, o filme foi rapidamente ignorado e esquecido, recuperando menos de US$2 milhões nos EUA, e um pouco mais de US$3 milhões mundialmente. Com a crítica também falhou em agradar, conquistando 24% de aprovação, e sendo considerado “uma comédia de humor negro pouco inteligente, cheia de piadas de peidos e de gays, que nem mesmo Liam Neeson e Sandra Bullock conseguem salvar”.

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