Crítica | Somente o Mar Sabe – história com sabor de atemporalidade

Alguns filmes parecem possuir a habilidade de deixar o telespectador reflexivo ou até mesmo medindo as sensações que a história vista causou dentro de si. Somente o Mar Sabe possui a capacidade de fazer com que a pessoa que acabou de conferir necessite de um tempo para digerir o que foi visto e até mesmo analisar no que certas escolhas podem acarretar futuramente.

Baseada na história real de Donald Crowhurst, um empresário britânico e navegador amador que decide participar da Golden Globe Race, de 1968, com o intuito de vencer. A narrativa mostra a tentativa desesperada de conquistar o prêmio na competição, o que acaba fazendo com que ele embarque em uma jornada perigosa e complexa.

O roteiro de Scott Z. Burns (O Ultimato Bourne) apresenta bem os elementos que compõem a produção audiovisual e demonstra coerência no que está sendo transmitido. É a direção de James Marsh, que já tinha trabalhado antes em um longa biográfico, A Teoria de Tudo (2014), que mostra a solidez de outrora. Como um excelente maestro, ele transforma as palavras do papel em visíveis e compreensíveis na tela, e embarca o público numa jornada dramática, intensa, por vezes claustrofóbica e triste. É como transitar entre a mente do protagonista e o que se passa com os outros personagens.

Colin Firth é quem dá a vida a Donald Crowhurst e como não é de se admirar, o ator entrega uma atuação exemplar e realística, é fácil de acompanhar, através das expressões faciais, uma história não contada em palavras. Por mais que esteja no papel de secundária, Rachel Weisz, que vive a esposa de Crowhurst, Clare, rouba todos os holofotes para si numa das últimas cenas do filme, em que faz um discurso digno de reflexões e atemporal. É necessário mencionar também David Thewlis, que interpreta Rodney Hallworth, o assessor de imprensa de Donald, que convence o público como um jornalista e transmite veracidade ao personagem.

Um ponto marcante em Somente o Mar Sabe é a ausência de trilha sonora em certos momentos, com apenas os sons de objetos se movendo ou do mar, provocando uma imersão maior de quem assiste dentro da narrativa contada, e até mesmo, como dito antes, na mente do navegador. É como se Marsh buscasse compreender a história do mesmo, muito além do que pelo ponto de vista de quem acompanhou, mas do que ele (Donald) sentiu, vivenciou e pensou, levando uma experiência mais marcante ao público.

A direção de arte cumpre o papel a ela incumbido e os objetos, as roupas e as cores transportam, de fato, para o ano em que o longa-metragem se passa. É de crucial importância elogiar a fotografia do filme que faz um trabalho impecável e proporciona, em alguns momentos, cenários lindíssimos.

O único erro da produção reside no fato de não apresentar alguns detalhes da história real de Donald Crowhurst nesta representação ficcional. É compreensível que nem tudo é adaptável para uma narrativa cinematográfica, entretanto, certos aspectos são necessários para que não se perca demais do eixo que separa ficção e realidade quando o assunto é uma biografia. Mas, aos curiosos que desejam saber mais sobre a história do navegador amador, basta conferir o documentário Deep Water, de 2006.

Somente o Mar Sabe garante uma válida ida ao cinema. Uma história que fala sobre força de vontade, ilusão, conquistas, fracassos e limites. Sem contar que é sempre bom conferir as atuações de Firth e Weisz.

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