Crítica | Nick e Charlie dançam uma última vez no tocante adeus de ‘Heartstopper Para Sempre’

Desde sua estreia em 2022, Heartstopper se tornou um fenômeno instantâneo não apenas da Netflix, mas do streaming atual – conquistando o público e a crítica através de uma ótima adaptação dos quadrinhos homônimos de Alice Oseman. Trazendo Joe Locke como Charlie Spring, um jovem garoto que é o único menino abertamente gay se seu colégio, e Kit Connor como Nick Nelson, capitão do time de rúgbi que começa a questionar sua própria sexualidade, a série da gigante do streaming explorou o crescente romance entre os protagonistas à medida que lançou luz sobre temáticas muito importantes, como identidade sexual, distúrbios alimentares e ansiedade e crises de pânico, o título despontou como um dos melhores da atualidade – e, agora, caminha para seu fim com o lançamento de Heartstopper Para Sempre’.

O longa-metragem foi lançado hoje, 17 de julho, na plataforma e conseguiu finalizar com esmero uma das histórias de amor mais inspiradoras e apaixonantes dos últimos anos, apostando em um potente e honesto amadurecimento de cada um de seus personagens sem deixar sua essência de lado – e acompanhando o lançamento da HQ que encerra a saga de Oseman da maneira mais surpreendente possível. Através de quase duas horas, a romancista, que também fica responsável pelo roteiro do filme, garante uma conclusão digna para os arcos principais da série e nos comove do começo ao fim com uma dosagem exemplar entre drama coming-of-age e toques de comédia.

kit connor and joe locke in heartstopper forever

Seguindo o padrão das três temporadas da atração original, o enredo acompanha as estações do ano em uma óbvia metáfora da jornada a que os personagens serão arremessados – algo que esquadrinha território bastante familiar, mas que, dentro desse escopo, reitera a honestidade e a simplicidade da narrativa. Nick e Charlie passam por altos e baixos quando o jovem capitão do time de rúgbi precisa decidir em qual universidade irá estudar ao mesmo tempo que se desespera em deixar o namorado, que ainda tem mais um ano a ser cumprido no colégio. Não ajuda muito que a popularidade de Nick se esvaiu e que Charlie, tomando as rédeas da escola, começa a se destacar.

Com os papéis praticamente invertidos, a relação dos dois começa a desandar, trazendo à tona traumas não resolvidos e um temor derradeiro do que o futuro os aguarda, principalmente quando tudo parece muito mais complexo do que é. Colocando na balança todas essas questões, é se de esperar que o casal decida se separar por breves semanas antes de reencontrarem em um amor encantador e inescapável que celebra o aqui e o agora, enfrentando as adversidade juntos e transbordando um ao outro com maneiras diferentes de enxergar o mundo – e com personalidades que são, ao mesmo tempo, opostas e complementares.

heartstopper 2

O destaque, como podemos imaginar, vai ao sólido trabalho de Locke e Connor como os protagonistas. Mantendo a efervescente química de Charlie e Nick viva e apostando em outras camadas que acompanham seus arcos de amadurecimento, os atores brilham tanto ao dividirem as telas quanto quando confinados nos próprios fantasmas que o assombram. Não é surpresa que essa arquitetura promova uma clara ruptura estética ao apostar em uma fotografia ao mesmo tempo melancólica e esperançosa, que singra entre a apatia monocromática e as cores quentes do dourado e do amarelo – acompanhando a transição entre a adolescência e a vida adulta do nosso amado casal.

Oseman também promove conclusões para os outros núcleos da história, incluindo o tortuoso relacionamento de Tao (William Gao) e de Elle (Yasmin Finney), que preferem prezar por uma amizade duradoura do que um possível e indesculpável ressentimento; e a relação entre Nick, sua mãe, Sarah (Anna Maxwell Martin substituindo Olivia Colman) e o irmão, David (Jack Barton), onde comentários sobre ecos de um passado não muito distante permitem que todos encontrem uma espécie de “paz de espírito”. Porém, não podemos deixar de notar que essas subtramas recebem ainda menos atenção do que na série original e, vez ou outra, se valem de incursões muito frenéticas para convergirem com o épico final envolvendo Charlie e Nick.

heartstopper 4

Wash Westmoreland, que já emprestou suas habilidades para o ótimo drama queer ‘Collette’ em 2018 e para a potente exploração humana de ‘Para Sempre, Alice’ em 2015, utiliza esse momento transitório para garantir algumas pulsões adultas aos jovens personagens, preparando-os para a vida após o colégio, mas sem forçá-los a um amadurecimento compulsório. Dessa forma, o diretor garante um maior esmero artístico ao longa-metragem que reitera as poderosas performances do projeto e fornece ritmo e dinamismo a uma história que, felizmente, não cede aos cansativos convencionalismos do gênero.

Heartstopper Para Sempre’ funciona como uma singela e tocante “última dança” de Nick e Charlie, irrompendo como a cereja de um delicioso bolo que, com certeza, não será esquecido pela extensa legião de fãs ao redor do mundo.

Lembrando que o filme já está disponível no catálogo da Netflix.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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