Crítica| O Galã – Rostinhos bonitos não salvam a comédia da falta de graça

O cinema nacional tem ganhado cada vez mais destaque ao apresentar produções que fogem dos dois estilos que, durante anos, foram os que mais tiveram espaço por aqui: as comédias clichês e os enredos com crítica social sobre morro versus asfalto. O que acontece é que, atualmente, diretores e roteiristas brasileiros têm se enveredado por caminhos mais arriscados, criando longas que atendem a todos os gostos e que também são aclamados em outros países – como é o caso de Que Horas Ela Volta? (2015) e Aquarius (2016). Tudo bem que nem todas as produções precisam seguir essa linha do cinema de gênero ou devem, necessariamente, ter uma mensagem forte a ser transmitida; no entanto, não dá para não se decepcionar quando um novo filme não cumpre muito bem nem sua simples proposta de entreter – como acontece no recente O Galã, dirigido por Francisco Ramalho Jr. .

Na trama, Thiago Fragoso interpreta Júlio – um ator fracassado e não muito talentoso que vive atrás de chances para crescer na profissão. Ele até chega perto de realizar seu sonho quando é escalado para atuar em uma novela; mas, como seu personagem morre logo na segunda semana do folhetim, a fama não chega nem perto de ser alcançada. Por outro lado, seu meio irmão Beto (Luiz Henrique Nogueira) é um famoso roteirista de novelas que está escrevendo uma nova obra para o horário nobre – por isso, mesmo sem ter tanto contato com ele, Julio o pede abrigo e uma indicação para ser o galã do enredo depois que é despejado do apartamento em que morava pela falta de pagamento do aluguel. Em troca, fica a promessa de ajudá-lo a ser menos recluso para que finalmente possa conquistar Raquel (Christine Fernandes), a vizinha dos seus sonhos.

No meio disso tudo, o personagem de Fiuk, Raul, aparece como o antagonista. Diferentemente de Julio, ele é famoso, atua bem e mal precisa de testes para ser escalado para um papel – o que faz com que apareça como uma verdadeira ameaça quando decide procurar o diretor para revelar seu interesse em ser o galã do novo roteiro de Beto. Para quem ainda acompanha novelas e sabe sobre as críticas constantes que o cantor/ator filho de Fábio Jr. recebeu depois de atuar de maneira mecânica em A Força do Querer (2017), soa até irônico vê-lo como um personagem que é aclamado em sua profissão e uma ameaça real para qualquer outro ator que queira concorrer com ele.

Já a atuação propositalmente caricata e forçada de Thiago Fragoso – que não parece ter objetivo nenhum ao longo do filme – causa estranheza, já que o ator sempre entregou uma performance convincente nas novelas. É somente em um dos momentos com seu par romântico Adriana (Christiana Ubach) e na hora de fazer o teste final para o papel de galã – duas partes mais dramáticas – que ele aparece do jeito que conhecemos. Mas, no decorrer do longa, tanto a expressão corporal quanto os trejeitos e o tom de voz só nos fazem sentir vergonha alheia do personagem. Ainda que seja a intenção do filme mostrar um artista canastrão e seguro de si, o tom definitivamente não funciona e não faz o público sentir empatia pela trajetória de Julio.

O mesmo acontece com os relacionamentos do enredo: tudo segue rápido demais, sem uma construção que nos leve a acreditar naquele amor e torcer por ele. A paixão de Beto – que tem TOC – pela psiquiatra Raquel, por exemplo, poderia render vários momentos inusitados na história; mas, além de ter sido correspondida de maneira inesperada, veio acompanhada de situações óbvias e que pouco acrescentaram à trama. O casal protagonista, por sua vez, tem um ou dois momentos tocantes, mas não suficientes para que nos importemos com eles e muito menos com seu happy ending.

Até mesmo a comédia, que seria o foco do filme, deixa a desejar com seus diálogos e recursos extremamente clichês – como quedas para gerar riso e frases como “eu morri e estou no céu?” ao aparecer uma mulher bonita. Você provavelmente já viu/ouviu isso umas 534323 vezes em produções por aí, não é? Então. Além disso, O Galã também tenta, mas não consegue deixar nenhuma lição para o público absorver – já que o protagonista não passa por nenhum processo de desenvolvimento/amadurecimento no decorrer da história. E quem de fato passa, como é o caso do personagem de Luiz Henrique Nogueira, o faz como em um passe de mágica.

Curiosamente, seguindo a máxima de “deixar o melhor para o final”, o momento mais engraçado e a melhor sacada do longa só aparece no pós-créditos. Mas, ainda que dê para dar uma boa risada com a piada em questão, o filme já nos perdeu há muito tempo por não conseguir cumprir bem o seu papel durante os 80 minutos de duração. Assim, no fim de tudo, só fica a pergunta: tem galã para escolher, mas cadê a graça?

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