Crítica Amazon Prime | Distúrbio – Steven Soderbergh cria jogo psicológico com Claire Foy

Uma perspectiva sob o domínio do medo

Antes da própria história que aborda temas importantíssimos, como abuso de poder e feminicídio, o chamariz de Distúrbio (no original, Unsane) é a ousadia de Steven Soderbergh em filmar durante 10 dias com um iPhone Plus 7. Dessa forma, o recurso é um diferencial em cenas nas quais a câmera acompanha a protagonista Sawyer Valentini (Claire Foy) como se fosse uma selfie, focando as expressões desassossegadas da atriz.

A câmera, nesta perspetiva, transmite um pouco da agonia vivida por Sawyer, uma vez que ela se mudou recentemente de Boston para a Pennsylvania a fim de fugir de seu perseguidor. Com a paranoia de estar sempre sendo perseguida, a jovem se torna pouco sociável e vive em confronto consigo mesma sobre o que é real ou uma farsa de sua mente.

Já na primeira cena, observamos um desconfortante momento em que o atual chefe de Sawyer tenta persuadi-la a ir numa viagem a trabalho com ele e, consequentemente, passar a noite juntos. Para coagi-la, ele coloca sob julgamento o desempenho dela na empresa, caso não aceite a “oferta”.

Em um momento em que a internet compartilha diversos fatos sobre abusos constantes vividos pelas mulheres no trabalho, na escola, na rua, etc, a cena é quase uma tortura mental. Com esse pontapé inicial, os acontecimentos prosseguem cada vez mais obscuros.

Ao procurar ajuda em um clínica psiquiátrica, Sawyer acaba internada contra a vontade e, para piorar, o seu stalker trabalha no mesmo local ou, pelo menos, ela acredita vê-lo por lá. A partir dessa dúvida, se constrói uma trama com diferentes ramificações e resoluções macabras.

É possível traçar um paralelismo com Terapia de Risco (Side Effects, 2013), obra recente do mesmo diretor, que abordava problemas mentais. Lá, a história caminhava para ser um grande suspense envolvendo a indústria farmacêutica de antidepressivos, no entanto, no meio do caminho acaba por ser um jogo de sedução e traição sem maiores efeitos.

O risco de Distúrbio traçar o mesmo engano fica sempre na iminência, no entanto, o enredo desenvolve-se mais pautado no perigo real do que no mental. Assim, o pavor de Sawyer não é apenas uma ilusão, mas o filme abre também a discussão sobre as instituições mentais e seus reais objetivos com os pacientes.

A narrativa de Sawyer, portanto, é entrecortada com o seu maior aliado Nate Hoffman (Jay Pharoah), um jornalista disfarçado, que investiga os motivos dos pacientes estarem naquele local e sob aquelas circunstâncias. Além da ameaça do seu perseguidor, ela ainda lida com seus colegas de quarto visivelmente desequilibrados, tendo como principal desafeto Violet (Juno Temple). Aliás, Temple é sempre ótima em personas fora da realidade, vide Killer Joe (2011) e As Delícias da Tarde (2013).

Aos poucos, o passado de terror da personagem vai se desvelando e o pavor do presente torna-se muito mais palpável. Com o ímpeto de alarmar o espectador, Claire Foy imprime um ar diabólico em certo momento e confronta o seu abusador de forma visceral, abandonando o papel de vítima parar resolver o seu destino custe o que custar.

Com um misto de revolta e expectativa de um momento de redenção, Distúrbio ainda conta com a curta participação de Matt Damon (Pequena Grande Vida) na pele de um oficial da polícia que dá conselhos a Sawyer de como deve seguir a vida após ter emitido uma ordem de restrição contra uma pessoa. Seus conselhos são de revirar os olhos, não é à toa que a protagonista foge.

Ao término, Soderbergh realmente constrói um tom de aprisionamento com sua câmera centrada no rosto e desespero de Foy. Com a proposta de lidar com os assuntos de sanidade mental, esquema de corrupção, assassinatos e abusos psicológicos, entretanto, os roteiristas escorregam, deixam alguns personagens perdidos e configuram características inesperadas a outros.

Distúrbio é um filme para colocar o espectador em uma situação de desconforto, incerteza e mantê-lo ludibriado durante seus 98 minutos. Vale a reflexão sobre como é ser desacreditado e aprisionado pelo medo, assim como alguns traumas podem perpetuar por anos, conforme o final desse embaraçado suspense.

author avatar
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

Notícias

19 filmes para ficarmos de olho no Bonito CineSur 2026

Uma das grandes sensações quando pensamos em festivais de...

10 dicas de filmes para quem prefere cinema a futebol

A Copa do Mundo de Futebol Masculino está chegando...

Paramount acusa Netflix de fazer campanha contra fusão com a Warner Bros. Discovery

Makan Delrahim, advogado e diretor jurídico da Paramount, indicou...

Comediante Druski é escalado para ‘The Catch’, nova ROM-COM estrelada por Emma Stone

Segundo o Deadline, o comediante estadunidense Druski foi escalado para...