Crítica | ‘Teenager Sex and Death at Camp Miasma faz das franquias de terror uma autópsia cultural (Cannes 2026)

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CríticasCrítica | 'Teenager Sex and Death at Camp Miasma faz das franquias de terror uma autópsia cultural (Cannes 2026)

Há algo deliciosamente contraditório no Festival de Cannes abrir sua seção Um Certo Olhar com um filme chamado Teenager Sex and Death at Camp Miasma (na tradução livre Adolescente, Sexo, Morte no Acampamento Miasma). O título parece saído diretamente de uma locadora mofada dos anos 1980, daqueles VHS de capa neon cuja promessa era sempre mais ousada do que o próprio conteúdo. 

O novo filme de Jane Schoenbrun, embora pareça evocar essa época do slasher chamado de filme B, com sua cena inicial de jatos eufóricos de sangue, tem um projeto mais audacioso. Trata-se de um slasher metalinguístico que ama profundamente o gênero ao mesmo tempo em que o disseca sem misericórdia.

Desde os primeiros minutos, Schoenbrun deixa claro que seu interesse não está apenas no horror, mas na memória cultural do horror. O prólogo recapitula a trajetória da franquia fictícia Miasma: o sucesso inesperado do original, a avalanche de continuações cada vez mais absurdas, a degradação estética típica das franquias exploradas até o esgotamento, o fracasso comercial inevitável, a humilhação do Framboesa de Ouro. 

A diretora entende perfeitamente o ciclo industrial do cinema de gênero: como um produto nasce de uma pulsão criativa e termina convertido em algoritmo corporativo, vide o aclamado Jogos Mortais (Saw), de James Wan, e suas intermináveis sequências sem lógica. É um começo hilário justamente porque se assemelha à realidade. 

Dada a ambientação metalinguística, a narrativa acompanha uma jovem roteirista não-binária Kris (Hannah Einbinder) obcecada pela saga, determinada a realizar um reboot “definitivo”. Para isso, ela viaja até o interior para convencer Billy, a atriz do primeiro Miasma, a retornar ao papel que a transformou na primeira final girl da franquia. Vivida com melancolia elegante por Gillian Anderson, Billy carrega no rosto o peso de alguém que passou três décadas aprisionada por uma imagem cultural que nunca lhe pertenceu inteiramente. 

A dinâmica entre ela e a protagonista funciona como o coração emocional do filme: duas gerações tentando entender o que significa amar uma obra construída sobre estruturas violentas. Dentro dessa proposta, o roteiro encontra sua melhor camada. Em vez de simplesmente condenar os slashers dos anos 1980 por seus vícios machistas e homofóbicos, Jane Schoenbrun tenta compreender como esses códigos foram naturalizados por décadas até se tornarem invisíveis. 

Teenager Sex and Death at Camp Miasma aponta diretamente para aquilo que antes era aceito como parte da diversão: a objetificação feminina, a punição moral do desejo, os estereótipos queer transformados em piada, e pergunta o que significa revisitar essas imagens hoje sem reproduzi-las. Não há didatismo panfletário aqui; existe, antes, um desconforto constante e uma sátira cômica à nossa aceitação sem questionamento.

Uma das melhores cenas nem sequer envolve assassinatos, mas uma reunião de produção via Zoom. Produtores, agentes e executivos discutem o reboot como se fosse um produto matemático: “precisamos de legado, mas a atriz original não pode ser velha demais”; “diversidade vende, desde que não pareça militante”; “o público quer autenticidade, mas algo familiar”. 

É impossível não perceber o quanto a diretora não-binária está satirizando a própria indústria contemporânea (e a protagonista é o seu alter ego), especialmente esse cinema corporativo que transforma qualquer gesto artístico em cálculo de mercado. O humor nasce do reconhecimento imediato de um processo criativo esmagado por planilhas.

Ainda assim, Teenager Sex and Death at Camp Miasma nunca abandona o prazer do slasher. Há adolescentes correndo pela floresta, corpos pendurados, sustos coreografados, sangue artificial em abundância. O assassino — uma espécie de primo degenerado de Jason Voorhees — vive escondido no fundo de um lago e usa um aparelho de ventilação que produz uma respiração abafada e mecânica, transformando cada aproximação em um ruído quase industrial. 

Schoenbrun filma essas sequências com evidente fascínio visual, mas sempre sublinhando sua artificialidade. A câmera frequentemente assume o ponto de vista do assassino apenas para revelar depois que estamos vendo um filme dentro do filme dentro do filme. É um jogo constante entre imersão e distanciamento.

Essa autoconsciência poderia facilmente virar mero exercício pós-moderno, mas a diretora encontra uma dimensão mais íntima ao relacionar horror e identidade. Como já acontecia em Eu Vi o Brilho da TV (2024) e especialmente em Vamos Todos à Exposição Mundial (2021), a diretora continua interessada em como imagens moldam subjetividades. 

Se antes ela investigava a influência da internet e das ficções digitais sobre adolescentes em formação, aqui ela amplia essa reflexão para a cultura pop como estrutura emocional coletiva. Os filmes que consumimos não desaparecem; eles permanecem inscritos na memória como uma tatuagem psíquica.

Talvez seja exatamente isso que o filme tenta desmontar: não apenas os códigos do slasher, mas os códigos invisíveis da própria cultura dominante. Afinal, quando o imaginário popular é historicamente construído sob perspectivas patriarcais, heteronormativas e violentas, romper com essas estruturas exige mais do que simples atualização estética. Exige revisitar os fantasmas que ainda continuam vivos dentro das imagens que amamos.

O mais impressionante é que Jane Schoenbrun consegue fazer tudo isso sem abandonar o prazer do cinema de gênero. Ainda que se perca em um romance maçante entre diretora e atriz e repita algumas cenas, Teenager Sex and Death at Camp Miasma é engraçado, autoconsciente e sangrento. Um filme que entende que certos monstros não vivem no lago, vivem nas narrativas que aprendemos a aceitar como naturais.

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Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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