Crítica | Babenco ‑ Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou – O Candidato do Brasil ao Oscar 2021

Selecionado do Brasil para disputar uma vaga entre as indicações de filme estrangeiro no Oscar 2021, o documentário Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou é uma homenagem apaixonada às marcas do cineasta argentino-brasileiro na sétima arte. Em preto e branco, Bárbara Paz promove a fusão do autor com as suas obras. Ao retirar os traços de temporalidade das imagens, a trajetória diacrônica é percebida de forma sincrônica com as dores dos últimos dias de vida de Héctor Eduardo Babenco, falecido em 2016. 

Com um olhar poético, a estreante cineasta utiliza a água e a chuva, elementos mutáveis e transitórios, para compor seu recital de memórias e homenagem ao homem que amou. Em certo momento da narrativa, ao tentar achar uma definição para o documentário, Bárbara Paz descarta as palavras “inspirado”, “baseado”, “relato de fatos”, para então, Babenco chegar à conclusão: “este filme é para eu esquecer a minha vida”. Como se ao registrar, ele retirasse o peso de guardar as lembranças na memória, mas ele, ou melhor, ela as eterniza na película. 

Mesmo sendo Bárbara Paz que direciona o olhar do espectador, a sensação é da voz de Babenco a guiá-la por essa intempérie, de direção e despedida, como seu mestre. As imagens de Babenco ao mar se apresentam em pleno diálogo com as suas criações, assim sentimos que o homem e obra se completam e se exaurem. Com a câmera, a diretora busca prover o que a fala de Babenco expõe. Ele explica que o cinema é fazer as pessoas terem um sentimento único, no sentido de especial, em um exato momento, de maneira a brincar com o cérebro. Afinal, a gente vê, reconhece e sente, mesmo que a experiência não seja própria ou, no caso dos filmes, real. 

Como neste documentário, em que as cenas de suas ficções juntam-se à narrativa de sua dor em camas de hospitais. Portador de um câncer desde os 38 anos, Babenco conta como a notícia do seu parceiro maligno veio logo depois da sua indicação de melhor diretor ao Oscar de 1986, pelo filme O Beijo da Mulher Aranha (1985). Tendo sido o primeiro latino-americano a receber esta nomeação, ele perdeu a estatueta para Sydney Pollack (Entre Dois Amores), mas o seu nome já estava gravado na história cinematográfica. 

Em tom confessional, o cineasta diz que sempre admirou o lado marginal, diz-se anarquista e mais interessado no povo brasileiro que no argentino. Acredita-se um pária, isto é, sem pátria, porque, para ele, os argentinos o veem como brasileiro e os brasileiros, como um argentino. Contudo é o Brasil marginal que Babenco decide eternizar em suas lentes, tal como em Lúcio Flávio: O Passageiro da Agonia (1977), Pixote: A Lei do Mais Fraco (1980) e Carandiru (2003). Sua trajetória sublima-se com a dos seus personagens, tal quando aparece como um projecionista em O Passado (2007) ao lado de Gael Garcia Bernal, mas é na preparação de Willem Dafoe para Meu Amigo Hindu (2015), o qual seria seu último filme, que a representação e a realidade se embaçam. 

Em apenas 1h15min de projeção, Bárbara Paz pincela a imagem do homem consciente do seu destino e temeroso em realizar os seus últimos anseios. Um deles é representado pela admiração do cineasta a contemplar Bárbara Paz nas gravações de seu último longa-metragem. Em uma belíssima cena, ela faz a coreografia de Gene Kelly em Cantando na Chuva (1942) de forma sensual, engraçada e explosiva. Ali, vemos a mulher que Babenco via, ou, ao menos, a que ele quer que vejamos. Esse encontro de olhares, o dele sobre ela e o dela sobre ele, torna o documentário deleitável e revigorante ao acompanhar a paixão entre os dois e pelo cinema. 

Em suas elucubrações sobre vida e morte, Babenco afirma que as pessoas que têm mais chances de viver são as que ainda tem sonhos a serem preenchidos. Embora o documentário não esclareça se seus sonhos foram realizados, suas obras e a parceria com Bárbara Paz (sempre ao seu lado) nos dão o vislumbre de uma resposta. Ele declara “quando eu morrer, eu quero que todo mundo sinta a minha falta. Enquanto eles leem o obituário, eu vou estar em Hong Kong”. 

Com a finalidade de torná-lo imortal, os últimos minutos do filme, tal como o cena inicial, são pelas ruas de Hong Kong ao som da canção “Exit Music (For A Film)”, do Radiohead. A premissa nos sugere a esperança de encontrar Babenco, de repente, numa esquina. Por mais de uma vez, o documentário encerra-se e ilumina-se, como se a morte de um cineasta fosse jamais possível. Afinal de contas, Babenco deixa suas criações que serão descobertas ainda por milhares de pessoas após o seu tempo na Terra. 

Ainda que tenha trabalhado com Jack Nicholson e Meryl Streep, o diretor confessa que amava contar histórias sobre o povo brasileiro. Em uma singela declaração, ele revela que desejava na juventude acordar doente para passar o dia lendo um livro, porque, por vezes, terminar um romance era mais importante que qualquer outra coisa. São essas sutilezas que fazem de Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou um filme único e mágico do ponto de vista de uma mulher apaixonada pela arte, o autor e o cinema.

Notícias

Especial ‘Toy Story’ | ‘Toy Story 3’ é uma OBRA-PRIMA cinematográfica

Quando pensamos em excelência cinematográfica, a franquia ‘Toy Story’...

As MELHORES Animações do Ano (Até Agora)

Estamos nos aproximando do fim da primeira metade de...

‘Toy Story 5’ estreia na LIDERANÇA das bilheterias nacionais

'Toy Story 5' estreou nesta quinta-feira (18) nos cinemas...
Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.