Crítica | Fancy Dance é um sensível drama sobre o epidêmico desaparecimento de mulheres indígenas americanas


Filme assistido durante o Festival de Sundance 2023

Fancy Dance chega lentamente, de forma silenciosa e acuada. Cruzando a história e as raízes indígenas com o misterioso desaparecimento de uma jovem mãe solteira, o drama de Erica Tremblay nos conquista aos poucos, em doses pequenas e serenas, até que nos inunda com sua poderosa mensagem sobre família, ancestralidade e luto.

Na trama, Jax (Lily Gladstone) tem problemas com a lei e vive a vida seguindo seus próprios trambiques. Diante do sumiço de sua irmã, uma stripper com conexões questionáveis, ela se vê na responsabilidade de criar sua sobrinha, sequestrando-na de seus avós caucasianos, na tentativa de preservar o pouco das tradições nativas e das raízes familiares que lhe restam. E assim, ela percorre o país como um fugitiva, que mais uma vez tenta fazer a coisa certa, da forma mais absurdamente equivocada.

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Em seus primeiros minutos, Fancy Dance aparenta ser um drama familiar com um subplot que flerta com uma forçada crítica social ao colonialismo. Com o idioma principal sendo a língua indígena materna, o filme poderia muito bem ser um agenda particular mal desenvolvida, que reduz questões tão profundas e densas a argumentos rasos e aleatórios. Mas este não é esse tipo de filme. Aqui, a cineasta Erica Tremblay se apega à beleza da manifestação artística indígena para abordar o epidêmico desaparecimento de mulheres indígenas, além de outras questões como identidade e pertencimento. Nos apresentando ao Pow-wow, descobrimos uma pequena fatia de uma riqueza histórica que celebra a ancestralidade, o passado e o presente de seu povo.

E de forma doce e suave, Tremblay e a co-roteirista Miciana Alise retratam a disfuncional dinâmica familiar entre uma jovem tia e sua sobrinha adolescente, desenvolvendo um drama conflitante sobre princípios e intenções, em uma América muitas vezes negligente com os seus. Na trama, embora a personagem Jax anseie por preservar o pouco que resta da cultura indígena em sua família, suas boas motivações se perdem em seu comportamento corrupto e desleal. Caminhando pela vida entre pequenos furtos, roubos de carros e até mesmo de combustível, ela é uma contradição ambulante, que será forçada a se confrontar pelas péssimas decisões que comprometeram até mesmo a segurança de sua sobrinha.

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E nessa combinação de gêneros tão diversos, o drama de Tremblay usa o background de suspense criminal para ir mais além em outros assuntos, como a marginalização dos povos nativos, a desestruturação de uma família e o amadurecimento de uma adolescente no meio do caos. Com Lily Gladstone em uma excepcional performance, Fancy Dance é também uma celebração muito intimista do povo Seneca-Cayuga, sob uma direção simples, mas precisa e tecnicamente bem executada. Com um final sensível, que coroa a narrativa de Jax e Roki de maneira emocionante e inspiradora, o drama é ainda uma belíssima reflexão sobre os ciclos da vida e a importância de fazer do passado uma memória viva para aqueles que estão no presente.

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