Crítica | 8ª temporada de ‘Rick e Morty’ é uma carta de amor aos fãs e à própria animação

Desde sua concepção, ‘Rick e Morty’ mostrou que não era uma série animada como as outras – e digo isso para além de sua estrutura para maiores de idade. Criada por Justin Roiland e Dan Harmon, a produção trouxe uma gama de inovações e de releituras a praticamente todos os gêneros narrativos, apostando fichas em uma intertextualidade contínua, infinita e que fundiu os limites entre a diegese e a metadiegese, apoiando-se em um palco autoconsciente e movido por inclinações filosóficas. Não é surpresa que a série já tenha sido renovada até a 12ª temporada – apesar de consideráveis percalços enfrentados recentemente.

Com as acusações de abuso tirando Roiland da atração, o time criativo teve que correr para substituir os dubladores e, de certa forma, isso afetou negativamente a qualidade do ciclo anterior, que, pela primeira vez, se valeu de conceitos convencionais demais para serem adotados pelos fãs – e que mancharam uma construção que, desde sempre, prezou pela originalidade. Felizmente, os erros foram compreendidos pela equipe e, com a chegada da mais recente iteração, percebemos que ‘Rick e Morty’ ainda tem muito a nos contar: ao longo de dez ótimos episódios, a 8ª temporada prova que há histórias que precisam ser contadas e que retornar às raízes nunca é uma má ideia.

A leva de capítulos reúne um conjunto de diretores e roteiristas que têm apreço significativo pelo que a animação já nos apresentou – e pela maneira como ela conquistou uma legião de fãs ao redor do mundo. E, em meio a iterações tão vibrante, é difícil encontrar alguma engrenagem que, dessa vez, esteja enferrujada ou fora dos eixos. Conforme a mitologia pré-estabelecida da série se expande para mais e mais arcos, temos o retorno de personagens inesperados que compõe a ininterrupta jornada dos protagonistas e que faz questão de garantir a cada um deles seu momento de brilhar.

Scott Marder, que retorna à cadeira de showrunner, cria um cosmos próprio para cada um dos episódios: em um deles, somos transportados a uma matriz tecnológica em que Morty (Harry Belden) e Summer (Spencer Grammer) são punidos por Rick e mesclam a linha que divide a realidade da artificialidade; em outro, Jerry (Chris Parnell) é o centro das atenções ao ser infectado por um vírus que o transforma em um Coelho da Páscoa e um arauto do sexo descontrolado, enquanto Rick (Ian Cardoni) e Morty lutam contra alienígenas sanguinários para conseguir uma cura; em outro, Beth e Beth do Espaço (ambas dubladas por Sarah Chalke) decidem deixar as preocupações e as dores da vida adulta para trás ao entrarem em uma máquina rejuvenescedora; e, por fim, James Gunn e Zack Snyder fazem uma participação especial como si mesmos em uma metalinguística crítica à problemática de Hollywood.

As múltiplas vertentes que se espalham pela temporada fazem sentido dentro do proposital non-sense que se desenrola minuto a minuto, nos relembrando de que, em meio ao caos, é sempre possível encontrar ordem. E a ordem regida pela complexidade de personagens tanto inalcançáveis em seus dilemas pessoais quanto palpáveis por cometerem acertos e erros em uma constância frenética é de caráter metafísico e reflexivo, nos emaranhando em entrelinhas niilistas e extremamente consequenciais. A arbitrariedade misantropa com que Rick enxerga a mera existência do ser humano se equilibra tanto com a completa ingenuidade de permanência de Jerry, a aprovação constante que Beth busca (qualquer uma de suas duas versões), o amadurecimento compulsório de Morty e a apatia sarcástica e rebelde de Summer – e, aqui, isso aparece com mais força do que nunca.

O trabalho do elenco de voz se mostra mais afiado do que nunca, garantindo que sejamos engolfados em uma experiência que termina em um piscar de olhos: na iteração predecessora, a brusca mudança dos dubladores causou hesitação por parte do público; mas, agora, é notável como Cardoni e Belden se transmutaram em Rick e Morty, reafirmando as características que nos permitiram amar esses personagens anti-heroicos; Grammer retorna mais uma vez como Summer, que, pouco a pouco, rouba os holofotes em qualquer cena que apareça (e nos deixa muito felizes quando protagoniza sua própria aventura); Chalke continua ter a liberdade necessária para destrinchar a intrincada psique das duas Beths; e Parnell diverte-se como nunca ao colocar Jerry no centro das atenções.

A oitava temporada de ‘Rick e Morty’ suprimi os erros cometidos no ano anterior e faz questão de reiterar que ainda há muito a ser esquadrinhado nesse icônico universo sci-fi e funciona como uma carta de amor ao que a animação já nos entregou – irrompendo com uma forte leva de episódios que nos deixa ansiosos para que o futuro nos aguarda.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.