Crítica | ‘Lindas e Letais’ – Thriller com bailarinas do Prime Video é um desconjuntado suspense que não faz o MENOR sentido

Em Lindas e Letais, novo thriller do Prime Video, somos convidados a acompanhar uma trupe disfuncional de bailarinas profissionais que, viajando para se apresentarem em uma competição prestigiada em Budapeste, se veem obrigadas a encontrar abrigo em um hotel isolado após o ônibus que as levava até o destino quebrar. Apesar de serem bem recebidas, elas logo percebem que estão no centro de uma perigosa artimanha recheada de mafiosos e criminosos armados que a compelem a usar todo o treinamento no ballet para enfrentarem seus algozes e, com sorte, saírem vivas de lá.

Como bem sabemos, o catálogo da gigante do streaming tem um apreço significativo por produções do gênero – como é o caso das franquias ‘Citadel’ e ‘A Lista Terminal’, ou até mesmo a aclamada série pós-apocalíptica ‘Fallout’, que se tornou um dos títulos favoritos dos assinantes e encantou tanto a crítica quanto o público. Porém, é notável como a quantidade exacerbada de obras desse tipo implica na qualidade duvidosa de algumas delas; infelizmente, esse é o caso do longa-metragem dirigido por Vicky Jewson, que foi disponibilizado na grade de programação no último dia 25 de março. Afinal, apesar da interessante premissa, nenhuma das partes se encaixa e somos deixados em meio a um cenário caótico que não sabe em que direção seguir e que nos deixa mais frustrados do que entretidos.

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O primeiro ato da produção é sólido o suficiente para nos fazer engajar nessa sangrenta jornada e nos apresenta às cinco protagonistas da narrativa: Bones (Maddie Ziegler), Princess (Lana Condor), Zoe (Iris Apatow), Chloe (Millicent Simmonds) e Grace (Avantika), cada uma nutrindo de uma certa rixa com a outra, colocando em voga as disputas de ego que acontecem nos bastidores do mundo da dança. Acompanhadas pela professora Thorna Davenport (Lydia Leonard), o quinteto percebe que está em um beco sem saída quando Devora Kasimer (Uma Thurman), uma lendária dançarina que agora é dona do Hotel Teremok e que, escondido dos olhos de todos, lidera uma organização criminosa baseada em ameaças e no pânico.

Quando um dos associados de Devora mata Thorna com um tiro na cabeça, as bailarinas são mantidas em cativeiro até que a antagonista decida o que fazer com elas e como proceder – o que não é nada surpreendente, considerando que Devora precisa manter as aparências e se livrar de quaisquer provas. O que ela não esperava é que Bones, movida por uma sede de vingança e de ódio, se uniria às suas colegas e utilizaria todo o treinamento clássico para destruir os vilões e colocar um ponto final no reino de caos que a ex-bailarina instaurou no inóspito interior da capital húngara.

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Toda a estética propositalmente exagerada e que bebe de produções como ‘Abigail’, ‘John Wick’ e ‘Maus Momentos no El Royale’ se esvai pouco a pouco quando percebemos que o roteiro assinado por Kate Freund não possui força para se sustentar e sequer acredita nas hipérboles que constrói. Em outras palavras, a trama criada por Freund é vazia do começo ao fim e parece servir mais como uma frágil base para cenas de ação desconjuntadas e para uma inesperada e nada prática união entre suspense, lutas e dança. De fato, o trabalho corporal das atrizes é algo a ser exaltado – mas os equívocos são tamanhos que a tarefa de ignorá-los fica mais difícil sequência a sequência.

Se o bloco de abertura é bem estruturado o bastante para deixar que o elenco brilhe, as duas partes subsequentes do longa-metragem soam como um projeto diferente: Ziegler e Condor, funcionando como o principal fio condutor das disputas internas da trupe de bailarinas, são infundidas em diálogos ridículos e risíveis que não as ajudam em suas performances, enquanto Simmonds, Avantika e Apatow são imbuídas com pulsões cômicas que não tem espaço para serem trabalhadas como deveriam, quebrando a frenética atmosfera do enredo e desmantelando um caótico ritmo que transforma breves 90 minutos em um exaustivo jogo de gato e rato.

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O que resta é uma tentativa falha de Jewson e Freund em apresentar algo novo a uma esfera que já contou todas as histórias possíveis – e nem mesmo o caráter recreativo é arquitetado com esmero. Thurman, que já imortalizou diversos personagens icônicos da cultura pop, é desperdiçada como uma vilã novelesca dos anos 1990 que, guiada por uma tênue backstory e por uma fraca motivação, não tem quaisquer chances de demonstrar seu talento e rende-se a mais do mesmo, a uma regurgitação de incontáveis antagonistas que convergiram para a personalidade de Devora.

Lindas e Letais já pode ser considerado um dos piores filmes do ano por não acreditar em si mesmo e não ter a mínima ideia de qual trajeto quer seguir, preferindo atirar profusamente para todos os lados em vez de “jogar no seguro” e entregar um filme despretensioso e, eventualmente, divertido.

Lembrando que o filme está disponível no Prime Video.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.