Crítica | ‘Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste’ Traz Narrativa Futurista Para Cangaço em Animação

A cultura brasileira é múltipla, vasta e precisa ser conhecida e reconhecida não só por nós mesmos, mas por pessoas de outros países também. Há muitas histórias aqui, críveis e incríveis, que dariam bons filmes, séries e livros, e nós precisamos voltar nossos olhos para dentro do nosso território, olhar para as nossas raízes e entender o quão inspirador é o nosso lugar – e, assim, criar novas histórias. Como fez a turma do ‘Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste’, um filme de animação brasileiro que mistura o cangaço com viagem no tempo e que chegou aos cinemas após temporada de sucesso na Prime Video.

O ano é 1933. Cinco cangaceiros percorrem o sertão em busca de aventuras e também se escondendo dos militares, que fecham o cerco frequentemente. É assim que o bando do Capitão Rocha (na voz de Bruno Garcia), composto por Bonita (Raissa Xavier), Siv (Tadeu Mello), Rimbi (Carol Goes) e o jumento Corisco (Luiz Felipe Mazzoni), acaba escapando de uma grande explosão entrando em uma caverna com uma luz misteriosa. Uma vez lá dentro, o grupo é teletransportado através de um portal e descobre que, na verdade, foram levados para o futuro, para o ano de 3333, onde conhecem o temido Cabra da Peste (Marcelo Mansfield). Entre rolos e desenrolos, o grupo do Capitão Rocha vai precisar fugir do Cabra da Peste, voltar no tempo e, de quebra, salvar a si mesmo no meio de tanta confusão.

Realizado pela produtora 44 Toons (que desde 2006 vem se firmando como uma das principais produtoras de animação do país), o longa-metragem ‘Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste’ carrega em si a estética e a essência brasileiras, tornando-se um produto que já à primeira mirada se torna fácil identificar como algo genuinamente nosso.

Escrito e dirigido pela multiartista Ale McHaddo (responsável pela comédia ‘Amor Sem Medida’, mas também por outro grande sucesso da 44 Toons, a animaçãoOsmar, A Primeira Fatia do Pão de Forma’), ‘Cordélicos’ só comprova a versatilidade de Ale, que ginga entre a direção e o roteiro, entre filmes live-action e de animação, entre longa-metragem e séries animadas.

Muitos são os pontos de destaque em ‘Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste’, mas provavelmente o que mais se realça é os diálogos, tecidos de maneira bem requintada não só pra absorver e reproduzir o falar típico (da região e da época dos cangaceiros), mas, acima de tudo, para trazer para o público jovem (que é o alvo da produção) um linguajar atraente, aqui e ali com pintadas de modernidade, para que a criançada curta os personagens para além de sua temporalidade. Soma-se a isso à ótima escolha do time de dublagem, através do qual cada ator conseguiu imprimir particularidade aos personagens bidimensionais de maneira que com poucos minutos de trama já nos fosse possível distinguir o caráter de cada um ali.

Novamente, chama a atenção a versatilidade de Ale McHaddo, que também comprova desenhar os personagens do filme – e muito bem! Ao criar personagens de traços marcantes dentro de uma história que mistura passado, presente e futuro, história e distopia, agreste e extraterrestre, e colocar tudo isso num visual colorido e ágil, o filme ganha o ritmo ligeiro tal qual o falar nordestino, que ainda por cima é coroado com a sagacidade de quem conhece essa terra.

Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste’ é um filme genuinamente brasileiro, com pitadas de humor em uma história infantil que agrada também aos adultos. Uma opção nacional nas redes de cinema e que traz um pouco de nossa própria história de maneira divertida e agradável aos pequenos espectadores.

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Janda Montenegro
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.

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