Crítica | Labirinto dos Garotos Perdidos – Mito de Peter Pan Conduz Filme Coming of Age Queer

Mais do que crescer, é o amadurecer que encontra as maiores barreiras na vida das pessoas. Porque amadurecer tem a ver com um ponto de equilíbrio entre a passagem do tempo, as decisões (boas ou ruins) que tomamos, a generosidade com que olhamos para nossa própria trajetória e nossa capacidade de abrir mão de pessoas, objetos, lugares que fizeram sentido em uma parte de nossa vida, mas não fazem mais no hoje. Esse equilíbrio que é o ponto de virada, e é tão difícil de alcançar. Daí tantos livros e filmes buscando formas de conversar com o público jovem sobre esse tema, como vemos em ‘Labirinto dos Garotos Perdidos’, novo lançamento da Filmicca e atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros.

Miguel (Giuliano Garutti) é um jovem rapaz de uma cidade pequena do interior que acaba de chegar numa grande metrópole para encontrar com Pedro (Lucas Bocalon), um jovem um tanto quanto misterioso que convida Miguel a ficar em sua casa mesmo sem conhecê-lo muito bem. Enquanto Miguel tem ideias de um relacionamento com Pedro, este, por sua vez, rapidamente deixa claro que suas intenções são apenas de hospedagem e, às vezes, uma relação sem compromisso. Essa breve rejeição faz com que Miguel vagueie pela cidade em busca de conforto e afeto, e, nessa jornada, acaba esbarrando em homens às vezes interessantes, às vezes bizarros, sem perceber que, de muito perto, é seguido por uma sombra misteriosa.

Labirinto dos Garotos Perdidos’ é um filme super experimental, de baixo orçamento e muita vontade de fazer acontecer, e isso fica claro já nos primeiros minutos. Nem por isso, entretanto, o filme deixa de entregar soluções criativas para multiplicar ambientes, trazer cenas de relacionamento com questões diversas e um certo número de atores diferentes para compor a busca do protagonista no alívio de sua angústia. O cinema guerrilha é assim, fazendo do limão a limonada.

Através da mistura de gêneros (fantasia, terror, suspense, romance, drama e um quê de humor) o roteiro de Matheus Marchetti bebe na fonte do clássico ‘Peter Pan e os Meninos Perdidos’ para retecer esse mote de maneira contemporânea e (por que não?) queer. Em vez do menino que se recusa a crescer e que vive na Terra do Nunca com outros rapazes abandonados pelos pais, em ‘Labirinto dos Garotos Perdidos temos um rapaz que, numa cidade sem nome, busca encontrar, junto a outros rapazes de certa forma rejeitados por uma sociedade homofóbica, acolhimento, pertencimento e afeto, como toda e qualquer pessoa do mundo. Esses meninos perdidos buscam diversão a qualquer custo, mas, aqui, estamos falando de conteúdo sexual.

E não são poucas as cenas de intimidade entre os personagens, o que também demonstra clareza e firmeza do diretor Matheus Marchetti em construir essas cenas – muitas das quais, um tanto quanto explícitas – para defender sua ideia de perdição dos meninos. Vemos isso, inclusive, já na cena de abertura.

Metafórico e alegórico, faltou em ‘Labirinto dos Garotos Perdidos’ um pouco mais de acontecimentos ao longo da trama, para não resumir a trajetória do protagonista a apenas uma eterna busca de satisfação física. Mesmo que haja criatividade e certo humor nas relações entre os homens, o protagonista acaba que só pula de um encontro para o outro sem intervenções externas, enquanto, encontro após encontro, vai se despindo e perdendo no caminho suas (poucas) posses e de qualquer resquício de amor-próprio na sua trajetória coming of age.

Labirinto dos Garotos Perdidos’ é um filme interessante que traz a vivência queer para as telonas durante o mês do Orgulho, como uma opção para o espectador.

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Janda Montenegro
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.

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