Percorrendo a culpa como uma variável motora em uma narrativa movimentada, que busca em um enigmático suspense prender a atenção do público, chegou recentemente à Netflix o filme espanhol A Desconhecida. Dirigido por Gabe Ibáñez, o projeto apresenta um roteiro que se arrisca ao tentar construir um discurso com algumas críticas sociais, inseridas em um complexo cenário onde se entrelaçam o luto e as dores. Através de duas protagonistas completamente diferentes no modo de pensar, partimos de um encontro dilacerante para uma estrada de descobertas.
Anna (Candela Peña) é uma investigadora policial que passa por um momento difícil em sua vida após a partida do irmão. De volta ao trabalho, ela enfrenta um caso peculiar de uma mulher desconhecida (Ana Rujas) que foi encontrada presa, com marcas de tortura, em um container e que também perdeu a memória. Buscando em cada pista montar um quebra-cabeça que se mostra complexo desde seu início, Anna precisará enfrentar as dores do passado para solucionar essa complicada investigação.

Em um primeiro momento, com as peças espalhadas, adentramos uma melancolia persistente sob a perspectiva de uma mulher que não consegue se separar da culpa pela morte de um ente querido. Em seguida, somos apresentados a outros personagens também com amarguras em seus presentes, inclusive a outra protagonista. Assim, o desenvolvimento dos personagens se apresenta de maneira dosada, colocando as primeiras questões sobre um desaparecimento que vão lapidando uma narrativa de tom mais contemplativo buscando promover uma imersão emocional.

A direção é bastante competente ao conduzir o público para o desgosto das decepções, reproduzido em diálogos com alta carga emocional e em situações onde o moralmente ambíguo se revela pelos fatos que chegam. Em cenários sombrios, que afastam qualquer possibilidade de esperança completa, as protagonistas tornam-se reféns dos próprios pensamentos, movidas por uma culpa dilacerante que influencia suas decisões.

Nesse mistura de drama pessoal e suspense, vamos caminhando a curtos passos para uma trama que abre seus horizontes por esses limites emocionais, passando pela corrupção policial, violações de princípios, contradições morais, e nos revelando camadas que intensificam um raio-x de personagens à beira do desespero.

À medida que a investigação avança, o roteiro parece se perder um pouco em como esclarecer todos os fatos sem perder a força do discurso do lado pessoal que se estabeleceu desde o início. Essa questão, acaba abrindo espaço para algumas previsibilidades, mas, ainda assim, consegue manter um ritmo consistente de suspense.


