Um dos festivais mais longevos do calendário audiovisual brasileiro, o Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, conhecido também como Cinemato, chega à sua 23ª edição entre os dias 29 de junho a 5 de julho, com uma programação afiada que será toda exibida no confortável Teatro da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Conseguimos dar uma boa estudada na programação, que passou por um processo de seleção com quase 600 filmes inscritos, e podemos afirmar: essa edição promete demais! Abaixo, segue uma lista com algumas obras para ficarmos de olho:
Perto do Sol é Mais Claro
O projeto nos apresenta Regi (Reginaldo Faria), um gestor de obras que sonha em também ser escritor – um homem cheio de histórias para contar, mas que atravessa um presente repleto de dúvidas e se sentindo cada dia mais sozinho. Contornando passado e presente, por meio de memórias e acontecimentos contemporâneos, ele começa a enxerga as questões ao seu redor de várias formas.
Seis artistas veteranas de Recife revisitam seus passados e revivem suas memórias mais íntimas diante das câmeras, em um presente imerso em nostalgia. Pioneiras de uma revolução ainda em curso, elas são e sempre serão Rainhas da Noite.
Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky
Em 1973, Jorge Bodanzky, filmando para a TV alemã, capturou uma imagem intrigante: uma grande maloca em meio à densa floresta amazônica, cercada por indígenas isolados tentando atingir o avião com flechas. Meio século depois, o registro recuperado pelo Instituto Moreira Salles, leva o cineasta de volta a Aripuanã. O filme conecta o passado e o presente, explorando sua trajetória e os mistérios da Amazônia a partir dos seus inúmeros rolos de super-8.
Rodado em três municípios do Estado de Mato Grosso – incluindo a capital, Cuiabá – Cinco Tipos de Medo apresenta personagens com histórias amarguradas que se encontram ao acaso. Assim, conhecemos uma capitã da polícia militar (Bárbara Colen) tomada pelo desejo de vingança após a perda do filho; um advogado (Rui Ricardo Dias) em luto pela perda da esposa – vítima de bala perdida –, e na esperança da recuperação do seu filho recém-nascido; um violinista (João Vitor Silva) que, após perder a mãe para a Covid, se apaixona pela enfermeira que cuidou deles (Bella Campos) – a mesma mulher que vive um relacionamento abusivo com o chefe de uma facção criminosa (Xamã). Um tiroteio, e suas consequências, conectam todas essas histórias.
Grávida, a astrônoma Cleo é surpreendida pela chegada de Nalu, sua meia-irmã de origem indígena. A convivência entre as duas reacende memórias perturbadoras e as conduz a uma jornada humana surpreendente, que as leva a camadas sombrias da deep web.

Débora tenta conseguir um emprego para pagar os aluguéis atrasados da kitnet onde vive. Enquanto isso, Ryan precisa se esconder.

Antonio Siqueira foi um fotógrafo autodidata que desde a década de 1980 colecionou imagens das personagens urbanas e rurais de Rosário Oeste, interior de Mato Grosso. Por meio de uma proposta ensaística, o documentário costura as imagens de Antonio às histórias, causos, bençãos e lembranças das pessoas que Antonio conviveu e fotografou.

O desejo de liberdade ainda ressoa em Margarida e a ideia de ficar presa em uma rotina cotidiana a deixa sufocada.
Canção Imigrante

Três músicos, vindos de fora do Brasil, encontram-se no Rio Grande do Sul, para onde vieram por distintas circunstâncias. O encontro de Loua, Ana e Dulce apresenta cada um desses personagens, bem como os aproximará e dará a oportunidade de mostrar suas referências musicais e misturá-las, criando uma nova musicalidade. Após conhecermos suas histórias de vida e acompanharmos seus ensaios, o trio de músicos promoverá um show, aberto ao público, mostrando seu talento ao lugar que os acolheu.
Memórias Com Vista para o Mar

Félix, um pintor negro de 80 anos, foge de uma casa de idosos se refugiando num banco de praia. Ali, memórias perdidas emergem gradualmente, num misto de realidade e ancestralidade. Ao se deparar com as ondas do passado, reavalia sua vida, desenha novas perspectivas reconectando-se com o filho.

No Brasil, os incêndios florestais criminosos são a principal causa do desmatamento e se tornam arma para os grileiros. Alex Gomes, líder de uma Brigada Voluntária, combate incêndios exaustivos e perigosos na tentativa de salvar sua comunidade e o meio ambiente.

Entre o batidão do funk e o chamado ancestral do Pantanal, o filme acompanha Serena, jovem indígena Guató que sonha em ser cantora, e sua mãe Fagunda, mulher marcada pelo exílio de seu povo. Vivendo na periferia, atravessam o adoecimento e a falta de recursos, até que a presença espiritual de uma onça-pintada faz emergir a força da ancestralidade feminina como resistência e pertencimento.

Imagina a situação: uma família se reúne para o amigo oculto natalino, e os conflitos logo afloram quando um pai presenteia o filho com uma arma de brinquedo. Dentro desse cenário, se desenvolve uma história que expõe embates e questões guardadas – mas nunca esquecidas – até a necessidade de reencontrar o amor em meio à decepção.

Sozinha em casa após perder o emprego, Dona Nena, passa a vender bolos para sustentar os netos. Entre contas atrasadas, obras inacabadas e o peso da rotina, ela encontra refúgio nas fantasias alimentadas por uma assistente virtual.

José é um garimpeiro que invade uma terra indígena em busca de ouro. Alertado por Guaraci, o deus do sol e protetor dessa terra, que não deveria extrair ouro dali, José ignora os avisos e sente na pele as consequências de roubar o que não lhe pertencia.
Kika Não Foi Convidada

Uma menina descobre que não é bem-vinda em uma festinha de aniversário. Enquanto aprendem sobre o valor de uma verdadeira amizade, crianças ensinam sobre empatia e acolhimento.

Expulsos por aviões nos anos 60, os Xavante de Marãiwatsédé retomam seu território para encontrar, no lugar da mata fechada, o pasto. Onde antes havia mata sagrada, hoje resta o “capim” da invasão. O documentário investiga o dilema de uma comunidade que, para não morrer de fome, vê-se forçada a criar o gado dos seus antigos inimigos, equilibrando a preservação da alma indígena com as leis brutais da sobrevivência econômica.

Na inventiva trama, acompanhamos uma jovem menina com o poder de usar o tempo a seu favor para resgatar memórias, em um futuro onde uma metrópole opressiva controla as ações e os movimentos da população que restou. Buscando entender esse mundo cheio de portas fechadas, ela encontra no passado uma forma de enxergar o futuro.
A Pele do Ouro

Patri escreve, narra e atua em A Pele do Ouro, documentário que parte de seus diários íntimos para revisitar memórias marcadas pela infância na Venezuela e pelos riscos assumidos na busca do sonhado ouro na Amazônia brasileira. Nos cadernos que acumula ao longo do caminho, onde escreve e desenha o que vive, revela a condição da mulher no garimpo, onde, assim como a terra, tudo é revirado e explorado.



