Enquanto assina as músicas e letras originais de Meu Filho é um Musical, espetáculo inspirado na trajetória de Paulo Gustavo em cartaz no Teatro Multiplan, no Rio de Janeiro, Daniel Salve também se prepara para dirigir a versão brasileira de Percy Jackson, que estreia em outubro no Teatro Liberdade, em São Paulo. Paralelamente, acompanha os novos desdobramentos internacionais de Nautopia, musical autoral que fez sua estreia em 2022, em São Paulo, e agora realizará um workshop em Londres no mês de julho. Em comum, os três projetos reforçam a aproximação entre o teatro musical e o audiovisual, seja por meio de personagens que conquistaram o cinema e a televisão, seja pelo potencial de expansão para outras plataformas.
No caso de Paulo Gustavo, a missão exigiu encontrar uma linguagem capaz de dialogar com um artista cuja trajetória foi construída principalmente no cinema, na televisão e, mais recentemente, no streaming. Segundo Salve, a solução não estava em reproduzir a figura pública que o público já conhecia.
“A resposta surgiu quando percebi que não precisava encontrar a trilha sonora do artista público, mas do ser humano por trás dele. Mais do que recontar momentos da sua carreira, procurei construir músicas que ajudassem a acessar sua vida emocional”, explica.
Para o compositor, o espetáculo procura ampliar a imagem que o público guarda do criador de personagens que marcaram uma geração. “A maior homenagem que poderíamos fazer não era apenas reproduzir aquilo que o público já conhecia, e sim revelar novas camadas”, afirma.
Outro projeto que coloca Salve diante de uma base de fãs apaixonada é Percy Jackson. Depois dos livros, das adaptações cinematográficas e da recente série de TV, o universo criado por Rick Riordan chegará aos palcos brasileiros em formato musical.
“A minha responsabilidade é preservar aquilo que os fãs amam na obra: o humor, a aventura, os personagens e os temas centrais da história”, diz. Para ele, o diferencial está justamente naquilo que o teatro oferece de único. “Existe uma magia em ver esses personagens respirando diante de você, compartilhando o mesmo espaço que a plateia.”
Ao falar sobre os fandoms que acompanham a saga há anos, Salve acredita que o musical não deve competir com as versões anteriores, mas propor uma nova experiência. “O nosso objetivo não é reproduzir aquilo que os fãs já viram nos livros, nos filmes ou na série, mas oferecer uma experiência nova, que preserve a essência de Percy Jackson enquanto explora tudo aquilo que só o teatro é capaz de fazer.”
De Nautopia ao streaming
Paralelamente aos projetos baseados em propriedades conhecidas, Salve também segue desenvolvendo trabalhos autorais. Entre eles está Nautopia, que se prepara para novos passos internacionais e que, segundo o criador, possui potencial para dialogar com outras plataformas.
“Eu costumo brincar que Nautopia daria uma série musical com várias temporadas, porque é um universo muito rico e com personagens que carregam histórias que vão muito além daquilo que vemos no palco”, comenta.
O autor acredita que uma eventual adaptação poderia expandir elementos que o teatro apenas sugere. “O audiovisual permite explorar o mundo de Nautopia de uma forma diferente, ampliando cenários, aprofundando personagens e acompanhando histórias paralelas.”
Outro projeto que desperta seu interesse para além dos palcos é Ciranda, musical autoral inspirado no universo das cantigas de roda, parlendas e do imaginário folclórico brasileiro. Segundo Salve, a obra já nasceu carregando possibilidades para o cinema e o streaming.
“Desde as primeiras ideias, eu conseguia enxergar possibilidades para cinema, televisão ou streaming. É uma história com um universo visual muito rico, personagens marcantes e uma linguagem que pode dialogar com públicos de diferentes idades”, revela.
O aprendizado com a Disney
Com mais de duas décadas de colaboração em projetos ligados ao universo Disney, Salve reconhece que uma das maiores influências recebidas não veio necessariamente da estética das produções, mas da forma de construir histórias.
“Aprendi que criatividade e organização não são opostos; na verdade, são aliados. Quanto mais sólida é a estrutura, mais livre você fica para criar”, afirma.
Para o artista, o principal ensinamento foi compreender que grandes narrativas não surgem apenas da inspiração. “Existe uma arquitetura invisível por trás da emoção. Existe muito estudo, muita estratégia, muita análise e muita disciplina sustentando aquilo que, para o público, parece simples e natural.”



