Crítica | ‘O Fim da Rua’ leva os dinossauros mais assustadores da década para os cinemas

Desde 1993, quando Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros chegou aos cinemas e encantou a todos com os dinos mais impressionantes que a humanidade já viu, o cinema tenta replicar esse tipo de fascínio e encantamento que somente um dinossauro é capaz de causar. No entanto, na maioria das vezes, não passou nem perto de repetir o feito do clássico de Steven Spielberg, que soube dosar com maestria a aventura com a ficção e o terror, e ajudou a inaugurar uma nova era no cinema mundial.

Chega a ser curioso como essa busca incessante por tentar recriar o impacto de ver dinossauros nas telonas acabou influenciando a própria franquia criada em 93, quando vieram com a ideia da quadrilogia Jurassic World, que está há mais de uma década tentando convencer o público de que as pessoas não se encantam mais “só” em ver um dinossauro, o que levou a saga a desperdiçar quatro filmes com a proposta desprezível de dinossauros mutantes híbridos bizarros e esquecíveis.

Divulgação/ Warner Bros.

Nesta quinta (13), chega aos cinemas O Fim da Rua, grande aposta da Warner Bros. para essa janela de lançamento, que mescla ficção científica com suspense para contar uma das histórias mais curiosas e interessantes de 2026. A trama é a mais “Spielberguiana” possível ao acompanhar uma família em crise dos anos 80, cuja vida cotidiana é interrompida por um apagão misterioso que leva dinossauros do período jurássico para a rua. Sem acesso a luz, água ou telefone, cabe à família Platt descobrir o que está acontecendo e tentar sobreviver a esses répteis pré-históricos famintos.

Dirigido por David Robert Mitchell (O Mistério de Silver Lake), O Fim da Rua é um projeto bastante pessoal que nasceu da paixão que compartilhava com o pai pelos dinossauros. Por isso, ele também escreveu o roteiro do longa e atuou como produtor. Essa paixão faz com que o filme esqueça de vez essa ideia deturpada de que “as pessoas não se chocam mais com um dinossauro” e aposta em diferentes espécies, algumas mais conhecidas e outras mais exóticas, para construir uma aventura que mergulha de corpo e alma na pegada oitentista do cinema americano, para o bem e para o mal.

Divulgação/ Warner Bros.

Estrelado por Ewan McGregor e Anne Hathaway, que dão vida a um casal em crise por conta da monotonia da vida cotidiana, o longa aposta em conceitos de física e astronomia para criar suspense, enquanto usa os dinossauros como uma forma de mostrar o quanto a natureza é implacável. Só que esse núcleo mais humano dos protagonistas traz um drama inesperado para a trama. Isso porque os pais tentam acalmar os filhos em uma situação da qual nem eles mesmos sabem se conseguirão resolver. Quer coisa mais Spielberg que fazer metáfora com divórcio dos pais em um filme com répteis gigantes e uma anomalia cósmica? E isso acaba funcionando muito por conta do talento de Hathaway, que convence e surpreende como Denise, uma mãe à beira de um ataque de nervos, cuja vida foi engolida pela frustração.

McGregor se destaca também ao dar vida a um típico pai bonachão dos anos 80. Ele perdeu seu emprego e começou a fazer bicos secretamente para manter a família, sem perder sua fé e bom humor. Seu jeito incomodamente otimista, combinado com uma caracterização impecável – e hilária – das roupas da época, faz dele um inesperado alívio cômico no filme, o que contrasta com uma seriedade surpreendente das crianças, vividas por Maisy Stella e Christian Convery. São os pequenos que exploram a novidade da rua e ajudam a solucionar o mistério sobre o que pode estar acontecendo. Tudo isso enquanto buscam seu cachorrinho perdido.

Divulgação/ Warner Bros.

No entanto, o que poderia ser um clássico moderno da ficção, acaba se contentando em ser apenas uma divertida aventura daquelas sessões vespertinas da TV aberta. E isso se deve muito à inexperiência do diretor, que sofre em equilibrar todas suas ideias em uma narrativa só. Se Spielberg teve a maestria de dosar três gêneros no primeiro Jurassic Park, Mitchell dá uma patinada em certos momentos de O Fim da Rua, dando a sensação de falta de direcionamento. Sabe quando uma autor tem uma chuva de ideias legais e não quer perder nenhuma delas, então busca um jeito de enfiar todas em uma trama só, mesmo que fique meio forçado? É um pouco do que acontece aqui.

A direção aposta em alguns planos-sequências muito interessantes para construir tensão, além de fazer muito suspense antes de revelar o primeiro dinossauro e apelar para momentos de violência explícita. Essas características dão a ele um aspecto de terror interessantíssimo, mas é na ficção que ele se perde um pouco. Conceitos complexos são trazidos por personagens que estão no ensino fundamental e jogados de forma pouco crível, que dão uma leve desconectada da trama e pode ser um fator que pese negativamente para alguns, já que tira esse ar de seriedade da trama. Ao mesmo tempo, a questão dramática, que entra de forma brusca na trama, consegue ser bem trabalhada justamente porque o elenco convence o público de que está sendo retratada em cena uma família de verdade. No fim, fica no ar aquela sensação de que são vários filmes em um só, o que poderia ser melhor resolvido caso houvesse um polimento de ideias do roteiro, que também foi escrito pelo diretor.

Divulgação/ Warner Bros.

O humor também parece fora do tom em alguns momentos, criando situações que transitam entre o constrangedor e o hilário, que certamente vai dividir opiniões. Mas a forma como a direção consegue pular de momentos cômicos para outros de pura tensão, te convencendo a comprar essa sensação de perigo, merece destaque. Ninguém está a salvo, e isso fica claro a todo momento.

O ponto é que mesmo com essa possível falta de direcionamento do longa, o diretor entende tão bem como retratar os dinossauros em cena que ainda assim consegue construir uma aventura divertida e assustadora, que entretém ao longo de pouco mais de 1h30 de duração. É um filme curto, engraçado e tenso que traz os dinossauros mais assustadores da última década para as telas, fugindo daquelas espécies eternizadas em outras franquias, já que são bichos do período jurássico, não do cretáceo. São dinos famintos, que estão ali apenas para sobreviver e se veem diante de estruturas humanas pela primeira vez na vida.

Esse anacronismo delicioso rende momentos únicos, como dinossauros derrubando casas, interagindo com parquinhos e esmagando carros, além, é claro, da relação conflituosa com os mamíferos modernos. É a melhor representação de dinossauros nos cinemas desde o primeiro Jurassic Park.

Divulgação/ Warner Bros.

No fim das contas, O Fim da Rua é uma experiência divertida que vale ser conferida no cinema justamente por usar ao máximo dos potentes sistemas de áudio das salas para criar essa experiência de estar em um ambiente familiar e hostil ao mesmo tempo, em que animais famintos podem saltar sobre você a qualquer momento. Nas mãos de um diretor mais cascudo, esse filme poderia virar um clássico moderno da ficção. Porém, ele consegue fazer bem o papel de divertir e surpreender com momentos chocantes, dando valor até mesmo a momentos bobos, que trazem um certo olhar infantil para essa ideia lúdica de acordar um dia e ver um dinossauro passando pela janela do quarto.

Vale muito a pena fugir de trailers, comerciais e spoilers. Quanto menos você souber sobre a trama, maiores são as chances de conseguir embarcar completamente na insanidade proposta pelo projeto.

O Fim da Rua estreia nos cinemas em 13 de agosto de 2026.

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Pedro Sobreiro
Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.