Crítica | ‘Supergirl’ é uma DESCONJUNTADA aventura espacial que vale a pena pelo carisma de Milly Alcock

No ano passado, James Gunn e Peter Safran deram início à nova versão do universo cinematográfico da DC com o lançamento de Superman, que provou ser uma divertida, inspiradora e clássica narrativa super-heroica guiada pelo carisma inegável de nomes como David Corenswet como o Homem de Aço, Rachel Brosnahan como Lois Lane e Nicholas Hoult em uma rendição memorável do psicótico vilão Lex Luthor. Alcançando sucesso crítico e comercial, o longa-metragem no reapresentou a conhecidos personagens da cultura pop e começou a cimentar uma possível revitalização de um dos panteões mais populares do planeta – e, esse ano, fomos convidados a conhecer o segundo capítulo da saga intitulada ‘Deuses & Monstros’: Supergirl.

Com lançamento oficial agendado para amanhã, 25 de junho, o longa-metragem acompanha Kara Zor-El (Milly Alcock), que nos foi introduzida nas cenas pós-créditos de Superman e serviu como contraponto à personalidade totalmente empática e heroica do personagem imortalizado por Corenswet. O filme se inicia com Kara aproveitando seu aniversário de 23 anos para se embriagar e aproveitar uma vida solitária ao lado de seu fiel cãozinho, Krypto, em um planeta de sol vermelho (o único tipo que a destitui de seus imensuráveis poderes). Porém, as coisas mudam de uma hora para outra quando uma jovem órfã chamada Ruthye (Eve Ridley), do Clã Danastia, aparece em um dos bares locais procurando vingança contra o impiedoso Krem (Matthias Schoenaerts), um bandoleiro que assassinou sua família a sangue-frio.

A princípio relutante em se envolver com algo que está fora de sua alçada, Kara é arrastada para esse jogo de gato e rato quando Krem envenena Krypto, dando a ela apenas três dias para conseguir o antídoto e impedir que seu melhor amigo morra – sendo acompanhada de Ruthye em uma jornada épica pelo cosmos. Porém, ainda que tenha o coração no lugar certo e se mostre comprometido em nos divertir com uma aventura solo, Supergirl emerge em uma desconjuntada e caótica arquitetura cinematográfica que deixa várias pontas soltas e que vale a pena mais pelo carisma de um grande e talentoso elenco do que pela história em si.

Craig Gillespie assume a cadeira de direção e mostra uma paixão inegável pelo universo que explora e, conhecendo seu trabalho em ‘Eu, Tonya’ e ‘Cruella’, é de se esperar que a estética do filme seja impecável – e, de fato, é: a primeira metade do projeto não apenas nos reintroduz a essa nova versão da icônica heroína, como aposta fichas em uma mistura de ‘Star Wars’, ‘Guardiões da Galáxia’ e ‘Mad Max’ para firmar uma narrativa quase episódica, reunindo elementos clássicos das franquias em questão sob uma ótica irreverente e que usa e abusa da personalidade de seus personagens, traduzidas com uma efervescência de cores e de planos que nos mantém interessados nos arcos.

Todavia, conforme nos aproximamos do terceiro ato, percebemos que Gillespie, aliado ao roteiro de Ana Nogueira, se esquece de um dos elementos principais de adaptações de super-heróis: o antagonista. De um lado, Alcock traz seu conhecido carisma de produções como ‘A Casa do Dragão’ e da subestimada minissérie ‘Sereias’ para estabelecer a complexa conjuntura de Kara, dividindo os holofotes com a bem-vinda presença de Ridley como Ruthye e com a presença pontual de Jason Momoa como o insano Lobo (este “caindo feito uma luva” como o personagem).

De outro, o prestigiado talento de Schoenaerts é diluído em um vilão imemorável e cujo objetivo, apesar de nos ser apresentado de forma contundente, nos passa despercebido – principalmente quando ele segue de perto o inegável impacto de Hoult como Lex Luthor. Em outras palavras, toda a mitologia em volta de Krem parte de tropos tão convencionais que não sentimos o peso de sua presença nas telonas, transformando-o em apenas um conduíte para o arco de Supergirl. Mesmo desfrutando de cenas muito boas ao lado de suas colegas de elenco, o resultado é aquém do esperado e nos deixa frustrados à medida que a história se encerra.

Um dos elementos que mais chama a nossa atenção, para o bem ou para o mal, é a forma como a personalidade de Kara é esquadrinhada ao longo do filme – incluindo sequências em flashback que servem como base para alguém que, por mais que não queira se importar com o mundo à volta, não consegue deixar de ajudar aqueles que precisam (diferente de seu primo, Kal, que torna-se epítome da bondade). O contraponto é interessante, mas não delineado como deveria e deixando várias pontas soltas que tentam ser mascaradas por um sólido design de produção e um investimento pesado na maquiagem e nos figurinos.

Supergirl dá continuidade ao recém-fundado DCU, mas falha em se manter no mesmo nível que o longa anterior, querendo dar um passo maior que a perna e, eventualmente, chegando a lugar nenhum. A produção não chega a ser ruim, mas nos deixa um gostinho agridoce na boca por não saber aproveitar todo o potencial que nos prometeu e que encontra um breve sucesso na escalação certeira de Milly Alcock como a protagonista titular.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.