Raquel Hallak fala sobre o CineOP, a preservação do audiovisual e a integração da IA no Cinema

A 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto voltou a reforçar sua posição como o principal evento brasileiro dedicado à preservação da memória audiovisual.

Durante o festival, a Diretora Geral da Universo Produção e Coordenadora Geral da Mostra de Cinema Raquel Hallak conversou com o jornalista Renato Marafon sobre os desafios de preservar o patrimônio cinematográfico nacional e também comentou como a Inteligência Artificial pode se tornar uma importante ferramenta para o futuro do setor.

Assista:

Um dos grandes destaques da CineOP continua sendo o tradicional cinema ao ar livre montado na histórica Praça Tiradentes. Para Hallak, o espaço representa a essência democrática do festival.

“O cinema na praça é sempre o lugar mais democrático do evento. É ali que temos a possibilidade de receber a primeira pessoa que nunca entrou numa sala de cinema. As famílias se reúnem, as pessoas compartilham essa experiência coletiva em um cenário único, cercado pela arquitetura barroca de Ouro Preto, pelo céu estrelado e pela lua. É um espaço muito simbólico para mostrar que o cinema como uma experiência coletiva.”

Outro marco desta edição foi o lançamento do livro “Memória do Cinema Brasileiro“, obra organizada para celebrar as duas décadas da CineOP. Hallak explica que o projeto nasceu do desejo de deixar um legado permanente sobre a preservação audiovisual no país.

“A ideia era comemorar os 20 anos da CineOP com um livro que não fosse apenas comemorativo. Queríamos uma obra que também tivesse valor acadêmico, porque ainda existem poucos livros sobre preservação audiovisual no Brasil. Conseguimos reunir mais de 30 artigos que mostram a preservação de forma ampliada, além de registrar as conquistas desses 20 anos e o legado construído pelo evento.”

A preservação do cinema nacional continua sendo a principal missão da mostra. Durante esta edição, clássicos como ‘O Ébrio‘ e ‘Xica da Silva‘ foram exibidos em versões restauradas em 4K, permitindo que novas gerações tenham contato com obras fundamentais da história do cinema brasileiro em qualidade inédita.

Para Hallak, restaurar um filme significa muito mais do que recuperar sua imagem.

“Quando vejo esses filmes restaurados, penso que eles continuam vivos. A restauração permite que o público conheça não apenas a história contada pelo filme, mas também a época em que ele foi produzido. Cada restauração fortalece a memória do cinema brasileiro e ajuda a definir quais obras serão conhecidas pelas futuras gerações.”

Ela também defende o fortalecimento das políticas públicas voltadas ao setor, lembrando que ainda existem centenas de filmes produzidos em película aguardando digitalização e restauração.

“Já chegamos a um ponto em que precisamos selecionar quais filmes entram na programação porque não cabe tudo. Isso mostra o tamanho do patrimônio que ainda precisa ser recuperado. Precisamos de políticas públicas estruturantes para que mais obras possam ser preservadas.”

A Inteligência Artificial também entrou em pauta durante a conversa. Algumas restaurações recentes já utilizam recursos de IA para auxiliar na recuperação de imagem, um tema que ainda gera debates entre especialistas.

Para Hallak, a tecnologia representa uma enorme oportunidade, desde que seja utilizada com responsabilidade.

“Todo avanço tecnológico nos impõe um grande desafio: definir seus limites. A Inteligência Artificial pode e deve ser usada a nosso favor, mas sempre respeitando princípios éticos. O Brasil precisa estabelecer regras claras sobre como essa tecnologia será utilizada.”

Ela acredita que o potencial da IA vai muito além da restauração de filmes.

“Ela poderá ajudar na transcrição de manuscritos, no acesso a bancos de dados e na democratização das informações dos acervos. Existem inúmeras possibilidades positivas, desde que o uso seja responsável.”

Questionada sobre a substituição da película pelo cinema digital, Hallak não acredita que a evolução tecnológica represente uma perda para a qualidade cinematográfica.

“O digital tornou o cinema e a restauração mais acessíveis. A película sempre terá seu valor histórico e a nostalgia daquele som característico do projetor, mas acredito que, em muitos casos, o processo digital trouxe ganhos enormes de qualidade.”

Ela lembra, porém, que ainda não existe uma resposta definitiva sobre a preservação dos arquivos digitais a longo prazo.

“Hoje armazenamos tudo em nuvem, mas ainda não sabemos como esse enorme volume de arquivos digitais será preservado daqui a 20 ou 30 anos. Esse talvez seja o maior desafio para o futuro.”

Ao final da entrevista, Hallak também falou sobre a emoção de acompanhar mais uma edição da CineOP tomando conta das ruas de Ouro Preto.

“Quando subo ao palco na abertura e vejo a praça cheia, sinto que a missão começou a ser cumprida. Depois, quando o festival termina, já bate a saudade. Criamos uma grande família formada pela imprensa, pelos profissionais do audiovisual, pesquisadores, estudantes e pelo público. Todos trabalham juntos para construir um mundo melhor através do cinema.”

Após mais de duas décadas de história, a CineOP segue mostrando que preservar filmes significa preservar a memória cultural do país — e, ao mesmo tempo, preparar o audiovisual brasileiro para os desafios tecnológicos das próximas gerações.

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Renato Marafon
Renato Marafonhttps://cinepop.com.br/
Editor-chefe e criador do site CinePOP, apaixonado por cinema e filmes.