Crítica | Naufrágio: O Pesadelo do Costa Concórdia – Doc Visceral da Netflix Resgata Recente Tragédia Marítima

Quando pensamos em tragédia em alto-mar, imediatamente nossa memória nos remeta ao Titanic, o desastre mais conhecido da história e que foi transformado numa história de amor inesquecível pelas lentes de James Cameron em filme homônimo. Embora o então maior navio do mundo tenha afundado há mais de cem anos, sua história ainda permanece no imaginário popular. Porém, no ano de 2012, uma outra tragédia marítima, de proporções semelhantes, aconteceu, e chocou o mundo com sua magnitude, deixando rastros até os dias de hoje. Trata-se do cruzeiro Costa Concórdia, que afundou em janeiro daquele ano, e cuja história acaba de chegar na Netflix através do documentárioNaufrágio: O Pesadelo do Costa Concórdia’.

Na noite do dia 13 de julho de 2012 (uma sexta-feira 13, diga-se de passagem), mais de três mil passageiros embarcaram no Costa Concórdia, um dos navios mais luxuosos do mundo, de uma das frotas mais conhecidas e respeitadas do mercado. Neste cruzeiro, com aproximadamente o mesmo número de tripulantes e funcionários, um comandante, Francesco Schettino, que assumia o leme pela primeira vez, decidiu fazer algo diferente: em vez de seguir a rota autorizada para o percurso pela costa europeia, decidiu, unilateralmente, fazer um desvio no caminho e aproximar o navio da costa da Ilha Giglio, em teoria para dar um alô a familiares que estariam ali – mesmo sendo já de noite. Essa mudança no roteiro acaba em fatalidade: o Costa Concórdia colide em diversas pedras, que gera um rasgo enorme no casco e, em poucas horas, o navio vira e afunda, precisando ser evacuado às pressas. Porém, é exatamente nesse ponto em que o acidente vira tragédia: a falta de ação do capitão faz com que a evacuação e a sobrevivência das milhares de pessoas a bordo se tornem ainda mais dramática e, em muitos casos, fatal.

Em uma hora e meia, o documentário da Netflix consegue equilibrar bem o misto de sonho, de realização e de pesadelo que acompanha a expectativa versus realidade dos passageiros que embarcaram no Costa Concórdia. Em um sentido macro, o documentário entrega informação, pesquisa e entretenimento, mesmo o assunto se tratando de um episódio trágico; em um sentido menor, a produção consegue percorrer todo o passo a passo de um bom documentário, entregando dados, personagens, imagens de arquivo, recriação gráfica, recuperação de informações, seguindo os moldes de apresentação de case sem confundir o espectador.

Dirigido por Chiara Messineo, o longa fez uma ótima seleção de elenco, que inclui desde um casal super emocionado porque fazia a viagem com sua filhinha bebê à época; uma jovem muito bonita que fala da viagem que fizera com a mãe, curada de um câncer; uma funcionária, bailarina, cujo sonho era conhecer o mundo e via nos cruzeiros a oportunidade de realizar-se; um chef de cozinha, endividado, que trabalhava sem parar para conseguir mandar dinheiro pra casa; o relações públicas do navio, última pessoa a ser resgatada. Ao longo dos depoimentos, o documentário mostra como uma mera viagem de cruzeiro para uns é a realização de um sonho, para outros, a oportunidade de uma vida melhor, e, diante de uma tragédia dessa proporção, o documentário, com muita sensibilidade, mostra tudo que cada uma dessas pessoas perdeu naquela noite, e como o impacto do naufrágio bateu de forma diferente a todos os sobreviventes.

É claro também que o documentário faz aquele edição de internet que fica bem evidente: o início do filme apresenta “os melhores momentos” dos depoimentos dos entrevistados com cenas impactantes e resumo da trama – tudo isso ocorre nos três minutos iniciais, antes de entrar a cartela que começa a explicar toda a história. Uma estratégia para capturar o espectador logo no início, atiçando a curiosidade, que nem os videozinhos de internet. Enfim.

Sensível, revoltante, emocionante e impressionante, ‘Naufrágio: O Pesadelo do Costa Concórdia’ é um ótimo documentário, e muito bem realizado, mas que, porém, pode acabar com o sonho de se fazer um cruzeiro caso você nunca tenha feito um. Um filme que mostra que ganância e erro humano, infelizmente, são uma combinação fatal.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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