Lobis-homem | O que esperar do novo TERROR de Robert Eggers

Robert Eggers tornou-se um dos diretores mais prestigiados não apenas do terror contemporâneo, mas do cinema atual – imprimindo uma visão única para conhecidas histórias folclóricas e agourentas que conquistaram a crítica e o público. Fazendo sua estreia com ‘A Bruxa’, o cineasta explorou o imaginário popular dos colonos do século XVI, continuando a investir uma apaixonante e impressionante precisão histórica com o conto lovecraftiano ‘O Farol’, o épico viking ‘O Homem do Norte’ e o aplaudível remake do clássico expressionista Nosferatu.

Agora, o diretor e roteirista nos prepara para mais um ambicioso projeto com Lobis-homem (‘Werwulf’, no original), que o reúne com o poeta escandinavo Sjón para uma releitura da icônica e perigosa criatura meio homem, meio lobo. O filme começou a ser desenvolvido em janeiro do ano passado, com a narrativa sendo ambientada na Inglaterra entre o final do século XIII e o início do XIV – onde o forte pensamento religioso entrava em conflito com as crenças mitológicas e a separação entre o pensamento místico e racional. Logo, é claro que Eggers não nos apresentaria à figura moderna do lobisomem – como sua transformação plena em lua cheia e seu ponto fraco sendo a bala de prata -, apostando em uma reconstituição do modo de enxergar o mundo a partir de uma sociedade hierárquica e ainda infundida nos costumes medievais.

Como pudemos ver no trailer recém-lançado, o longa conta com vários elementos clássicos que acompanham o cânone dos lobisomens – uma maldição aparentemente hereditária que recai sobre um dos personagens, o ciclo lunar ditando a temível transformação e uma forte simbologia religiosa. Entretanto, considerando o apreço de Eggers pela História em si, não é surpresa que suas referências partam de fontes palpáveis.

Em entrevista à Empire, o realizador afirmou que encontrou um “texto inglês muito antigo – mais antigo que o período do filme – que diz que os lobisomens são afetados pelo ciclo da lua. E há algumas coisas na literatura islandesa”. Levando em conta que o texto assinado por ele e por Sjón é pautado no Middle English (Inglês Médio), uma fusão entre o Old English dos anglo-saxônicos e o francês da Normandia, é possível traçar um paralelo cronológico nas influências que Eggers colocará na trama.

Os mitos envolvendo os lobisomens existem há séculos e sua conjunção aparece em diversos momentos no trailer do filme. Uma das sequências apresenta o personagem vivido por Aaron Taylor-Johnson (e por Vidal Arzoni em sua versão mais jovem) sendo vestido com uma pele de lobo, reiterando a paixão do diretor pela cultura viking. Afinal, essa prática data dos guerreiros nórdicos conhecidos como Ulfhednar (esfoladores de lobo, em tradução livre), que usavam esses trajes por cima de uma cota de malha que reafirmava uma ferocidade brutal durante as batalhas. Por vezes descritos como “guerreiros de Odin”, a figura desses guerreiros perdurou até o século XIII e apareceu na ‘Saga de Egil’, em que um homem chamado Kveldulf, conhecido por seu curto temperamento, ganha uma habilidade sobrenatural de manifestar o ímpeto destrutivo de um lobo, na forma de um berserker enlouquecido – ainda que a ideia de “possessão” não seja totalmente clara.

A ideia da maldição é o elemento que mais nos chama a atenção, expandindo a bagagem cultural que Eggers imprime em seu vindouro longa-metragem para várias incursões folclóricas. De acordo com o antiquário Thomas Hinderwell, a cidade de Flixton, em Yorkshire, estabeleceu uma pousada por volta dos anos 940 a.C. a fim de proteger viajantes de lobos que assolavam a região. Dois séculos mais tarde, é dito que um lobisomem atacou a pousada e devorou um pastor e sua filha, além de vários animais de fazenda – e acredita-se que essa criatura havia sido transformada por um feitiço maligno (autoconjurado ou como maldição).

Já no século XII, Marie de France assinou um dos lai (curto poema medieval de popularidade significativa nas cortes europeias) mais famosos da literatura bretã, ‘Bisclavret’, que narrou a história de um barão bretão que tinha uma vida dupla como lobisomem, transformando-se na criatura durante três noites. Para isso, ele deveria viajar para um lugar remoto e remover as roupas – algo que também aparece no trailer de ‘Lobis-omem’. Ao retornar para as vestes retiradas, o barão consegue voltar à forma humana.

A mesma ideia de transmutação mágica aparece em 1180 através da ‘Topographica Hibernica’, em que o autor Gerald de Gales discorre sobre uma vila onde duas pessoas são transformadas em lobisomem a cada sete anos – e, após isso, eles voltam à forma humana e a maldição é transferida para um novo casal. Os escritos de Gerald dialogam diretamente com o personagem de Johnson e a de Lily Rose-Depp, que interpreta sua esposa e que, ao que tudo indica, pode estar em vias de se metamorfosear na criatura. Esse ideário de transformação licantropa se estendeu até o fim da Idade Média – mas as conexões com a lua ganhariam força no início do século XIII.

Por volta de 1214, o clérigo Gervase de Tilbury completou um speculum (uma espécie de enciclopédia primitiva) chamada ‘Otia Imperialia’, que discorria sobre assuntos variados como história, geografia, literatura e folclore. Em uma das seções, Gervase menciona a existência de lobisomens com um exemplo “real” de dois cavaleiros que, ao se transformarem em lobos, perdiam a consciência humana e se tornavam monstros vorazes – e, diferente de outros textos do período, a transmutação estava atada ao ciclo lunar. Todavia, o autor acreditava que a mudança ocorria não sob a lua cheia, mas sob a lua nova – ou seja, na mais escura das noites (e essa ideia é mencionada no trailer com as frases “não tema a escuridão; abrace-a”).

Em suas produções folclóricas, Eggers nunca deixou de lado o caráter religioso, e isso não seria diferente com Lobis-homem. No trailer, é possível ver a imagética católica com as várias aparições de cruzes e até mesmo de um estranho padre que aparece guiando Arzoni para dentro de uma caverna. Essa conexão entre a Igreja e os lobisomens ganha força também no final da Idade Média, em que o pensamento cristão de negar a existência de tais criaturas começa a mudar – levando clérigos e membros eclesiásticos a crerem que Deus ocasionalmente permita que um demônio se materialize para mudar o que foi criado, uma espécie de ilusão corpórea que testa a fé dos homens e, talvez, punir aqueles inebriados pelo pecado.

Lembrando que o filme chega aos cinemas nacionais em 21 de janeiro de 2027.

Saiba Mais – Lobis-Homem

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.