Silo | Conheça uma das MELHORES séries distópicas da atualidade

Os apreciadores de boas histórias têm uma predileção significativa por narrativas futuristas que não só imaginam o quão diferente o mundo estará daqui a muito tempo, mas o que acontece quando a ambição desmedida do ser humano premedita o próprio fim. Em outras palavras, enredos que apresentam uma versão temerosa da realidade e que integram o subgênero conhecido como distopia mergulham em poderosas análises sociais que servem tanto como um necessário alerta quanto como um reflexo das nossas tendências autodestrutivas. Não é surpresa que títulos como ‘Admirável Mundo Novo’, ‘Jogos Vorazes’ e ‘Matrix’ sejam considerados alguns dos emblemas dessa esfera criativa – e tenham um lugarzinho especial no coração do público.

Por mais que não tenha a mesma fama que seus conterrâneos e contemporâneos, o autor Hugh Howey também merece lugar de destaque nesse escopo por ter dado vida a uma das distopias pós-apocalípticas mais intrigantes e envolventes do século: a saga literária ‘Silo’. Contando com três volumes que se ramificam em pequenas novelas e três grandes arcos envolvendo os personagens principais, a trama nos leva a um futuro em que o planeta foi completamente dizimado e se tornou um ermo impregnado por um ar tóxico e mortal. Os poucos que restaram são confinados em uma grandiosa cidade subterrânea e vertical conhecida como Silo, que estende-se por 144 andares e que impede o completo extermínio da raça humana ao mantê-los a salvo – mas escondendo uma verdade que os impede de ao menos conhecer como era o mundo de antes.

Após uma tentativa fracassada de transformar os escritos de Howey em um longa-metragem, os direitos intelectuais da saga foram adquiridos pelos executivos do Apple TV, que a transformaram em uma grandiosa série que estreou em 2023. Estrelada por Rebecca Ferguson em um dos papéis definidores de sua expressiva carreira, a produção se sagrou como um dos carros-chefes da plataforma de streaming e um dos melhores títulos sci-fi da década – nos convidando a um espetacular thriller de mistério que com certeza merecia mais reconhecimento do que tem.

A trama se inicia com o casal formado por Allison (Rashida Jones) e Holston Becker (David Oyelowo). Holston trabalha como o xerife do Silo, enquanto Allison integra o corpo de funcionário do time de TI da descomunal estrutura. Ambos têm o desejo de conceber um filho e têm mais uma chance de fazer isso acontecer quando o Judicial, responsável pelo controle do local, lhes concede uma nova oportunidade. Autorizados a remover o anticoncepcional de Allison, os dois percebem que, talvez, o sonho não se realize – principalmente depois que a habilidosa técnica cruza caminho com uma relíquia de um tempo antes da existência do Silo sob posse do intrépido George Wilkins (Ferdinand Kingsley) e que contém informações surpreendentes que aqueles no poder tentam esconder das pessoas como forma de impedi-los de sair.

Para além de uma série de regras a serem seguidas e de uma complexa história que inclui uma sangrenta rebelião e o banimento de quaisquer objetos que remontem ao passado outrora glorioso do planeta, os habitantes do Silo não podem, sob circunstância alguma, dizer que querem sair – visto que o pedido é automaticamente concedido e impassível de ser revogado. Entretanto, Allison, depois de descobrir esses segredos, pede para ir lá fora, sendo seguida anos depois pelo marido.

Entretanto, antes de decidir copiar a decisão da esposa, Holston é convocado pela geniosa e cautelosa Juliette Nichols (Ferguson), uma funcionária da Mecânica extremamente engenhosa que tinha um relacionamento com George antes de seu estranho suicídio – afirmando que ele, na verdade, foi assassinado. Ora, de fato é muito estranho que, pouco depois de Allison ter saído do Silo, a única pessoa em posse da perigosa relíquia (um hard drive contando com anos e mais anos de arquivos ocultados pelo Judicial) foi encontrada morta. A partir daí, a trama principal ganha forma e se transmuta em uma impecável jornada detetivesca recheada de reviravoltas e traições.

Após a saída de Holston, Juliette é escolhida pelo próprio ex-xerife a assumir o cargo – e a tempo de emergir como peça principal de uma série de mortes que começa a assolar o Silo, incluindo a da prefeita Ruth Jahns (Geraldine James), que foi eleita durante quatro décadas seguidas em uma aprovação inestimável, e do delegado Sam Marnes (Will Patton), aliado de Jahns. Encontrando espaço para investigar o possível assassinato de George, Juliette percebe que as coisas são muito mais complexas do que parecem e é arrastada a um vórtice e artimanhas que envolve duas figuras bastante perigosas – o chefe do Departamento de Tecnologia, Bernard Holland (Tim Robbins), que assume o cargo de prefeito interino; e o chefe da segurança do Judicial, Robert Sims (Common), ambos escondendo segredos que vêm à tona pouco a pouco.

Criada por Graham Yost, toda a estrutura da produção é pincelada com uma preciosidade estilística e narrativa que reitera o inegável status do Apple TV como detentora de um dos melhores catálogos do streaming atual. Os elementos detetivescos se ramificam para o mistério e suspense conforme prestam homenagens a clássicos do gênero, utilizando a conhecida estrutura hierárquica de distopias futuristas para explorar temas como autoritarismo, alienação social e controle das massas, esquadrinhando a mitologia de Howey de maneira exímia e que nos deixa mais instigados e empolgados capítulo a capítulo.

O sucesso da obra não se destina apenas a Yost e a seu time de diretores e de roteiristas, que inclui o cineasta Morten Tyldum, conhecido por seu trabalho na subestimada ação sci-fi ‘Passageiros’. ‘Silo’ encontra prestígio na intrincada performance de Ferguson, que assume as rédeas dessa epopeia futurista ao se concretizar como uma improvável heroína que passa a trabalhar pelo que realmente significa ter esperança no futuro – acompanhada não só pelo incrível elenco supracitado, como também pela presença de Harriet Walker como Martha Walker, uma engenheira elétrica com agorafobia que se torna uma figura parental de Juliette; Rick Gomez como o impetuoso Patrick Kennedy, ex-traficante de relíquias que se torna aliado da protagonista; e Chinaza Uche como Paul Billings, delegado recém-contratado que vê seus ideais em xeque à medida que as verdades começam a surgir.

Atualmente com sua 3ª temporada em exibição, ‘Silo’ merece mais reconhecimento do que tem por se configurar como uma das principais produções sci-fi da década e por ocupar um lugar de destaque em meio ao extenso e aplaudível catálogo do Apple TV.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.