Desde sua estreia em 2013, ‘Rick e Morty’ tornou-se uma das grandes animações do século ao apostar fichas em uma história ao mesmo espirituosa e densa, apresentando aos fãs do gênero as desventuras de um velho cientista cínico conhecido como Rick Sanchez e de seu neto de bom coração Morty Smith – esquadrinhando uma narrativa movida a pulsões filosóficas e ao melhor que a ficção científica poderia nos apresentar. É claro que a atração passou por altos e baixos em meio a polêmicas internas e à saída do cocriador Justin Roiland do time criativo e do elenco de voz, mas, ao retornar com uma aguardada nona temporada, a série reiterou seu inegável status na cultura pop com episódios quase irretocáveis.
O novo ciclo da animação é o mais melancólico até hoje, dando continuidade a uma série de subtramas que foram exploradas nos anos anteriores à medida que continua a oferecer perspectivas diferentes dos personagens que aprendemos a amar – em especial Rick (Ian Cardoni), que logo de cara se atrela à controversa personalidade do Morty do Mal (Harry Belden, que também dubla a versão protagonista do adolescente) e se vê em um conflito moral com um alter-ego conhecido como Ted (em uma das narrativas mais pungentes de todo o panteão sci-fi).

Estendendo-se por dez capítulos que prestam homenagens às raízes propositalmente exageradas do projeto e que, ao mesmo tempo, traz ineditismos envolventes para cada um dos protagonistas e coadjuvantes, o showrunner Scott Marder se alia a um time competente de diretores e roteiristas para trazer sua visão à tona, optando por uma vibrante escolha de cores e de sequências de ação que, apesar de beirar o absurdismo, trazem uma verdade inescapável sobre a vida e sobre o que significa existir. Temos a familiar predileção de Rick em se envolver com androides do que com pessoas reais em “A Ricker Runs Through It”, as hilárias empreitadas de Jerry (Chris Parnell) em “Jer-Bud”, e uma solene exploração do inquebrável ciclo da evolução com “MortGully: The Last Rickforest”.
Conforme cada episódio se ergue em uma identidade única, Marder arquiteta pequenas obras-primas do streaming que se configuram como algumas das melhores entradas de toda a série: uma delas destina-se a “Ricks Days, Seven Nights” (já comentado no texto das primeiras impressões, que você confere aqui), onde somos apresentados ao “Rick de Férias” – um alter-ego com o nome de Ted que viaja para um planeta distante, destituído de suas memórias como Rick C-137 e encarnando uma personalidade mais simples, em um cenário à la anos 1990 no interior dos Estados Unidos. Reunindo-se com companheiros de longa data que passam as noites jogando boliche e pescando em um lago congelado, Rick é colocado em xeque com suas próprias crenças ao perceber que, em uma outra vida, ele seria mais feliz do que realmente é.

Em um parâmetro totalmente oposto, “Salute Your Morts” traz de volta o apaixonante laço entre Jerry e Beth (Sarah Chalke), cujo arco vem ganhando mais propulsão temporada a temporada. Depois de enfrentarem as turbulências de um matrimônio falido, terem se divorciado e reatado o casamento de maneira a explorar cada centímetro de seus desejos, eles resolvem fumar uma espécie de “baseado alienígena” que os deixa completamente inebriados, arremessando-os a uma das aventuras mais hilárias da série – e fazendo referência ao breve caso sexual que tiveram com a Beth do Espaço (também interpretada por Chalke).
Se a mais recente temporada começou com uma iteração divisiva, o season finale é a culminação de todas as explorações a que Marder nos convidou. “Field of Dreams”, dirigido por Eugene Huang e assinado por Heather Anne Campbell e Jess Lacher, é um dos episódios mais melancólicos da animação, trazendo o jovem adolescente navegando por várias realidades e assistindo ao próprio funeral – até, sem querer, ser descoberto por uma das versões de sua família que parece amá-lo mais do que tudo no mundo. Afastados de Rick, que entrou em um programa de reabilitação e não tem contato com os Smith há quase duas décadas, Jerry, Beth e Summer enxergam Morty como uma espécie de divindade, escondendo uma toxicidade problemática que, na verdade, é reflexo da inexorabilidade de um comportamento destrutivo.

A 9ª temporada de ‘Rick e Morty’ resgata as glórias de um dos melhores títulos da atualidade, apostando em pulsões criativas intrigantes e envolventes que a transformam em uma das melhores entradas da série até hoje – e que nos deixa ansiosos para o que foi preparado para os próximos anos.
Lembrando que a série está disponível na HBO Max.


